Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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André Malta fala sobre Literatura Grega e a compara com Game of Thrones e Breaking Bad

23 de agosto de 2016

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André Malta fala sobre Literatura Grega e a compara com Game of Thrones e Breaking Bad
O Recorte Entrevista desta semana está clássico! Entrevistamos o professor André Malta (46), que fez estudo sobre o Canto 24 da Ilíada no mestrado, trabalhou em uma interpretação do mesmo poema no doutorado e fez livre docência em 2013 sobre a oralidade em Homero, sempre em Grego Antigo, pela USP. É autor do livro “A selvagem perdição” (a interpretação de Ilíada), de diversos artigos, além de lecionar Língua e Literatura Grega na FFLCH-USP desde 2001. André nos contou um pouco sobre os seus estudos temáticos e comparativos da épica grega, além da atual pesquisa no outro poema de Homero, a Odisseia. O professor ainda fez comparações da literatura clássica com a contemporânea, com uma visão moderna, e opinou sobre a formação de leitores, os best-sellers, entre outros assuntos interessantíssimos, que você, caro leitor, confere agora com exclusividade.
 
RL – Como o professor é um pesquisador e especialista em Homero, não poderíamos começar com outra pergunta que não fosse a respeito de sua obra. Qual a importância da literatura clássica, sobretudo a homérica, para a produção literária e a formação de leitores nos dias atuais?
 
André –Não sei dizer. Acho que é bem pequena, ou nula. Hoje há muitas outras coisas ao alcance, com apelo mais imediato para quem se interessa por literatura. Na verdade, no Brasil, a tradição de se ler esses autores – e tomá-los como formadores – nunca existiu, mesmo entre os mais cultos, como acontece na Europa ou nos Estados Unidos. No final, o contato acaba sendo ou no meio acadêmico, ou indiretamente, pela mitologia, que é sempre popular. Mas mitologia não é literatura. O mito de Édipo é interessante em si (de uma perspectiva antropológica), mas ler a peça do Sófocles é outra coisa. A porta de entrada pela mitologia acaba sendo então um chamariz, mas não leva necessariamente a um entendimento, ou à curtição, do que era a literatura clássica. Para mim, como professor, uma maneira de fazer essa ponte é mostrar para os alunos como, mal comparando, as Ilíadase Odisseias atuais – ou seja, as histórias que são consumidas por um vasto público e têm qualidades inegáveis – podem estabelecer conexões com a produção antiga. Na minha opinião, hoje o formato narrativo mais bem-acabado não está nem no cinema (dominado pela ação típica dos games), nem no romance (preso à auto-referência autoral): são as séries que têm contato com a narrativa épica grega, pela extensão, pela dramaticidade, pela importância das questões. Breaking Bad, Game of Thrones, Bloodline, The Fall: prefiro pensar que são elas que podem levar um leitor a se interessar por Homero, desse jeito enviesado. Os clássicos hoje estão mais para pontos de chegada do que de partida. Eles não precisam ser vistos como a eterna fonte.
 
Imagem: Divulgação/Univesp
RL – Falando da educação escolar, como trabalhar os clássicos com uma juventude tão efêmera, que preza pela rapidez das informações e a superficialidade das coisas?
 
André –Não sou tão pessimista. A velocidade e o efêmero existem, mas tenho 46 anos e também sinto a pressão deles sobre mim. A realidade dos jovens de hoje é a realidade dos jovens de hoje, e eles são produtivos assim. Esse ritmo não leva necessariamente à superficialidade. Acabei de falar das séries, que os mais novos adoram, e algumas delas têm um nível altíssimo. Quem vê aquilo sabe que há coisas ali que são importantes, que aquela história quer dizer algo que vale a pena ser dito. Eu posso transferir a Odisseiapara a linguagem dos quadrinhos, para se tornar mais “rápida” e “acessível”, mas se eu fizer isso de um modo bem feito a Odisseiavai continuar viva, ainda que transposta. O melhor é não adotar uma postura nostálgica e saudosista, que é sempre muito chata e tentadora. Também não acho aconselhável encastelar os clássicos, ou imaginar que só ali as coisas aconteceram num nível extraordinário, que quase não existiu, antes ou depois. Os clássicos estão sendo produzidos, em diferentes linguagens, agora mesmo. Entre Safo, a poeta grega do século VII a.C., e Amy Winehouse,a cantora pop, a diferença de qualidade, intensidade, sofisticação, não existe para mim de forma absoluta: é muito mais uma diferença de perspectiva, de “gavetas” que criamos, junto com juízos de valor, para cada uma delas.
RL – Com a onda dos best-sellers invadindo as livrarias brasileiras, acredita que esses títulos podem “servir” como porta de entrada à literatura clássica?
 
André –Acho que ler sempre ajuda a ler mais. Mas, de novo: a escrita é uma “mídia” entre outras. Um rap pode me fazer entender mais rápida e profundamente Homero (pensando em alguém que queira acessar a épica grega) do que os mais eruditos livros, ou os mais descartáveis. Homero era oral, o rap é oral, Homero era meio falado, o rap também. Mas um poema da Angélica Freitas também pode me ajudar a entender Safo, e Safo era música, e a Angélica é poesia escrita. Os caminhos não são tão previsíveis assim.
RL – Italo Calvino afirmou em “Por que ler os Clássicos” que: “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo…” e nunca “Estou lendo…”. Concorda com a afirmação de que os títulos clássicos são sempre relidos, na perspectiva contemporânea do leitor?
 
André –Os clássicos são aqueles livros que um grupo da sociedade diz que são ótimos, e os outros são obrigados a aceitar, com a condição de que nunca precisem os ler (risos)… Então acho que quase ninguém lê essas obras (sejam antigas ou não), e que menos gente ainda as relê. Outra explicação “clássica” é de que os clássicos são os textos que podem ser lidos, a cada época, sob um olhar diferente e novo. Isso acontece, mas acho que a explicação de cada época é sempre meio oportunista e desinteressante (como uma adaptação que vi da Medeia de Eurípides, que a transformava em defensora da ecologia). Quando leio Macbeth, imagino que perceba ali o mesmo tema central, ou as mesmas ideias essenciais, que têm sido percebidas nos últimos quatrocentos anos: ambição, violência, culpa, loucura, a relação homem-mulher. O ser humano é mais ou menos o mesmo, sempre. Prefiro então definir um clássico como aquela obra que precisa ser lida, nem que seja uma só vez, porque ela foi capaz de tocar nessas questões de um jeito penetrante, como qualquer leitor desarmado pode perceber. Por essa definição, os clássicos estão sempre nascendo, porque os seres humanos continuamente se esforçam por fazer um retrato eloquente de si mesmos, e alguns desses seres, em épocas e lugares distintos, por motivos variados e muitas vezes inexplicáveis, conseguem chegar lá.
RL – Para finalizar, e voltar um pouco para a obra de Homero, a Ilíadanarra os últimos dias da Guerra de Troia, e chega ao ápice no grande confronto entre Heitor, príncipe de Troia, e Aquiles, guerreiro grego. É quase um senso comum credenciar o heroísmo da história a Aquiles, mas há quem diga que Heitor é o verdadeiro herói do poema. Como você vê essa questão e qual a relevância da escolha de um herói em histórias clássicas?

 

 
André –Existe um livro conhecido entre os estudiosos de Homero, Nature and culture in the Iliad, da década de 70, que defendia essa superioridade do Heitor como herói do poema. Os dois são, de fato, os protagonistas do poema e muito diferentes entre si. Aquiles é individualista, jovem, impulsivo, fisicamente insuperável. Heitor é casado, pai de um menino e luta para defender sua cidade e sua família, que são sitiados há anos. Pelos nossos padrões convencionais, o “herói” seria Heitor. A cena dele no palácio, com a mulher e o filho pequeno, num intervalo da guerra, meio que já antecipando a sua morte e o abandono daquelas figuras frágeis, é uma das mais bonitas da Ilíada. Para os gregos ele era o modelo do guerreiro destemido e patriota, que luta até o último momento para defender os seus. Além disso, ele está mais presente no poema do que o Aquiles, que desaparece da ação em boa parte da narrativa. Apesar disso, o herói central é Aquiles, porque ele é mais problemático do que Heitor. Certamente ele não é o mais “simpático” para o leitor, mas eu diria que o leitor não ama o mais simpático: amamos mais a Anna do que a simpática Kitty em Anna Karenina, e amamos mais o Walter White do que o Hank, o simpático policial, em Breaking Bad. São figuras transgressoras, excessivas, que fizeram escolhas que vão reverberar em suas vidas de uma forma extraordinária. Acho que um bom herói, ainda hoje, no fundo precisa ser de alguma forma essa figura extraordinária, perturbadora. Aquiles é. Heitor, nem tanto. Na parte final da Ilíada, quando Aquiles sai pela planície troiana e atravessa um rio chacinando todos os guerreiros que vê pela frente, ficamos perplexos com esse homem semi-bestial, semi-divino. Mas esse limite é fascinante: está ao mesmo tempo tão distante e tão ao alcance de todos nós. Somos, homens e mulheres, cotidianamente Heitores, mas o que nos mobiliza é essa possibilidade de sermos Aquiles.
 
Da Redação