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Por que J.R.R. Tolkien não gostava de “As Crônicas de Nárnia”?

17 de fevereiro de 2018

Categorias:Artigo de Opinião Tags:, ,

Por que J.R.R. Tolkien não gostava de "As Crônicas de Nárnia"?

J. R. R. Tolkien (autor de O Hobbit e O Senhor dos Anéis) era um grande amigo de C. S. Lewis (autor de As Crônicas de Nárnia). Os dois se reuniam em bares ou em casa para discutir sobre seus escritos. C. S. Lewis sempre lia os manuscritos de Tolkien, e vice versa. Lewis era completamente apaixonado por O Hobbit e admirava muito o mundo fantástico que Tolkien criou (A Terra-média e tudo o que a envolve). O pequeno problema, é que essa admiração não era recíproca, porque é inegável o fato de que Tolkien não gostou de nenhuma das obras de C. S. Lewis.

C.S. Lewis se inspirou em vários nomes que aparecem em O Silmarillion, de Tolkien. Entretanto, ele se inspirar em algumas criações de Tolkien não parece ter sido um problema, mas sim o fato de que a obra de C.S. Lewis era muito religiosa. Há várias cartas dos autores em relação a isso, eis abaixo a opinião de Tolkien sobre Nárnia:

É triste que “Nárnia” e toda essa parte da obra de C.S.L. deva permanecer fora do alcance de minha simpatia, tanto quanto a minha obra estava fora da dele.

Estou feliz que você tenha descoberto Nárnia, mas já que você perguntou se eu gostei receio que a resposta é Não. Eu não gosto de “alegoria”, e muito menos alegoria religiosa desse tipo. Mas essa é uma diferença de gosto que ambos reconhecemos e não interferiu em nossa amizade. (Carta 265)

Apesar desse comentário, Tolkien não queria que isso interferisse na amizade deles, tanto que ele indicou uma ilustradora para o livro (já que C.S. Lewis não era tão bom em ilustrar quanto Tolkien) e também recomendava que sua sobrinha lesse As Crônicas de Nárnia, mas de fato, o autor detestava alegorias de qualquer tipo e ele deixa isso muito claro no prefácio da segunda edição de O Senhor dos Anéis. Segundo Tolkien, livros alegóricos se restringem a dominação do autor, deixando margem para muitas interpretações dos leitores (nem sempre corretas).

George Sayer, um amigo dos dois autores que também frequentava o pub Eagle and Child, em Oxford (que era onde eles costumavam se reunir), deixou algumas considerações sobre o comentário de Tolkien a Lewis:

[Lewis] ficou machucado, espantado, de desanimado quando Tolkien disse que achou que o livro era quase inútil, que parecia um amontoado de mitologias não relacionadas. Tendo em vista que Aslam, os faunos, a Feiticeira Branca, Pai Natal, as ninfas e o Sr. E e a Sra. Beaver tem origens mitológicas ou imaginativas bem distintas, Tolkien penso que era um erro terrível colocá-los juntos em Nárnia, um único país imaginativo. O efeito foi incongruente e, para ele, doloroso. Mas Jack (apelido de Lewis) argumentou que eles existiam felizes juntos em nossas mentes na vida real. Tolkien respondeu: “Não em meu, ou pelo menos não ao mesmo tempo”.

Tolkien nunca mudou seu ponto de vista. Ele detestava tão fortemente o amontoado de figuras de várias mitologias nos livros infantis de Jack, que ele logo desistiu de continuar lendo. Ele também achava que foi escrito de forma descuidada e superficial. Sua condenação foi tão severa que há a suspeita de que ele invejava a velocidade com que Jack escrevia e comparou seu próprio método trabalhoso de composição. (Sayer, George. Jack: C.S. Lewis and His Times. p. 189)

A mistura de mitologias não deveria ser um problema para Tolkien, afinal, na Terra-média muitas raças vivem juntas também. O problema, é que, segundo Tolkien, Lewis colocou os elementos da mitologia cristã de modo muito óbvio. Tolkien era católico e grande conhecedor da bíblia, talvez por isso tenha desaprovado a escolha de Lewis. Walter Hooper, que foi secretário de C.S. Lewis um ano antes da morte dele, tornou-se um grande protetor das obras e da biografia do autor. Ele falou um pouco sobre esse desgosto de Tolkien:

O Professor Tolkien uma vez me disse que achava os elementos cristão nas histórias Narnianas muito “óbvios”. Mas eu acho que isso é devido ao fato de que ele não apenas conhecia a Bíblia melhor que a maioria de nós, mas começou a entender até onde Lewis estava “chegando”. Julgando pelo que eu escutei, apenas cerca de metade dos leitores de Lewis achavam que Aslan significa Cristo – e que metade isso são igualmente crianças e adultos. (Hooper, Walter. Narnia: The Author, the Critics, and the Tale. p. 110)

Por fim, Humphrey Carpenter explica claramente porque Tolkien não gostava do mundo Nárnia.

Tolkien foi, por sua própria admissão, um homem de simpatias limitadas. Faltava-lhe o desejo habitual de Lewis para estar entusiasmado com o trabalho de um amigo, simplesmente porque ele era um amigo. Ele julgou histórias, especialmente histórias nesta veia, por padrões severos. Ele não gostava de obras de imaginação que foram escritas às pressoas, insconsistentes em seus detalhes, e nem sempre eram totalmente convincente em sua evocação de um “mundo secundário”. Esta foi uma das razões por que tinha levado os últimos onze anos para escrever O Senhor dos Anéis, que ainda não tinha terminado no momento em que Lewis começou a escrever O Leão. Cada ponta solta, cada detalhe da história – a cronologia, a geografia, mesmo a meteorologia da Terra-média 0 tinha que ser coerente e plausível, de modo que o leitor (como Tolkien desejou) tomasse o livro em um sentido como história.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa afronta contra todas essas noções. Tinha sido escrito muito às pressas, e esta pressa parecia sugerir que Lewis não estava levando o negócio da “sub-criação” com o que Tolkien considerava uma seriedade adequada. Houve inconsistências e pontas soltas na história, enquanto que além das demandas imediatas da trama a tarefa de fazer Nárnia parecer “real” não pareceu interessar Lewis. Além disso, a história emprestada tão indiscriminadamente a partir de outras mitologias e narrativas (faunos, ninfas, Papai Noel, animais falantes, qualquer coisa que parecia útil para a trama) que, para Tolkien a suspensão da descrença, o entrar em um mundo secundário, era simplesmente impossível. (Carpenter, Humphrey. The Inklings, p. 223-224).

 

Então, pode-se concluir que Tolkien não gostou da criação de Lewis por uma série de razões. Talvez pelo tempo investido e pelo resultado superficial e pouco explicativo, a mistura exagerada de seres de contos de fadas com mitologia cristã. Tendo em vista que Tolkien era bastante descritivo em suas obras, primava pelos detalhes e investia muito tempo nisso, ele provavelmente deve ter achado que a dedicação de Lewis, em comparação com a sua, era muito fraca. É difícil dizer se Tolkien tinha inveja da rapidez de Lewis, porque o foco de Tolkien nunca foi vender suas obras, e sim escrevê-las para seus familiares. Lewis, entretanto, mal escrevia e já entrava em contato com as editoras. O que importa é que, mesmo que Tolkien não tenha gostado da obra e ter dito isso, os autores não perderam a amizade, ainda que a crítica de Tolkien não tenha sido construtiva.

Quem já leu um pouco de Tolkien e As Crônicas de Nárnia, já pode perceber que a crítica de Tolkien é verdadeira, mas para mim, enquanto leitora, acho que a obra de C.S. Lewis é tão genial e incrível quanto a de Tolkien (por mais que eu goste muito mais de Tolkien). E você, o que acha?

 

Trechos retirados do site Tolkien Brasil. (http://tolkienbrasil.com/biografia/a-opiniao-de-tolkien-sobre-as-cronicas-de-narnia-de-c-s-lewis/)

 

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