Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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Amélie Nothomb, Kafka no Japão

2 de setembro de 2018

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Amélie Nothomb, Kafka no Japão 4

No último ensaio neste espaço que escrevi sobre Amélie Nothomb tratava o livro “Une forme de vie”(leia clicando aqui), um livro já de 2010. Por muito que Amélie nos tente “vender” a ideia da escrita que lhe “aparece” às 5h da manhã, descendo do céu de alguma inspiração diária, todo o escritor sofre evoluções e maturações.

Amélie Nothomb, Kafka no Japão 3

Já que muitos se interessam pelos processos de escrita dos escritores, segundo a própria, acorda cedíssimo, de madrugada, não come absolutamente nada, bebe, de uma assentada, um litro de chá fortíssimo a ferver e escreve, para iniciar o dia, 5h de seguida nuns caderninhos quase sem rasuras ou emendas. Escreve diversos romances por ano, 3,7 romances para ser preciso e segundo a própria, mas, normalmente, depois do romance “Higiene do Assassino” publica apenas um livro anualmente. Obviamente, alguns dos romances escritos engrossam o cesto dos papéis do lixo.

O “Temor e tremor”, título da tradução em Portugal, ou “Medo e submissão”, título no Brasil, é um livro do início da vida literária, é um livro de diversas procuras: procura a voz apropriada, procura o peso e tessitura do humor no jogo narrativo, procura ainda livrar-se através da escrita dos seus fantasmas e, paradoxalmente em simultâneo, inscrevê-los na sua obra, procura reviver e afastar-se do Japão da infância. O livro pertence àquilo que eu chamaria uma primeira fase da autora e tem, por isso, muitas das marcas de um autor que ainda procura estabilizar um estilo e uma voz.

Amélie Nothomb, Kafka no Japão

 

Amélie Nothomb, Kafka no Japão 5

De uma forma elíptica, pode dizer-se que o romance gira em torno de uma jovem ocidental educada no Japão que cumpre um ano de contrato numa empresa japonesa. O ambiente e dinâmica da empresa tem alguma coisa da monstruosidade opaca e gasosa do Processo de Kafka e esta estadia vai revelar-se uma autêntica via sacra para a jovem. A jovem confronta-se com os sucessivos membros da empresa numa escala hierárquica e moral niponicamente hermética e vai ser sucessivamente despromovida até acabar surrealisticamente a trabalhar nas limpezas: uma despromoção vertiginosa e dramática, regada de muito humor.

Com a ação a decorrer neste contexto saltam facilmente diversas temáticas: o desprezo dos japoneses pelos ocidentais, quanto mais contidos e educados, maior o desprezo que sentem; o mundo do trabalho japonês com a concomitante divinização e tribalização da empresa no país com a maior taxa de suicídio do mundo; a ligação da perfeição e do suicídio; a condição da mulher nesta sociedade machista.

De alguma forma, a autora acerta contas com o sistema empresarial japonês e com as humilhações a que foi sujeita criando esta paródia de empresa japonesa. A autora vai utilizando os recursos clássicos do cómico em Literatura e em particular no teatro, mostrar o ambiente absurdo da empresa e da sociedade japonesa que consiste na aplicação de regras sociais e empresariais de forma totalmente cega, fanática e deslocada.

Este romance tem praticamente as marcas todas do estilo e dos recursos literários da autora. Os romances têm sempre pouco mais de uma centena de páginas o que obriga o autor a um equilíbrio precário entre acelerações narrativas e afrouxamentos súbitos. As acelerações temporais fazem-se com os instrumentos estilísticos habituais “os dias foram passando” e os afrouxamentos sentem-se na languidez com que repousa nas cenas de encontros e confrontações, com os diversos intervenientes, é quase como se fosse uma peça de teatro com múltiplas cenas de duas personagens. Se os livros de Nothomb têm sempre o ambiente kafkaniano, este facilmente se traduz numa peça de teatro do absurdo, tipo o “Rinocerontes” do Ionesco, para tal nem faltam as roupas tradicionais das empresas nipónicas, aquele assético preto e branco e muito menos os comportamentos bizarros do ponto de vista dos ocidentais, no entanto, sem recursos de dramaturgia, o narrador marca o tempo com um novelo de diálogos e monólogos com, na minha opinião, excessivos comentários humorísticos. Nos melhores livros de Nothomb o humor passa nas entrelinhas e/ou em poucas linhas incisivas, nos menos bons, Nothomb quer ter piada e quase força as piadas tornando-as evidentes e imediatas – a Literatura é o contrário da evidência, para isso há a história, a sociologia e os relatos de visões pessoais dos acontecimentos.

Amélie Nothomb, Kafka no Japão 1

Eu, em particular, desvalorizo totalmente os prémios literários e tenho a grata honra de nunca ter recebido algum, apesar de terem tentado empurrar-me para essa prisão literária, mas devo referir que este romance recebeu diversos primeiros prémios, entre eles o Prémio Goucourt. Tal como Marcel Proust foi recusado por André Gide, Amélie Nothomb foi recusada, na editora Gallimard, por Philippe Sollers, pela simples razão que este achava que era falso o nome e identidade da autora, o livro só podia ter sido escrito por um homem, idoso e muito culto. O erro de Sollers é perdoável, como todos nós ele é humano, o que não se lhe perdoa é continuar, depois deste tempo todo, a tratar Amélie Nothomb como uma “attachée de press”.

Este romance é como a vida: vivemos permanentemente esta coisa bizarra, sem sentido, kafkaniana que é a nossa vida entre a angústia e o riso, satirizamos a vida para a poder suportar.

 

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