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Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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A ironia de ser perfeccionista

29 de julho de 2017

Categorias:Crônica Tags:,

A ironia de ser perfeccionista

Na realidade, eu queria escrever sobre procrastinação. Já fazem alguns meses que a ideia de escrever sobre isso veio à minha mente, mas nunca sentei para realmente falar sobre isso. É um tópico pessoal, pois sempre me considerei procrastinadora e sempre senti necessidade de compartilhar meus pensamentos sobre isso. O que eu não sabia é que pensar sobre algo tão simples me levaria a fazer tantas descobertas sobre mim mesma.

Entenda, eu venho sofrendo já a algum tempo com alguns sintomas bem perturbadores. Começou pequeno: gastrite, enxaqueca, dores generalizadas pelo corpo. Continuou se alastrando: transtorno de ansiedade, crises de pânico, depressão. Afetou minha capacidade de trabalhar, viver e sentir qualquer tipo de alegria com qualquer coisa. Tudo que eu conseguia pensar era em como eu era um desperdício de espaço. Um pedaço quebrado de nada. O desespero de não saber porque eu me sentia assim era tão grande que a recusa em viver foi se tornando maior e maior e maior. A coisa escalou de tal forma que, por fim, aceitei: eu precisava de ajuda — muita ajuda.

Entretanto, por mais ajuda que eu tivesse, eu não estava me sentindo melhor. Eu sabia tudo que não era: a saúde estava boa (tirando o que me incomodava) e a vida não era assim tão ruim. Mas eu não conseguia achar a causa de tudo o que estava acontecendo comigo. A única coisa que eu sabia, é que eu tinha deixado de ser uma pessoa funcional. E por mais sensato que parecesse, eu não conseguia aceitar o fato de que era a minha própria cabeça que fazia isso tudo comigo. Eu repetia para mim mesma “eu não sou assim”. “Eu não faria isso”. Pensar me deixava louca. Não pensar me deixava louca. Eu estava pouco a pouco caindo na insanidade.

Então, um dia, eu desisti. Disse para mim mesma que não havia resposta. Tentar achar uma resposta só iria piorar a situação. Existe algo levemente libertador em simplesmente parar de se importar. Em simplesmente falhar terrivelmente em alguma coisa. A cobrança vai embora. Tudo fica mais claro e você decide que você gosta muito de escrever e vai falar sobre uma das coisas que te atrapalham — procrastinar.

A pergunta mais óbvia pra mim foi: porque eu procrastino? A resposta estava na ponta da língua: “sou perfeccionista”. Você tem que entender a ironia desse quadro — nos quinze minutos seguintes a esse pensamento, minha mente viajou tão rápido para minha vida inteira, para todo o meu sofrimento, para todos os meus problemas e eu fiquei de boca aberta. A resposta estava ali, na minha frente, escancarada, na ponta da língua. Minha mãe um dia me falou “perfeccionismo é uma doença”. Eu nunca pensei que ela estivesse realmente falando sério.

E é tão… Engraçado perceber como aquilo que antes você dizia com tanta propriedade ser uma das suas qualidades de repente se transforma no seu maior problema… Eu tive que rir. E o mais estranho, é que de repente tudo fez sentido. E eu digo tudo — tudo mesmo. Todas as escolhas da minha vida, todos meus erros, todas as minhas desistências. Tudo fez sentido.

Reshma Saujani, fundadora do “Girls Who Code”, defende que estamos criando as meninas para serem perfeitas. A história que ela conta falou demais comigo e me explicou coisas sobre mim que nunca tinha parado para pensar. Hoje vejo que quando tentei “fugir” do meu perfeccionismo de escrever textos, fui aterrissar no pior ramo que eu poderia: programação. É o pior lugar para um perfeccionista patológico, porque não existe perfeito em programação. Tudo é imperfeito e falhas são tão pequenas quanto colocar um simples “;”. Eu senti que não conseguiria fazer mais isso, porque a falta de tudo me deixava louca. Então, tentei a próxima coisa. Marketing, design. Em pouco tempo, já me achava incapaz de fazer isso de forma satisfatória. Foi mais ou menos por aí que a depressão começou com toda a força, me debilitando a tal ponto que eu simplesmente não conseguia mais pensar. Eu era a personificação “se não vai ficar perfeito, não vou fazer”. Logo, se tornou: “se a vida não pode ser perfeita, porque viver?”

As vezes acho que precisamos agradecer ao pânico. O pânico me acordou pra vida, me fez procurar ajuda nas pessoas perto de mim. Se você não é perfeccionista, nunca vai entender como é difícil admitir que você precisa de ajuda. Que você não está bem. Você nem consegue passar toda a extensão do seu sofrimento, porque, se você fosse a pessoa perfeita que você deveria ser, você não estaria sofrendo com isso. Você se descobre numa armadilha. Numa armadilha tão complexamente armada que parece simplesmente impossível sair de dentro. A mentira que você construiu é tão bem elaborada, que nem você consegue mais desatar o seu nó. Em um ponto você sabe que a expectativa é toda sua, mas no próximo momento, essa expectativa está no olhar de todos. De repente, perfeito vira “mínimo aceitável” e a expectativa ficou simplesmente impossível de cumprir e você já sabe, antes de começar, que você vai falhar terrivelmente e que tudo será um completo fracasso. É aí que você simplesmente não quer mais tentar de novo.

E eu vou admitir agora, para mim, e para você, que esse texto não está dentro do meu “aceitável”. Que esse texto fala demais sobre mim e meus defeitos e minhas inseguranças e que eu realmente não queria que isso caísse nos olhos de qualquer pessoa. Mas, como parte do meu processo de limpeza, ele está aqui, para você ler. Porque perfeccionismo não é bom. Por isso, não se chame de perfeccionista. Se você dá atenção a detalhes, você só é detalhista. Agora que eu sei o que o perfeccionismo faz com uma pessoa, não vou mais dizer que existe perfeccionismo saudável, porque essa é só mais uma armadilha. Você diz pra si mesmo que você é um perfeccionista saudável, que o “seu melhor” é suficiente, e você só está mentindo para si mesmo, tentando alcançar aquele ideal que não existe. Porque você não devia ser ninguém. Nem mesmo “você mesmo”. Não se cobre de ser qualquer coisa. Só seja.

Fontes:

Reshma Saujani: Ensine coragem às meninas, não perfeição

Charly Haversat: Perfectionism holds us back. Here’s why

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