Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

As Lágrimas de Manolin

10 de junho de 2017

Categorias:Crônica Tags:,

As Lágrimas de Manolin
Talvez eu só tenha um coração mole — mas, quando Manolin viu as mãos feridas de Santiago em “O velho e o mar”, de Ernest Hamingway, eu e ele choramos juntos.
Só fui entender essa minha reação emocional alguns dias depois, quando um professor comparou o livro com o poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa.
Valeu a pena?
Quando penso no velho Santiago, uma palavra me vem à mente, no idioma nativo de Hemingway: Struggle. É uma palavra que significa tão mais do que sua tradução “lutar”. Nas palavras do dicionário de Cambridge, significa tentar com muito afinco fazer algo incrivelmente difícil.
Santiago, para mim, foi a personificação de Struggle até o fim. Mesmo sozinho, ele agarrou a oportunidade que se apresentou a ele e lutou até conquista-la. Conquistando, ele lutou bravamente para mantê-la, mesmo quando os tubarões, aos bandos, destroçaram pouco a pouco tudo aquilo que ele havia conseguido. Ao voltar para casa — uma conquista por si só — com uma carcaça de triunfo e cicatrizes para lembrar-lhe do feito, parecia que iria desistir, mas nunca faria isso.
Valeu a pena?
Quantos de nós lutamos bravamente na vida, encarando suas dificuldades, só para ter tubarões invejosos minando nossos triunfos? Quantas vezes você teve suas conquistas transformadas em nada por adversidades que — bem, você deveria estar mais preparado, mas — te pegaram de surpresa? Tudo que sobrou foram cicatrizes e histórias.
Valeu a pena?
Algumas vezes a única coisa que você quer fazer é se arrastar para a cama, deitar de bruços e lamber as feridas. Algumas vezes você só quer desistir — afinal, como você é azarado! Mas — e se na próxima vez você estivesse mais preparado? E se sua faca não tivesse partido? E se você tivesse mais uma lança?
Valeu a pena?
Gosto de pensar no que Manolin estava pensando naquele preciso momento: “Você voltou. Eu pensei que você estava morto, mas você voltou. Como você sofreu… Eu deveria ter ido com você”. Mas no fim, o que fez aquelas lagrimas caírem, acho que não foi nada disso. Foi pura admiração e respeito…. Respeito e orgulho daquele homem que sofreu e suportou. Sofreu e voltou para contar história. Não desistiu. Em nenhum momento. É como diria Fernando Pessoa: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. E parafraseando um professor: como a alma de Santiago é grande!
E no fim, toda a luta de Santiago me fez encarar uma palavra de forma completamente diferente — sobreviver. Uma palavra quase sem significado hoje em dia, às vezes até mesmo mal falada — já que sobreviver não é “viver”. Mas, Hamingway, através do Velho e o Mar, me fez ver essa palavra de uma forma completamente diferente: viver além de. Passar pelo sofrimento que se há de passar e continuar. Como diria Santiago: “Um homem pode ser destruído, mas não pode ser derrotado”. Morrer, mas não desistir. E se sobreviver, levantar a cabeça com orgulho e dizer: eu ainda estou aqui.
Ao homem com tal determinação, minhas lágrimas — e as de Manolin.