Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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“Jantar Secreto” empolga com narrativa envolvente

20 de março de 2017

Categorias:Artigo de Opinião,Resenha Tags:,

Quatro jovens deixam o interior do Paraná para viver o sonho de morar no Rio de Janeiro, se formarem e se tornarem grandes homens. Dante, que trabalha em uma livraria, Leitão, o nerd sem vida social, Hugo, um chef de cozinha em busca de reconhecimento, e Miguel, um futuro médico, não contavam que uma dívida de aluguel iria mudar as vidas deles para sempre.
A saída para pagar os R$ 30 mil em dívidas é bizarra: elaborar um jantar secreto com a elite carioca e cobrar uma fortuna por pessoa. O prato principal? Carne humana ou “carne de gaivota”, como preferem chamar. As consequências dessa escolha movimentam o livro Jantar Secreto, escrito por Raphael Montes.
 
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Prato principal do jantar é carne humana. (Foto – Reprodução – Ana Branco/Agência O Globo)
Sem limites
A obra é mais do que atual ao mostrar jovens se virando e em situações limites para sobreviver. Ele mostra, da pior maneira possível, até que ponto uma pessoa é capaz de chegar para conseguir alguma coisa. E também que, uma vez dentro de algo ilícito e rentável, nem a pessoa mais honesta consegue sair com as mãos limpas.
A narrativa envolvente fica a cargo de Dante, o protagonista e, até certo momento, o mais sensato do grupo. Com ótimas tiradas e excelentes observações, ele conduz a história utilizando com sabedoria o cliffhanger – recurso popularizado por Hitchcock que deixa o espectador/leitor ansioso pela próxima cena ou capítulo de um livro.
O primeiro jantar, realizado ainda no início do livro, acontece em meio ao caos dos quatro jovens – e mais Cora, uma prostituta que namora Leitão.
Esse evento serve apenas como estopim para a situação que vai piorando a cada página e se torna uma das tantas reviravoltas que têm o livro.
 
Complexidade
Raphael constrói personagens complexos, que evoluem do início ao final do livro – e é um grande salto em relação a Dias Perfeitos, sua obra anterior.
A narrativa gráfica de algumas mortes pode até chocar em alguns momentos, mas, inserido naquele contexto, não se torna gratuita.
O formato e a história poderiam muito bem ter sido escritos por Joel e Ethan Coen. Há muito dos irmãos roteiristas nessa história e nas situações propostas, o que mostra que Raphael Montes é um escritor pronto já na sua terceira obra.
Resta esperar para saber qual outra ideia bizarra vai sair da mente do escritor, que já está escrevendo um novo livro.
Matéria de Isabela Vieira/Agência Brasil para A Tarde.