Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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Oberlan Rossetim, autor de ‘Cócegas na coceira’, confidenciou sua poesia ao Recorte Lírico

21 de setembro de 2016

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Hoje é dia de poesia, sim senhor! Entrevistamos o autor curitibano Oberlan Rossetim (27), que nos apresentou o seu novo livro, “Cócegas na coceira”, que é essencialmente poético. Oberlan ainda falou um pouco sobre sua relação com a Psicologia e como isso colabora em seu processo criativo e de análise humana, opinou a cerca das novas tendências e demandas do público-leitor, e por fim nos revelou as suas maiores inspirações e referências literárias mundo afora. Foi um bate-papo agradabilíssimo e você confere agora, com exclusividade. 

RL – Em alguns releases do seu livro você afirma que a obra não tem um único tema. Discorra um pouco sobre isso e, caso seja necessário, fale sobre os assuntos mais relevantes da história.

Oberlan – Quando eu falo para uma pessoa que escrevo Poesia, ela logo pergunta se eu gosto de escrever sobre o Amor, ou se eu tenho alguma Musa Inspiradora. Isso me deixa um pouco embaraçado, porque o Amor está em tudo, inclusive quando sentimos raiva, tristeza, se considerarmos que Amor significa pensar em algo. Se de alguma forma estamos ocupados com algum assunto, objeto ou alguém, estamos ligados a isso pelo Amor. Ele é uma energia, algo que põe em movimento a nossa imaginação e o nosso corpo. Quanto à Musa Inspiradora, penso que todo Ideal é algo impossível. E o Ser Humano é amante do impossível, do desconhecido, porque permite a Ele colocar-se à prova, ver onde é capaz de chegar. Poesia é isso: não ter para onde ir e pegar a estrada.
Eu não escrevo quando “estou mal”, ou quando “estou inspirado”. Eu trago questões em mim e fico pensando sobre elas. De repente, uma ideia se junta à outra e essa conexão faz-me compreender melhor alguma coisa sobre mim, ou sobre o céu que olho, ou sobre o que sinto. Escrevo aquilo que se aglomera no meu pensamento, batendo à minha mão para que ela escreva.
A ilusão da Musa Inspiradora resume-se em acreditar que vou encontrar uma ideia melhor sobre o que não sei no momento. Ou que não posso dizer. Todo Poeta se mete onde não é chamado. A árvore, o passarinho, o mar estão ali. São o que são. Precisa alguém dizer alguma coisa sobre eles, ainda mais falar além do que já foi dito por todo mundo, como, por exemplo, dizer que o mar é “a piscina do Luar”?
Eu gosto de dar definições sobre as coisas. Por exemplo, escrevi que “A Natureza é a mímica do Infinito”. Isso é Amor, porque pensei tanto na Natureza que acabei por fazer dela algo diferente do que ela é em si mesma. Eu abri uma possibilidade para ela, como se perguntasse: “- Gostaria de ser a mímica do Infinito?”. Ela se modificou, e eu também.
O meu assunto é a transformação das coisas e dos sentimentos.

Imagem: (Reprodução/Acervo Pessoal)
RL – Sendo um autor majoritariamente de poesia, você acredita que ela perdeu um pouco o espaço no cenário literário atual? Explique!

Oberlan – Na correria do dia-a-dia as pessoas querem literatura fast-food. Algo rápido e fácil de consumir. Algumas até procuram textos pouco sensíveis, visto que as relações contemporâneas perderam um pouco da profundidade que a experiência humana possui. E, se considerarmos a solidão como uma chaga social da nossa época, logo poderemos perceber o motivo de muitas pessoas recorrem à literatura de auto ajuda, como um ombro amigo, ou mesmo como uma solução rápida e garantida para tornar-se mais feliz, como uma receita de como viver melhor.
O texto poético é sempre carregado de muito simbolismo e sensibilidade. Sua leitura exige um trabalho de intelecto e de alma que alguém que esteja cansado depois de um dia inteiro de trabalho talvez não possua, ou seja,não tenha condições físicas ou emocionais para se concentrar naquilo que lê.
A Poesia inverte sentidos, inaugura e destrói linguagens. É preciso estar disposto a enfrentar a própria estrutura da língua para se aventurar nela.
No caso da Poesia não vale o ditado “Quem procura, acha.” Porque ninguém sabe muito bem o que procura e, quando pensa ter achado, o que se achou logo perde o seu valor de sentido último de um coração. Claro que há casos em que a Poesia ajudou a pessoa não a encontrar, mas perder alguma coisa que a ela era caro. A Poesia é um risco. As pessoas normalmente não querem correr riscos, mas ter estabilidade.
Nesse contexto, a Poesia talvez tenha perdido um pouco o endereço das cabeceiras e das prateleiras nas casas dos leitores. Pode ser também que Ela tenha encontrado um lugar na preferência de menos leitores, porém apaixonados por Ela. Quem gosta de Poesia, é fiel a Ela.
Os meus textos normalmente são curtos. Muitos deles são, como Paulo Leminski referiu-se ao Haikai, como um golpe de Judô, pois é um ato rápido e preciso. Apesar disso, o que costumo escrever não são Haikais porque esses têm uma estrutura definida, uma métrica. Eu ponho no papel o que me vem à mente.
Essa característica de muitos dos meus escritos talvez possa ser uma aliada à divulgação da minha obra e à apreciação dos leitores.
RL – Como psicólogo, pensa que a formação e a facilidade do estudo do outro colabora na construção poética, pelo ponto de vista antropológico?

Oberlan – O estudo da Psicologia permitiu que eu mergulhasse em minhas profundezas e de lá trouxesse partes de mim que precisavam ser revisitadas, ressignificadas. A partir dessas peças, precisei inventar outras, sempre sabendo que a peça que me falta apenas o outro pode me ajudar a encontrar, sabendo que é-me impossível dizer a ele o que procuro.
Eu sou o outro do outro. Ele imagina que eu guardo a peça que lhe falta, e eu acredito nisso também. Mas tudo o que eu guardo é um quebra-cabeça que tem uma peça faltando e que deseja o incompleto quebra-cabeça do outro, iludido, pensando que ele tem um quebra-cabeça completo, ou pelo menos a peça que me falta.
Esse jogo de sentidos, de invenção de algo para que eu possa suportar a minha própria falta de uma palavra final, ou de um dizer último sobre alguma coisa, um verso perfeito que seja exatamente o que eu queria dizer e o que o outro gostaria de ler, é que mantém a minha literatura.
Eu escrevo na linguagem do outro aquilo que eu sei que é impossível dizer, mesmo para mim mesmo.
A Poesia denuncia uma falha da palavra e um desejo de Silêncio, de um dizer total, que anule a busca da alma.
O Poeta é um inventor de si, mas que precisa compreender que o leitor inventa também quando o lê.
A Poesia é uma alma que não sabe onde caminha, mas que anda pelos caminhos que ela mesma constrói, porque desconfia dos trilhos por onde as outras almas já passaram. Ela diz ao outro: “Eu sei que posso ir por aí, mas será que não dá para ir por aqui?”.
É uma pergunta, uma investigação.
O Poeta apenas torna pública a sua procura, nem maior nem menor do que a do outro, mas diferente.

RL – Evidentemente Fernando Pessoa está na sua cabeceira constantemente… Queira que falasse sobre os autores favoritos e como tira inspirações deles para os seus poemas. 

Oberlan – Eu cresci numa casa onde havia muitos livros. Meu pai até hoje é um leitor assíduo. Nas minha infância havia uma prateleira recheada com bons livros. Eu gostava de folhear todos os tipos de páginas, e era fã de gibis.
Quando eu fiz oito anos de idade, meu pai deu-me de presente um livro com os melhores poemas do Casimiro de Abreu, que continha o famoso poema “Meus oito anos”. Foi quando eu fui fisgado pela Poesia. Nunca mais eu vi o mundo da mesma maneira. Eu andava com o livro para lá e para cá. Tudo eu tentava descrever, pôr em palavras.
Na mesma coleção de livros do meu pai havia uma antologia poética do Mário Quintana. Os textos curtos e profundamente sensíveis dele causaram nova revolução em mim. Aprendi a perceber os detalhes das coisas, e as punha no papel. Lembro-me que eu lia um poema do Quintana e tentava logo em seguida escrever algo. Assim surgiu muita coisa boa na minha obra.
Um pouco mais velho, adolescente já, conheci a obra do Álvares de Azevedo. Como não poderia ser diferente, foi Amor à primeira lida. Passei a sonhar de verdade, a buscar ilusões e, claro, a me decepcionar com o mundo. Não sei se eu queria encontrar esse mal-estar, ou se ele era inevitável. O fato é que nessa época escrevi muito sobre o Amor e sobre a Dor.
Paulo Leminski entrou em minha vida também na minha adolescência. Tornei-me outro. O que ele escreveu deu suporte a toda a minha angústia, a todos os meus desejos. Eu não teria escrito a maior parte da minha obra sem as delícias que o Leminski colocou nos meus ares.
Uma vez emprestei de uma biblioteca da cidade um livro de Olavo Bilac. Aí eu comecei a anotar o estilo dele, como ele montava as rimas. Eu nunca me preocupei com a estrutura do poema, mas pelo menos aprendi em que momento dele é melhor colocar uma rima. Bilac me rendeu inúmeros sonetos.
A Poesia concreta também fez parte da minha história. O poeta que me acompanhou mais nessa descoberta foi Ferreira Gullar.
Fernando Pessoa é um capítulo especial para mim, porque conheci-o já cursando Psicologia. Há muita Psicanálise e alma humana na obra dele. Eu sinto Amor pelo Pessoa.
Outros poetas me inspiraram, como Helena Kolody, Manoel de Barros, Alice Ruiz, Cecília Meirelles, Pedro Antônio Gabriel Anhorn, Augusto dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade.

Recebi influência também de autores como Friedrich Nietzsche, Erasmo de Rotterdam, FiódorDostoiévski, José Saramago, Gabriel Garcia Marquez, Clarice Lispector, Hermann Hesse, Franz Kafka, além da literatura psicanalítica. 

Da Redação