Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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[a desculpa do waack]

24 de abril de 2018

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Cleiton é um homem espirituoso e otimista, mesmo agora que está passando por uma tremenda prova.

Não existe copo meio vazio para ele, a não ser que seja ele a beber o que está no copo. Acredita piamente em prosperidade por força de vontade. Todo dia de manhã saúda cada conhecido seu com uma mensagem de bom dia, acompanhada de coisas como trechos da música “Tente Outra Vez”. É uma espécie de mestre em ascensão a guru na manipulação cognitiva por trás do que chamo de “Filosofia Barata de Facebook”, uma ramificação muito popular do pensamento filosófico que todos chamam “Filosofia de Orkut”. Ocupa também o posto de melhor contador de testemunho na igreja. Jonatan, um sujeito na época no meio do caminho para o ateísmo e que já se referia mentalmente a deus como “A grande incógnita” em meio a suas reflexões, atribuiu o posto a Cleiton na noite em que nosso herói espirituoso conseguiu transformar um procedimento de canal em seu dente em estado de apodrecimento numa espécie de epopeia.

Pois assim é como ele se sente: um herói abençoado. Não faz muito tempo que passou a sentir-se esclarecido também. Leu um livro chamado “O Segredo” e incorporou os ensinamentos dele em sua filosofia. Agora é um herói dotado de sabedoria e esclarecimento.

E foi num ato heroico que ele abordou uma moça que chorava num ponto de ônibus, na madrugada em que ele voltava à pé de uma confraternização da igreja.

Perguntou à moça o que havia acontecido e ela respondeu, entre soluços:

“Minha vida é uma merda.”

O herói disse a ela que não dissesse isso e emendou falando num tom sábio que

“A vida é bela.” e que “Às vezes aparece um ou outro problema. O que você tem que fazer é acabar com eles da melhor maneira possível para poder seguir gozando da beleza que a vida oferece.”

Um brilho de compreensão preencheu os olhos da moça, antes que ela agradecesse. O sábio herói alegrou-se com tal brilho e disse “por nada, minha filha”. Despediu-se dela dizendo a deus para que a abençoasse e seguiu seu caminho, feliz da vida.

Jonatan, já ateu, disse que não estava surpreso quando ouviu dizer que Cleiton tinha tido prisão decretada por suspeita de cúmplice em assassinato.

“Nunca confiei naquele cara”, disse.

Hoje Cleiton espera que tudo seja esclarecido com a justiça.

 

 

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