Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Junte-se a 3 outros assinantes

Saraivada de joinhas

11 de setembro de 2018

Categorias:Crônica Tags:

Saraivada de joinhas 1

Felipe é um cara legal, só é competitivo. Competitivo demais.

Ele é assim desde que era pequeno. Eu me lembro que só eu e alguns amigos gostávamos de jogar bola com ele. Na cabeça dele ele era um puta craque, enquanto a galera se referia ele como Perneta quando não estava por perto. Não era incomum ter alguma discussão num jogo, o que sempre afastava novos amigos. Com exceção de mim e da galera do bonde, porque nos divertíamos com sua cagação de regra e malabarismos argumentativos quando queria justificar uma derrota.

Mas o futebol era só o comum, o mais corriqueiro. Sua ânsia ridícula por ser o melhor era presente em todos os aspectos da sua vida. Ele não tem a ponta do indicador porque estava apostando com o Pedrinho quem dava mais voltas no dedo com linha de papagaio. Pedrinho desistiu rapidamente, enquanto que Felipe, querendo garantir que seu recorde permanecesse por muito tempo ou sabe-se lá que tipo de imbecilidade passou em sua cabeça, deu duas dezenas de voltas extras. Não conseguiu desenrolar tudo antes que a ponta morresse.

Nas olimpíadas da escola ele foi internado por fadiga aguda. O maluco quis jogar em todos os jogos e seu corpo quase entrou em inanição.

Só que antes de ser internado ele me mandou pro hospital.

Estávamos jogando futebol. Eu era o goleiro, e Felipe do time adversário. Ele veio pro meu lado e, diante de sua perna-de-pauzice ao tentar me driblar na cara do gol, catei.

Só que ele não desistiu, mesmo com a bola já nas minhas mãos. Tentou alguma coisa sem sentido e chutou-a, fazendo com que ela ocupasse um espaço antes inexistente entre um mindinho e o anelar mais próximo. Iniciei uma discussão com ele até que Rafael me perguntasse:

— Credo, Lucas! Não tá doendo não?

Olhei para onde Rafael apontava e me dei conta de que meu dedinho estava praticamente pendurado na minha mão sob a pele.

De madrugada, com a mão quebrada enfaixada à espera de uma cirurgia para colocar meu dedo no lugar, recebo uma mensagem de desculpas do Felipe através do Messenger do Facebook. Respondo devagar com minha mão de pouca destreza.

Eu: faz mal não, cara. você não quebrou minha mao por querer
Ele: Não queria quebrar, mas o chute foi proposital

Fiquei contente que ele estivesse confessando. Eu podia ter dito que não havia problema, poderia ter parabenizado o cara por estar sendo honesto, poderia falar da cirurgia.

Mas digitar tudo isso pelo messenger demoraria demais. Mandei um joinha.

Qual não foi minha surpresa quando ele mandou outro joinha, um pouco maior que o meu.

Eu sabia onde ele queria chegar. Pressionei o botão por uns dois segundos e mandei outro, maior que o dele. Ele retrucou, e aí mandei meu último.

Felipe passou o restante da noite tentando mandar um maior ou igual ao meu último joinha. Ou mandava um pouco menor, ou mandava um dos menores, por passar demais do momento de mandar um grande.

Deixei ele se esforçar na tentativa e fui dormir. Entre as cento e tantas mensagens que vi no dia seguinte só havia “como você conseguiu mandar esse tamanho, mano?” entre as tentativas.

Não achei realmente que ele cairia, mas fico feliz por ter experimentado. Vou deixar o mundo se extinguir antes de dizer que enviei na verdade uma imagem.