Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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Excremento

14 de novembro de 2018

Categorias:Crônica Tags:,

Excremento

Amanda atendeu a campainha. Parecia irritada.

— Oi Eduardo! — ela o cumprimentou — Entra aí. Veio falar com o Hugo?

— Vim sim.

— Espera lá na cozinha, eu estava mesmo indo acordar ele.

Eduardo adentrou a casa e foi para a cozinha, enquanto a cunhada subia para o segundo andar.

Chegando lá, Eduardo sentou-se junto à mesa e, para passar o tempo, começou a observar as coisas.

Notou que não havia uma única louça na pia, suja ou limpa, achou graça na galinha preta com bolinhas brancas cheia de ovos no armário, estranhou o desenho surrealista no pano de prato brilhando de tão branco sobre o puxador do forno do fogão, desejou comprar um filtro de liquidificador como o que estava visível na única porta aberta do armário e se deu conta de que havia três uvas passas em cima da mesa.

Ora, Eduardo adorava uvas passas. Nunca entendeu as pessoas no geral, que insistem em criticar a frutinha. Se não gostam, não comam. Pronto. Fazem parecer que colocar uva passa na comida é uma afronta aos bons costumes a nível piada de pavê. Que, aliás, Eduardo adora. Tanto a piada quanto o pavê. Principalmente se tiver uva passa.

Pensou nessas coisas por um instante, depois pegou as três sobre a mesa e comeu. Nem Amanda nem Hugo iriam se importar, disso tinha certeza.

Achou que tinham um gosto esquisito.

Dali a pouco ouviu Amanda e Hugo vindo até a cozinha, discutindo.

— Só que eu falo com você e você não move um dedo — ela o acusou.

— Como assim não mexo um dedo? Na semana passada você inventou que tinha um pombo morto em cima do telhado só pra mim ter que procurar ninho lá. Eu subi, em tempo de cair de e quebrar a coluna ou o pescoço, e não tinha nada. Eu já falei com você que não tem nada, mas se você ainda insiste nisso, a gente pode ir naquele petshop que promove adoção que te falei pradotar um gato.

— Você sabe que eu não gosto de bicho.

— Pois é, foi só uma sugestão. Só que eu ainda acho que não precisa.

— Vou te mostrar agora. Você não acredita em mim mesmo.

Os dois entraram na cozinha.

— Bom dia, Eduardo! — Hugo o cumprimentou, animado. — Está ouvindo a nova da Amanda?

Amanda não dava atenção ao tom debochado do marido. Procurava por algo na mesa.

— Cadê, Amanda? — Hugo perguntou, rindo, claramente no intuito de irritá-la por ver que ela não encontrava.

— Você não viu não, Eduardo?

— O quê? — Eduardo perguntou, apreensivo.

— Três cocozinhos de rato que estavam aqui.

— Três o quê?

— Coco de rato. Eu achei dentro do armá…

Eduardo levantou-se, a interrompendo.

— Com licença, eu vou no BLÉÉRrrrg!

Não conseguiu terminar a frase. Vitimou todo o café da manhã na cozinha do irmão.

 

 

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