Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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A simbologia do “verme” na literatura mundial

23 de abril de 2018

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A simbologia do “verme” na literatura mundial 1

É de conhecimento geral que um dos principais temas da literatura é a morte, personagem sempre presente nas pontas das canetas dos poetas e algoz eterno da humanidade. A morte é com absoluta certeza um dos temas que mais intriga o homem não somente na literatura, mas em todas as formas de arte e na sociedade como um todo. Geralmente ela é representada pela escuridão, por cenários fúnebres ou por sentimentos de efemeridade e melancolia.

Além dessas simbologias, a morte também é representada pelo termo “verme”, atribuindo ao ser rastejante que se alimenta da decomposição a imagem da morte, dando-lhe um corpo físico, mas é preciso manter em mente que aqui tratamos do “verme” como um artefato simbólico usado para representar a morte Podemos comentar vários autores que fizeram uso dessa representação em seus textos, falemos de três deles: Augusto dos Anjos, Machado de Assis e Shakespeare.

Augusto dos Anjos foi um dos poetas brasileiros que mais tratou da morte em seus poemas, além disso, a forma como ele o fazia é bastante peculiar, uma vez que ele tinha um olhar puramente cientificista da morte. Em poemas como “Deus-Verme” e “Psicologia de um Vencido” ele aponta para o verme como uma entidade consciente, que espreita aqueles que estão perto da morte. Observe os poemas citados anteriormente:

 

O Deus-Verme

“Fator universal do transformismo.

Filho da teleológica matéria,

Na superabundância ou na miséria,

Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

 

Jamais emprega o acérrimo exorcismo

Em sua diária ocupação funérea,

E vive em contubérnio com a bactéria,

Livre das roupas do antropomorfismo.

 

Almoça a podridão das drupas agras,

Janta hidrôpicos, rói vísceras magras

E dos defuntos novos incha a mão…

 

Ah! Para ele é que a carne podre fica,

E no inventário da matéria rica

Cabe aos seus filhos a maior porção!”

 

Psicologia de um vencido

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

 

Profundissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância…

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

 

Já o verme — este operário das ruínas —

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

 

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há-de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!”

 

Augusto traz em seus poemas um olhar totalmente biológico da morte, com a paralisação dos órgãos e o fim permanente da atividade cerebral, uma morte de viés unicamente carnal, desconsiderando a existência de uma alma ou de algum tipo de vida fora do corpo. A morte é então um fim completo da vida e não apenas um fim do corpo físico. O verme, alimentando-se dos cadáveres e deixando deles “apenas os cabelos”, é o agente responsável por esse processo, não pelo fim da vitalidade do corpo, mas pelo apodrecimento e a decomposição, que são também alvos do sentimento frio e melancólico de Augusto em relação à morte.

Augusto parece estar intrigado com o fato de que o verme destruirá todos os resquícios do cadáver, fazendo desaparecer aquilo que antes fora uma pessoa. É por culpa do verme que esse fim é algo tão horrendo, sendo um processo repugnante a que o ser humano é submetido à força, independentemente de quem tenha sido em vida e do que tenha feito. Do pó veio e ao pó há de retornar.

Machado de Assis, usando a voz de Brás Cubas, também utiliza a imagem do verme para representar a própria morte, confere-se logo na dedicatória:

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.

Há também no romance um trecho em que ele compara as pessoas a livros: ao longo de nossas vidas vão se criando novas edições de nós mesmos, porém, no final essa larga biblioteca que é a humanidade está toda destinada aos vermes:

“Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.”

Nesse ponto a associação da morte ao verme fica clara e é fácil perceber como ele é a morte encarnada em um corpo físico, mas em nada humano (como aponta Augusto dos Anjos em “o Deus-verme”). O verme então representa um fim eminente, a decomposição e o desaparecimento de tudo o que foi, é certamente uma ideia assustadora o fim que se dá ao cadáver, pensar que independentemente do que se faça em vida o futuro já é certo: a fome exasperada das larvas. Entende-se até aqui que o verme não simboliza somente a morte, mas todo o sentimento de melancolia e angústia dos autores em relação à esse fim indecifrável de tudo que vive.

No caso do Bardo, William Shakespeare, é em “Hamlet” que ele faz uso desse artifício simbólico, observe o trecho:

“O verme é o único imperador da dieta, cevamos todas as demais criaturas para que nos engordem, e nós nos cevamos a nós mesmos para as larvas. O rei gordo e o mendigo esquelético são apenas iguarias diferentes, dois pratos diversos, mas destinados a uma só mesa: este é o final.”

Hamlet é por si próprio um personagem que reflete muito sobre a morte no decorrer da peça, nesse trecho ele coloca as larvas no topo da cadeia alimentar, ou seja, elas são o cruel fado do homem, o destino de todos está em servir de alimento para elas. Esse olhar inclusive foge à religiosidade presente na obra e lança uma verdade aterradora: mesmo os mais ricos estão destinados ao mesmo final macabro dos pobres. Cabe aqui puxar um link com um poema de Ivan Junqueira, em que ele diz:

“A morte é um cavalo seco

Que pasta sobre o penedo

Ninguém o doma ou esporeia

Nem à boca lhe põe freios

À noite, sob o nevoeiro

É que flameja o seu reino

Não o da luz que viu Goethe

Ao cerrar os olhos ermos

Mas o da espessa cegueira

O dos ossos no carneiro

E o da carne atada às teias

Sem alma que se lhe veja

Ouço-lhe os cascos de seda

São tão fluidos quanto a areia

Que escorre nas ampulhetas

Como o sangue do oco das veias

A morte escoiceia a esmo

Sem arreios ou ginetes

Não tem começo nem termo

É abrupta, estúpida e vesga

Mas te embala desde o berço

Quando a vida, ainda sem peso

Nada mais é que um bosquejo

Que a mão do acaso tateia

Na treva lhe fujo pelo

E as crinas se lhe incendeiam

Em cada esquina ela espreita

Quem há de tanjer ao leito

E ninguém lhe escapa ao cepo

Tiranos, mártires, reis

Ou até antigos deuses

 

Por mais soberbos que sejam

Embora só traga o preto

Em seu corpo escuro e estreito

Com ângulos que semelham

O de um áspero esqueleto

A morte é estrito desejo

Deita-se lânguida e bêbeda

À lenta espera daquele que a leve

Sôfrego, ao êxtase”.

Nesse poema, Ivan Junqueira traz essa ideia de não se poder fugir da morte, sendo ela um destino geral e de que ninguém pode escapar, é  com essa ideia que ligada às larvas que aparecem na decomposição se cria essa imagem do verme como “único imperador da dieta”, pois é impossível de se fugir do “Deus-Verme”. Se Shakespeare e Augusto dos Anjos escolheram representar a morte a partir de um verme, Junqueira escolheu usar a imagem de um cavalo que coiceia a esmo e que fica à espera daquele que a leve ao êxtase, da mesma maneira como o verme espreita os olhos do poeta. De qualquer forma, a simbologia atribuída à morte é semelhante. Ninguém doma esse animal nem o esporeia, assim como o verme é o único imperador da dieta.

É claro que todas essas simbologias colocadas em cima do verme fazem completo sentido, pois esses autores atribuem à morte uma imagem negativa, assim, usar o verme, que é algo nojento, asqueroso e repugnante para simbolizar o eterno algoz da humanidade acrescenta um olhar artístico ao texto, pois traz muita simbologia consigo e representa todo um sentimento de melancolia, efemeridade e decadentismo para a obra. É como se esse termo, “verme” sob o olhar da literatura já trouxesse consigo toda uma carga de negatividade atrelada à morte, conceito bastante comum, não apenas nos textos apresentados aqui, mas em diversas obras da literatura mundial. É, parece que é oficial, estamos todos destinados às famintas larvas, ao indiferente verme que espreita nossos olhos e que fará de todos nós um belo banquete.

 

Este é o primeiro ensaio da Fabi Barbosa ao blog Recorte Lírico. Acompanhe suas publicações, aqui, às segundas-feiras.