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O amanho da memória – por Wagner Schadeck

8 de maio de 2017

Categorias:Artigo de Opinião,Resenha Tags:,

O amanho da memória – por Wagner Schadeck
A poesia luso-brasileira possui três mestres incontestáveis: Gonçalves Dias, António Nobre e Manuel Bandeira. Nestes poetas sui generisencontramos um rico armazém de formas e recursos poéticos, a que qualquer jovem pode acessar tanto para se formar culturalmente quanto para beber o vinho do espírito.
Poetas singulares, como eles, não forma epígonos, mas herdeiros. A partilha dessa herança inesgotável e sua manutenção é um imperativo poético, sobretudo, numa nação, como a nossa, terrivelmente assolada pela peste ideológica.
Temos visto, no entanto, de lado a lado deste país, o cuidado e o revezamento para reabastecer esse antigo celeiro do espírito humano.
É o caso deste Natal de Herodes, de Wladimir Saldanha. Confirmando as características de livros anteriores, este se destaca ainda mais seu valor unitário. Com a divisão – Tempo de Advento e Tempo de Natal, com um prólogo e um epílogo –, nesta obra podemos vislumbrar seu plano poético fundado na memória e no duplo.
É o caso do poema Visitação, por meio do qual lemos um roteiro de três cenas semelhantes, mas distintas. Com cortes cinematográficos, as três cenas da intimidade familiar indicam são também a rota de leitura do livro: as camadas anímica, histórica e transcendental.
A VISITAÇÃO
§
O homem chega à varanda da maternidade,
olha o dia como jamais o olhou antes.
Lá dentro está seu filho.
Volta quando alguém bate à porta,
a primeira vista:
traz um sorriso, um abraço,
um presente de rei mago.
§
O homem chega à varanda da maternidade,
olha o dia como jamais olhou antes
(mas outro dia ondula, como holográfico).
Lá dentro está seu filho
(mas outro filho passa lá fora, alheio, com seu outro pai).
Volta quando alguém bate à porta,
a primeira vista
(à décima na verdade, talvez a décima quinta),
traz um sorriso, um abraço
um presente de Herodes,
traz um gládio.
§
O homem volta à varanda da paternidade,
olha o dia como jamais.
Lá dentro está sua mulher
e seu feto. (Não sabe se deve
fazer a concordância no plural.)
Não distinguem os quartos
da currelagem e os do parto.
A primeira vista,
não traz sorriso, mas traz abraço
demorado, que o agasta.
Os móbiles sorriem, parece,
mas já sorriam das outras vezes: buliçosos, alegres.
Ele nunca os notou.
O feto expulso! Entreolham-se:
parece
     com o pai (Como talvez
o outro lá fora)
Em “Crônica de uma devoção menina”, poema dos mais admiráveis memoriais da infância, o poeta resgata, no melhor verso livre de nossa contemporaneidade, não só a memória íntima da infância, mas também a memória nacional e espiritual brasileira, exilada.
Poema de mestria é o Anagrama, no qual, como bem lembra o poeta Marco Catalão, traz “ecos de Poe”, aos quais acrescentaríamos os de Guimarães Rosa:
“O medo é o demo vestido de gente
no meio da mente escondida no peito;
no escuro do quarto, no fundo do poço,
eu juro — acredite! eu juro ter visto
um vulto de branco exibindo meu rosto
e era justo minh’alma e nada além disto…”
Segundo o poeta e tradutor Emmanuel Santiago, há em toda a obra de Saldanha um “desejo de transcendência”. Esse desejo se confirma no poema:
PAREIDOLIA
Vi o rosto que primeiro
morou, sonhou com a sanca,
ou o rosto do pedreiro
naquela parede branca?
Mordi o rosto sem queixo
mas com as maçãs que a mão
talhou, do próprio padeiro,
ou pé do demo no pão?
Rostos de mofo e de mofa,
de vislumbre ou sugestão,
sempre os tive: tecelão
atado à almofada, ao sofá,
oleiro entranhado em vaso,
carpina em cambau à porta:
um rosto que traz o acaso,
ou artes da moura-torta?
Sempre voltaram, contudo,
a meu desgosto pregresso:
madeira, argila, veludo,
a massa do pão e o gesso.
Ergui meus olhos à nuvem,
lasso de rosto que passa…
Verônica ao vento, agônica,
sudário que o azul esgarça,
o eterno, se ela mo dava
era quando rosto amorfo!
Nos trapos que eram os cirros,
o rosto roto do Cristo.
Pareidolia é um fenômeno psíquico de ver imagens (como rostos) em objetos. A referência bíblica é de profunda significação para o poema. Verônica é um dos nomes de maior profusão de significados. De nome de flor e movimento de toureada à etimologia eclesiástica. Verônica, a que enxugara o rosto de Cristo, significa também “Vero Icono” – o Verdadeiro Ícone.
 
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Herdeiro da técnica de Bandeira, algo mais singular do que palimpsesto eliotiano, Wladimir incorpora em seus poemas a alteridade poética, como em O torso arcaico de meu pai ausente Apolo, Medio blanca y medio roja, Onde Borges me devolve meu pai ausente, entre outros. Tal técnica é estendida para a tragédia de Herodes, entre textos:
“…os aquedutos, que teimam em não ser ruínas:
parecem ligar sempre alguma coisa
a outra, parecem nos trazer a água
ausente, em borbotões de ausência,
nas curvas alinhadas que pretendem
garantir um sentido, uma sequência, mesmo
depois de tudo findo, tudo findo
[ilegível]
como está…”
(Primeiro fragmento atribuído a Herodes)
Convém destacar essa tragédia de Herodes acompanha a comédia (nos sentidos aristotélico e de relato comedido) de Jesus.
“Eu sou Herodes, que saqueou o túmulo de Davi”
(Segundo fragmento atribuído a Herodes)
Na memória do poeta o tempo não é cronologicamente liner — enquanto as Parcas discutem se é possível, como o fio salivado, um Camelo passar pela agulha, o poeta reúne e amarra os fios esgarçados, como em Sob o sol de Cesareia, sobre o sol de Damasco ou no belo soneto de coda:
CLEÓPATRA VISITA HERODES
Consulta-o sobre as rendas da Arábia
a ela concedidas por Antônio,
e quando fala é como algum demônio,
acentuando o favor com a lábia.
e com uns ademanes quase exsuda
o próprio bálsamo de Gileade,
cujas rendas Antônio dera ao súcubo
também, que é ela; e diz mais: de qualidade
de umas palmeiras altas que lá crescem:
“As mais belas do mundo!”, insiste nisto,
como se ele, Herodes, não soubesse…
E compreendendo a irmã dos basiliscos,
a quem despreza, pensa livrar da peste
Antônio, e o mundo; mas calcula os riscos,
desiste – e a serena com presentes.
Na unidade poética, a “megalopsychia” de Herodes, personagem trágica, contrasta com o natalício humilde de Jesus Cristo.
“Nasce. E me apavora
sabê-lo. Foi um pesadelo:
os bichos de pelo
que O circundam.
Não posso crê-lo:
mente o demônio
vindo em meu sonho,
que um rei não nasce
como um campônio!…”
(Pelo rei Herodes)
Na camada psíquica, um momento pungente é a aparente estranheza de José, como pai:
“Então ser pai é estar ausência
ao lado.” (Por José I)
Essa perplexidade paterna se abre num duplo: ser o pai humilde do menino Deus. O duplo que se espelha como motivo no livro todo.
Ao recomendarmos este lançamento, saldando o poeta baiano, deixemos o leitor com este antológico soneto:
  
A CONSOADA
Para Lorena Miranda Cutlak
O menino põe tudo na boca:
põe na boca o fio de feno,
põe na boca o grão de incenso,
ouro e mirra põe na boca,
mal nasceu, deixa a mãe louca!
Não pode ser já venha dente
coçando na gengiva, crente
da Palavra que dirá tal boca…
Será engraçado contar-lhe num
dia sagrado, dia de jejum,
como a criança era esfomeada:
como quase comeu, bicho, o feno;
humano, o ouro; místico, o incenso
e a mirra; e quão total, a consoada.
Numa “lírica serelepe”, como a chamou Jessé de Almeida Primo, com a “intimidade universal”, de que fala Emmanuel Santiago, com este Natal de Herodes Wladimir Saldanha traz novas provisões àquele armazém dos mestres. 

         Wagner Schadeck nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) entre outros periódicos. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera. Pela mesma editora, publicou, em 2017, a tradução completas das Odes, de John Keats.