Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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Intoxicação alimentar

24 de julho de 2018

Categorias:Crônica Tags:

Intoxicação alimentar

Quando vejo uma mulher reclamar de dor sei que o bicho tá pegando pro lado dela. Tanta prática com cólicas e a porra toda deixam-nas resistentes, afasta qualquer tipo de frescura. Poucas coisas me dão tanta sensação de urgência como uma expressão de dor num rosto feminino

Eu, por outro lado, sou um tanto quanto dramático quando atingido por alguma enfermidade, tendo a dar proporções exageradas às minhas dores. Para além do individual, meus anos de observação do comportamento humano me levam a crer que é algo comum entre os homens.

Dia desses acordei com uma sensação estranha na barriga. Fiz menção de levantar e falhei na tentativa. A região do meu abdome doía, e notei que estava todo suado.

Cutuquei minha esposa.

— Amor!

— HumMmMmMMMmm… — isso é ela resmungando.

— Estou me sentindo mal.

— O que você tem?

“Não sei”, pensei. O que incomodava mais? A barriga ou o mal estar na cabeça?

Sou do tipo que gosta de diagnosticar os males sem o mínimo de noção sobre que estou falando:

— Acho que é intoxicação alimentar.

Não fui ao trabalho, fiquei as duas horas seguintes na cama, soltando gemidos desproporcionais à dor que eu sentia. Queria ser cuidado, tratado, ganhar uma atenção especial por estar enfermo.

— Minha barriga parece que vai explodir — resmunguei quando minha esposa apareceu. Provavelmente vinha da cozinha, segurava uma xícara.

Temipor minhas papilas gustativas ao notar que ela segurava a coisa pela alça apenas com o indicador, como se evitasse o calor da porcelana.

— Então vamos pro hospital.

Devo esclarecer que sou um imbecil. Por mais que estivesse achando sentir uma dor torturante, sou teimoso. Sou forte, eu aguento.

Daí desconversei:

— Liga pra minha mãe.

— Por quê? É ela que vai levar você pro hospital?

— Não vou pro hospital a não ser que esteja morrendo.

Minha esposa me deu as costas e saiu do quarto. Sei que ela revirava os olhos.

— Toma esse chá aí — ela mandou, antes de sumir.

O cheiro do chá era horrível, e o gosto pavoroso.

Estava começando a bebericar o sétimo oitavo do chá quando minha mãe e meu pai chegaram.

“Você está bem meu filho?”

“Precisa de alguma coisa?”

“Que chá horroroso é esse que você deu a ele, Sabrina?”

“O que você quer que eu faça pro almoço?”

“Você está doida mulher? O menino não falou que está com intoxicação alimentar?”

“Não foi com a MINHA comida, foi?”

Senti uma dor alucinante no estômago em meio à bajulação de minha mãe. Os três calaram-se o olharam para mim ao notar que sentei bem ereto, levando a mão à barriga.

— O que foi, meu filho? Jorge, pega a chave do carro. Vamos pro hospital AGORA!

BUUuUuuURRrrRrRRrRrrrrp!

O arroto prolongou-se por quinze segundos. Ao término, pousei a cabeça sobre o travesseiro, a fim de recuperar o ar.

Meu pai ficou horrorizado:

— Que porra foi essa?

Minha mãe:

— Você está bem, meu filho?

Já não sentia mais dor alguma. Só que não podia dizê-lo.

— Parou de doer um pouco. Se voltar a doer como doía antes, vamos pro médico.

Passei o resto do dia fingindo estar mal, e minha recompensa foi bife à milanesa com purê de batata com queijo.