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Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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O desconforto em falar de suicídio

26 de maio de 2017

Categorias:Artigo de Opinião,Resenha Tags:, ,

O desconforto em falar de suicídio

É engraçado. Eu não queria — mesmo — falar sobre 13 Reasons Why. Na realidade, eu não queria nem mesmo ver. A ideia de assistir um seriado sobre as treze razões de uma garota adolescente ter se matado parecia realmente mórbido para mim. Contextualizando, eu tinha acabado de me reerguer de uma situação complicada — vou ser sincera, ainda estava me reerguendo — e não queria que algo assim me levasse para o poço de novo.

Mas então eu ouvi sobre a série na faculdade. E você sabe sobre aquela história do gato e da curiosidade. Eu pensei então — tudo bem, eu posso assistir isso. E pelos primeiros seis episódios eu acreditei que podia. Mas eu parei de ver — disse para mim que estava ficando chato — porque raios o Clay não escuta todas as fitas de uma vez?

Foi então que eu li a crítica sobre a série, escrita por Murilo Basso na Gazeta do Povo. “Treze motivos para não ver 13 Reasons Why”. De todos, um em particular me fez querer terminar a série: “Alguns motivos catalisadores para Hannah se matar beiram a futilidade”. Entenda, não sou mais nenhuma adolescente e vejo que — na cabeça que tenho hoje — os motivos de Hannah teriam sido quase banais (os primeiros deles, pelo menos). Mas…. Você se lembra como era ser adolescente? Eu lembro — me marcou para o resto da minha vida. É o inferno. Você não sabe onde pertence, qual é o seu lugar e não tem sensação temporal nenhuma. O “ensino médio” parece que vai durar para sempre. É só isso que você sabe. Quando seus amigos “te cortam”, parece que a sua vida acabou. E, mesmo assim, não é como se Hannah tivesse feito o que fez por causa de um motivo isolado. Foram situações atrás de situações que acabaram por desestabilizá-la emocionalmente e fazê-la pensar que não havia mais motivo para viver. A única coisa que eu quero dizer com isso é — nunca — e eu digo nunca — assuma que os motivos das outras pessoas são fúteis, que o que elas estão passando é pequeno ou menor do que qualquer outra coisa. A verdade é que você não tem a menor ideia de como isso a está impactando.

Dito isso, logo depois, a Associação Paranaense de Psiquiatria (APPSIQ) divulgou uma nota oficial sobre a série, que eu li antes de terminar todos os episódios. Eu posso dizer que o que foi dito me fez torcer o nariz para a série. Algo do estilo “Sério que eles mostram explicitamente o suicídio dela no final? Meu deus, o que vocês estão fazendo? Querem que as pessoas a copiem? ”. Existe até um termo científico para isso, se chama efeito Werther. Depois da nota, Murilo Basso e Maurício Brum falam um pouco mais sobre essas coisas e dizem o quão perigoso a série é para a população. Meio como se fosse encadear uma “epidemia” de suicídios. Olha — Talvez isso aconteça mesmo. Ninguém sabe o que se passa na cabeça das pessoas. É capaz que a série seja um motivante, não sei. Entretanto, depois disso, a única coisa que quis fazer foi falar sobre isso também.

Quando eu finalmente terminei de ver a série inteira foi que eu percebi o principal motivo de ter demorado tanto para prosseguir. E a verdade é que dói. Não sei bem dizer porque, mas para mim foi um conteúdo emocional muito intenso. Os peritos expressaram a sua preocupação com o fato de a série “romantizar” algo tão sério. E, no entanto, para mim, foi tudo menos romântico. Foi muito — muito — triste e angustiante e enervante e desagradável e incômodo. A todo momento — todo momento — eu pensava “Cara, olha o que você está fazendo com o Clay, e com os seus pais, e com o Tony…”. E até mesmo com as pessoas que a “machucaram” eu pensava — olha como você está destruindo vidas com o seu egoísmo.

Imediatamente eu lembrei de uma frase do seriado Sherlock Holmes, que eu havia assistido um pouco antes:

“Tirar a própria vida. Expressão interessante, tirar de quem? Quando acabar, não é você que vai sentir falta dela. Sua própria morte é algo que acontece para todos os outros. Sua vida não é sua. Tire suas mãos dela.”

Essa colocação tão simples, tão objetiva, fala tanta coisa…. Para mim, a série conseguiu passar tão bem como a vida das pessoas ao seu redor simplesmente desmorona se você fizer algo assim. Eu só senti que — se a Hannah pudesse ver, de algum lugar, tudo que ela causou, ela não faria o que fez, porque o caráter que ela tem deixa muito claro que ela nunca machucaria as pessoas que ela ama. E se ela soubesse — se ela tivesse a menor indicação de que aquela decisão faria tudo aquilo com todos eles…. Ela teria voltado atrás. Ela teria tentado mais. Ela teria encontrado uma saída.

No fim, a única coisa que eu quero realmente dizer é — a série não é perfeita, simplesmente porque nada é perfeito. Poderia ser melhor? Tudo poderia ser melhor. Abordou da forma certa ou não? Realmente não sei. Me fez pensar como cada coisinha que você faz ou diz repercute na vida dos outros de forma catastrófica. Mesmo quando você nem quis ser assim — cruel. Cada um tem seus problemas, cada um tem sua forma de lidar com eles. Mas nós podemos — devemos — tentar ser mais compreensíveis e amáveis com o nosso próximo. E criticando ou não a série, percebeu como ela conseguiu fazer o mundo se mover e falar sobre algo extremamente desconfortável? Acho que no fim, independentemente de qualquer coisa, ela alcançou o seu principal objetivo — abrir a discussão.

 

Fontes:

BASSO, Murilo. 13 motivos para não ver “13 Reasons Why”, a polêmica série sobre suicídio da Netflix. Disponível aqui. Acessado em 27 de Abril de 2017.
BESSA, Reinaldo. Associação Paranaense de Psiquiatria se manifesta sobre a série 13 Reasons Why. Disponível aqui. Acessado em 27 de Abril de 2017.
BASSO, Murilo; BRUM, Maurício. “13 Reasons Why” é mais nociva do que se imagina. Disponível aqui. Acessado em 27 de Abril de 2017.