Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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Recorte Lírico entrevista Alvaro Posselt, o poeta dos haicais.

3 de agosto de 2016

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Conversamos essa semana com o autor curitibano Alvaro Posselt, e com exclusividade ele nos contou sobre sua poesia de haicais, que talvez não seja tão conhecida para o grande público, embora haja certa facilidade na leitura. Alvaro nos confidenciou o seu começo na área de Letras, como conheceu o haicai, deu dicas para novos autores que tencionam entrar nesse mercado competitivo e falou sobre a crise econômica e cultural que refletem diretamente na parte editorial e nas vendas de livros. Foi um bate-papo incrível e você confere agora, no Recorte Lírico.

RL: Qual sua formação acadêmica e como o haicai entrou na sua vida?
Posselt: Sou formado em Letras pela Tuiuti, me formei em 2007 já com os 30 e poucos anos… Um pouco mais velho, pois tive alguns problemas de família e tivemos que nos virar… Tive que trabalhar muito cedo. Depois, com o incentivo da minha esposa, me matriculei no curso, mas já escrevia algumas coisas. Conheci o haicai lá na oficina de poesia da Biblioteca Pública, e daí no TCC fiz a tese “O Haicai em Sala de aula”, usando algumas oficinas no meu estágio, dividindo em artigos sobre autores de Curitiba, fiz até uma entrevista com José Marins, que é um importante haicaísta daqui de Curitiba… Que me ajudou um pouco sobre o haicai, pois antes só o conhecia como um poema de três versos… Aprendi muito depois da faculdade.

Alvaro publicou quatro livros de haicais.
RL: Qual momento decidiu utilizar os haicais para uma obra infantojuvenil?
Alvaro: Na verdade eu nem pensei nisso. Como o haicai tradicional fala da natureza, de um instante, ele é acessível para qualquer pessoa. Se a criança é alfabetizada, é acessível a ela. O haicai é para todo mundo, a simplicidade é a marca principal do haicai. Agora, como a minha linguagem é com humor, às vezes o leitor precisa ter um pequeno conhecimento de mundo, pois tem uma figura de linguagem, alguma coisa do tipo… E dai fui para as escolas e escrevi um livro infantil, que é o dos gatos (Entre arranhões e lambidas), com caixa alta, tudo especialmente feito para esse público infantojuvenil.

RL: Sabemos que você faz um trabalho social também nas escolas de Curitiba. Pode nos contar um pouco sobre isso?
Posselt: É um trabalho voluntário, faço oficinas de haicai para quartos e quintos anos, onde os próprios alunos fazem os haicais e depois nós colocamos no mural, no varal… É um incentivo, né, até para os professores, eles continuam o projeto a partir disso. Eu sugiro isso para as escolas, essa confecção, para que no fim do ano possamos levantar todas as produções dos alunos, isso é importante, mas nem sempre as escolas têm capacidade para fazer isso, às vezes até por recursos mesmo. Tenho vontade de pegar as ilustrações desses alunos e colocar em um livro meu, acho isso fundamental, é a minha forma de tentar incluir alguém.

O autor ainda autografou os livros que serão sorteados na fan page do Recorte Lírico

RL: Sobre a organização de eventos, que é algo que estamos tentando fomentar na cidade, você acha que a burocracia atrapalha a organização dessas feiras ou falta o interesse do público?
Alvaro: Não é falta de interesse do público, nós mesmo já organizamos por duas vezes a Semana do Livro Nacional, uma vez no Parque São Lourenço, no Centro de Criatividade, onde colocamos uma caixa de som, num frio danado, algo mais solitário, quem foi aproveitou, trouxemos até uma escritora do Rio de Janeiro, foi uma experiência. No ano seguinte já fizemos no Memorial (de Curitiba), que é um espaço fechado, tem o palco, e também nos viramos, puxando mesa e cadeira, de manhã tinha público, até por conta da feira do Largo da Ordem, mas à tarde tínhamos que ligar para as pessoas e pedir para não irem, por que não tinha público, mas existe um cativo, que gosta de literatura. Agora, não adianta alimentar a utopia de querer fazer uma coisa, por que será solitário, em um sentido mais amplo, agora, sendo na escola tem os alunos, o público da escola, tem um sucesso maior, agora depender de alguns órgãos é muito complicado.

RL: Falando um pouco sobre a questão editorial, sabendo que já publicou vários livros, qual seria o melhor caminho para o autor que está tentando publicar a primeira obra?
Alvaro: Então, eu já tenho uma concepção e uma certa experiência, por isso tenho muitas dicas, mas depois que fiz contato com outros escritores e fiquei ciente dos processos com as editoras deles, isso ficou mais claro, quando se trata de publicação independente, bancar todo o seu livro é a melhor forma. Eu banquei o livro inteiro, desde o processo de diagramação, ilustração, com a editora, eu fiz tudo. A minha editora, nos quatro livros que eu publiquei, me vendeu o produto livro, não tem nada de divulgação, eu fiz todo esse processo depois. No primeiro livro, comprei mil exemplares, que parecia muito para as pessoas, mas consegui fazer uma divulgação bacana, com sorteios, mostrando nas redes sociais, em um ano recuperei o investimento. Então ser independente é fundamental para mim, até para uma questão de designação de valor, de público, entre outras questões. Mas obviamente nem todo mundo terá essa condição.

Foto: Paulo Andrade
RL: Ainda falando sobre a questão editorial, a crise econômica que se alastrou no país prejudicou de alguma forma esse mercado?

Alvaro: Primeiro que se repete muito essa questão da crise econômica, porém sem muito conhecimento.  Agora, lógico que teve interferência, eu vendo os meus livros pelo Facebook e quando mando mala-direta, apesar do resultado não ser ruim, tem pessoa que fala que a crise tem dificultado nas compras de livros, principalmente para a minha última obra, mas o dinheiro às vezes está aplicado em outras “besteiras”. É uma questão cultural. Atrapalha também a concorrência que eu tenho às vezes quando vou em uma feira, tem lá os livros da mídia, que em sua maioria é mais caro que os meus livros, e a criança vai lá, decidi comprar aquele e acaba nem lendo… Tem essa concorrência que é esmagadora, por não ser conhecido, tem um menosprezo, por vezes até nas escolas, que se espera uma atenção maior, principalmente dos professores de português, logicamente não todos, mas nem sempre acontece essa satisfação em ter um autor lá. Então acho que é uma questão muito mais cultural que simplesmente crise econômica.