Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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Sujas de glacê

20 de novembro de 2017

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Sujas de glacê

Desde muito cedo, aos onze, Paulinho já tinha responsabilidades demais. Apertava-se em um barraco de dois cômodos com a mãe e duas irmãs menores. O pai, alcoólatra, saiu cedo um dia e nunca mais voltou. Abandonara o colégio aos nove anos para ganhar alguns trocados lavando para-brisas, vendendo chicletes no semáforo e o que mais aparecesse. Essas moedas feitas na rua completavam a renda da família.

Faltavam dois dias para que sua mãe completasse quarenta anos e, uma ideia não saía de sua cabeça: comprar um bolo que havia visto na vitrine de uma confeitaria fina, próxima a um dos semáforos onde batalhava um dinheiro.

No dia do aniversário, Paulinho acordou mais cedo que o de costume. Buscou dentro de um tijolo solto, duas notas de cinco reais que havia poupado. Vestiu uma camiseta surrada como todas as outras que tinha e partiu com uma indescritível sensação de bem estar.

Frente a vitrine, namorou o bolo por alguns minutos e adentrou a confeitaria, condenado pelo olhar de quem ali estava. Perguntou pelo preço do quitute. Custava quatro vezes mais do que o valor que tinha. Explicou de peito aberto a situação, propondo pagar o restante na próxima semana. A vendedora riu e chamou o gerente que, sem antes de ouvir o menino, pediu para Paulinho que se retirasse, ameaçando chamar a polícia. Assim como todo menino do bairro onde morava, tinha pavor da polícia. Os presentes estranharam o fato, mas logo voltaram a discutir os problemas do país com a propriedade de quem não tem problemas.

Tomado de uma angústia, correu à casa de Caixote, antigo amigo de futebol que, há uns meses, havia trocado a vida de menino pelo tráfico. Encontrou-o na porta de sua casa, abraçado ao tédio como outros por ali. Após alguns minutos de conversa, Paulinho saiu dali com um revólver trinta e oito preso na bermuda e uma dívida com Caixote. O peso da arma tornou tortuoso o caminho. Seus passos ficaram pesados. Tremendo, chegou à confeitaria. Com uma voz que não era sua, anunciou o assalto. Os clientes abaixaram-se assustados. A vendedora entregou o bolo. Sem controle da situação e, não entendendo o que ali estava acontecendo, Paulinho saiu em passos trêmulos, segurando bolo e a trinta e oito.

Os gritos de “Pega ladrão!” perpetuaram-se. Pela vitrine, todos puderam assistir o policial que ali passava alvejar o garoto pelas costas, que caiu abatido sobre o bolo. A vendedora, ainda sem forças para assimilar o acontecimento, percebeu que antes de sair o garoto havia deixado algo sobre o balcão. Eram duas notas de cinco reais, amassadas e sujas de glacê.

 

 

Leia, clicando aqui, outros contos do colunista Zé Ciabotti.
  • Farrel Kautely

    Nossa!