Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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[Conto] Adeus, Sandra

15 de julho de 2017

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[Conto] Adeus, Sandra

Aviso de gatilho: suicídio.

Ele sentiu aquele cheiro insuportavelmente delicioso invadir suas narinas sem ser convidado. Ele sentiu todo seu corpo se contrair perante aquela sensação. Ele queria… não, ele precisava desesperadamente cravar seus dentes na presa responsável por aquele cheiro.

A criatura saiu desembestada pela rua deserta, seguindo aquele cheiro que teimava em lhe fugir, ao mesmo tempo em que continuava a lhe perseguir, completamente sedutor.

Por quatro quadras ele o perseguiu, sentindo-o ficar provocantemente mais forte a cada passo. Então ele a viu. A fonte daquele cheiro maravilhosamente enlouquecedor.

— Wesley?

Aquela voz o fez parar. Sim, ele conhecia aquela voz. Sandra, sua adorável Sandra… Ele sentiu seus olhos ficarem menos nebulosos. Ele sentiu a sede por aquele cheiro se acalmar. Mas foi só por um segundo.

Ele gritou de agonia. Sua forma animal estava novamente sedenta pela carne dela. Ela, aquela mulher que tanto desejara antes, quando ainda era humano. Agora, seu interior sobre-humano a desejava também. Mas a desejava com uma vontade animalesca, uma vontade que ele não queria ter.

Ele queria gritar: “Fuja! ”.

Ele queria gritar: “Lute! ”.

Mas ela não lutou. Ela não lutou porque reconheceu, em algum lugar daqueles olhos imensamente negros, o que antes foi seu adorado Wesley.

Você vai conseguir superar isso, eu sei que vai”. A lembrança o pegou desprevenido. “Você é mais forte que essa maldição, Wesley, eu sei que é”. Aquela voz doce ecoava em sua cabeça, e mesmo que sua forma não fosse mais a forma de um humano, sua consciência ainda residia em algum lugar.

Não vou machucá-la”. O pensamento ecoou forte por todo o seu corpo. Ele conseguiu reter suas garras antes que elas pudessem rasgar o rosto da amada. Entretanto, chegaram perto o suficiente para que uma pequena linha vermelha se formasse e escorresse por aquele lindo rosto.

Sandra olhou para o que restou de seu amado. Uma criatura semi-humana. Possuía os rabiscos de um corpo humano, mas estava coberto de uma pele preta como petróleo. Seus olhos eram completamente negros e inexpressíveis. Seu nariz, mais lembrando o focinho de um urso, parecia levemente mais molhado que o resto do corpo. O mais aterrorizante eram suas presas sobressaindo de sua boca. A criatura estava salivante pela presa que se encontrava a poucos centímetros de si. Mas, por algum motivo, hesitava.

Sandra tinha a arma para se proteger em seu coldre na cintura. Era uma arma especialmente desenvolvida para aquele fim: matar criaturas como aquela. Meio-demônios. Humanos que foram tocados pela maldição de um demônio verdadeiro.

Porque ela hesitava? Ela sempre disse a si mesma que não hesitaria. Aquele não era mais o Wesley que conhecia. Nunca mais seria. Wesley havia desaparecido no interior daquela criatura. O seu amado Wesley tinha sido devorado por ela.

Mas porque aquela criatura sem alma ou coração hesitava ao matá-la? Já havia hesitado duas vezes. Seria Wesley ali, tentando resistir? Como dar um fim a ele, se ele ainda estava ali, em algum lugar? Quem sabe ela pudesse salvá-lo?

Wesley lutava com todas as suas forças contra aquele instinto assassino. Wesley queria, mais do que tudo, que Sandra não fosse machucada por suas mãos. Por que ela hesitava? Porque não atirava de uma vez e acabava com a sua agonia? Ele não conseguia suportar aquela vontade absurda de ter aquele sangue quente descendo por sua garganta.

Ele tentou implorar a ela.

Um som rouco saiu de sua garganta. A mistura de um urro e um ganido de cachorro. Não, ele não tinha mais nenhum tipo de controle sobre seu corpo. Ele mal conseguia controlar seus próprios pensamentos.
Fuja, Sandra… Fuja…”.

Ela não conseguiu se conter ao ouvir aquele gemido. Aos poucos, como se não tivesse muita certeza, ela tentou esticar a mão e tocar aquele homem que um dia foi seu. Ela sentiu a textura estranha sob as digitais de seus dedos. Algo meio plástico, meio seda. Ao mesmo tempo macio e áspero.

E então, como se um milagre acontecesse, aquela pequena parte embaixo de seus dedos perdeu a coloração negra e voltou à pele humana que um dia fora. Aos poucos, aquele toque fez com que Wesley conseguisse se ater melhor ao que era. Finalmente, ele conseguia formar um único pensamento.

Sandra nunca estaria segura ao seu lado. Enquanto ele, parte humano, parte demônio, controlado pelo animal, estivesse vagando por aquele território… ela não estaria segura. Tudo o que ele queria é que não fosse ele a pôr a vida dela em risco. Ele precisava acabar com a própria existência. Ele precisava desaparecer. Mas como? Se ele nem possuía controle sob o próprio corpo?

Foi então que, lentamente, com aquele leve toque dos dedos de sua amada, ele foi recobrando o controle sob seus membros. Lentamente, ele foi recobrando a liberdade de pensar. Lentamente, sua parte humana foi conseguindo recobrar o controle de si.

Por fim, o instinto, finalmente, praticamente se esvai. Dentro dele, não existia mais aquele instinto de sobrevivência, aquela fome. Não existia mais a sede. Tudo que o definia era seu amor. Seu amor por Sandra e a vontade terrível, incontestável, de que ela pudesse ficar a salvo. A salvo do mundo, e, principalmente, a salvo dele.

Ele viu o brilho da arma no coldre da cintura dela. Aquela arma, que era para mantê-la segura. Então ele entendeu: ela nunca iria machuca-lo. Ela não conseguiria. Mesmo naquela forma odiosa…. Ela nem pensara em pegar a arma. Ela nem pensara em sobreviver…

Aquela era a sua Sandra… E ela morreria por ele. Ela morreria pelas garras dele, se fosse necessário. Mas ele não permitiria isso.

Ele morreria por ela.

Com um movimento rápido de sua mão boa, Wesley pegou a arma de Sandra, mirou exatamente o ponto que sabia ser fatal, por debaixo da garganta, e atirou sem pensar. Ele sentiu a bala diferente, especializada em acabar com sua natureza, penetrar a sua carne e ir queimando, pouco a pouco, aquele ser que existia dentro dele.

Sandra viu tudo acontecer chocada, sem ter reação nenhuma ao que acontecia. De repente aquela criatura caiu imóvel a sua frente, uma mão humana, e o resto ainda meio-demônio. Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas e o desespero inundar seu coração. Era definitivo, nunca mais ela veria seu amado.

Ao olhar aquele rosto que um dia havia sido seu querido Wesley, ela viu as lágrimas que ele tanto queria ter derramado naquele momento. E no fim, Sandra soube que Wesley conseguiu sim, superar sua maldição. Conseguiu sim, ser mais forte que ela. Porque Wesley morreu como um humano que decide morrer, não como um animal morto por um caçador. Ela deixou suas lágrimas escorrerem, caírem e molharem o rosto desfigurado. Com os dedos, ela fechou os olhos imóveis e sussurrou, somente para os mortos ouvirem: “eu também te amo”.