Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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FAMIGERADO

31 de outubro de 2018

Categorias:Crônica Tags:

FAMIGERADO

Uma vez perguntei porque o nome do nosso cachorro é Garrincha, e me disseram que é por causa de um jogador, que também tinha as pernas tornas.

Nunca me interessei em procurar saber quem era esse tal Garrincha e se as pernas eram tortas mesmo. Tenho pouco interesse por futebol. As pernas traseiras no nosso Garrincha eram arqueadas.

Ele era tido a correr de todo pra todo lado feito um palerma. Era engraçada a maneira como ele corria: movia as patas da frente no vaivém apressado enquanto dava pulinhos com as de trás. Quando andando devagar, as pernas traseiras moviam-se pouco.

Mas Garrincha era um cachorro esquisito em outros aspectos também. Pra mim ele sempre soou meio abobalhado. Vivia ultrapassando nossas barreiras que visavam impedi-lo de espalhar lixo, nos forçando a ficar cada vez mais criativos. Só não começamos a guardar na geladeira porque, além de pouco higiênico, não devemos incentivá-lo a abri-la.

Só que não adianta. Parece que nada o agrada mais do que comer lixo, mesmo que podre, mesmo que a ração que oferecemos seja de alta qualidade.

E tem mesmo cara de doido. Está sempre com a língua pendurada de lado, parecendo abobado. Porta hábitos muito estranhos para um cachorro.

Ele nunca mija em postes, por exemplo. Notei faz bastante tempo. Mas para em cada carro que pode. Seu gosto por marcar pneus me soava uma excentricidade engraçada, então o levava pra passear na rodoviária que fica perto de casa. Eu soltava ele por ali e ele fazia a festa. Tinha um pouco de urina para cada veículo.

Era só algo inusitado que me divertia, até o dia que ouvi dois poodles conversando com um bulldog atrás de mim na rodoviária de Manaus, quando fui lá resolver uns assuntos.

— Então vocês passam por lá recentemente? — latiu o bulldog.

— Sim — ganiram ambos os poodles.

— E como ele está? Conseguiram sentir pelo cheiro?

— Ah, ele tá ótimo. Acho que tem dado um tempo na porcariada que come.

Um gato ronronou debochadamente ali perto:

— Ah, vocês só sabem falar desse abobalhado e nojento do Garrincha. Pelo amor de deus, qualquer um de vocês pode mijar em pneus no lugar de poste.

— Mas ele é um gênio — rosnou o bulldog, irritado.

— É sim. É sim — grunhiram os poodle. — Olha só a ideia que ele teve. Enquanto isso você fica aí fazendo bola de pelo como todo gato.

Virei a tempo de notar a cara de desprezo do gato. Os bichos silenciaram.

Quando voltei pra casa parei de levar Garrincha à rodoviária. Sempre achei que a fama tira liberdades e torna a vida dos famosos artificiais.