Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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O Xodó do Público Leitor do Brasil

5 de novembro de 2018

Categorias:Artigo de Opinião Tags:, ,

O Xodó do Público Leitor do Brasil 1

Em primeiro lugar, devo deixar claro que esse texto é mais uma brincadeira para distrair e divertir os leitores do que uma opinião crítica.

Hoje decidi falar deles, os grandes opostos da literatura brasileira do começo do século XX: o ilustríssimo parnasiano Olavo Bilac e o poeta dos cadáveres e vermes Augusto dos Anjos! Agora, por que logo esses dois? Bom, eu particularmente acho que eles são grandes opostos que atuaram mais ou menos no mesmo período. Para escrever esse texto, tomo como base o seguinte meme do Lítera:

 

O Xodó do Público Leitor do Brasil
Meme usado para ilustrar tal situação no século XIX. (Foto: Lítera/Reprodução)

 

Antes de desenvolver o assunto, é preciso fazer uma contextualização, certo? Vamos falar um pouco de cada um dos autores? Bilac foi o principal nome do parnasianismo, sendo intitulado o “Príncipe dos Poetas” ou o “poeta ourives”. Sendo da elite, viajava para Paris para tomar “banhos de cultura”; era um erudito ferrenho, que prezava a forma poética e o rebuscamento como principal fator de beleza do texto. No outro extremo, Augusto era um professor de classe média baixa, com dificuldades financeiras, que inclusive dependeu de favores para publicar seu livro e viveu uma vida simples e melancólica. É por isso que o meme é genial, os meninos da foto representam muito bem os escritores, Bilac mais padrão com terno e gravata e Augusto dos Anjos mais diferente, estranho e fora do padrão (destaque para as meias de cores diferentes).

Olavo Bilac era muito aplaudido durante a época em que viveu, quando o parnasianismo estava no topo de seu sucesso. Seu título de príncipe não veio à toa. Enquanto isso, Augusto dos Anjos foi algo como um Charles Baudelaire brasileiro (mas sem o poder aquisitivo da família), uma vez que trouxe para o público leitor uma poesia feia e bizarra, inovando com termos científicos que um parnasiano jamais ousaria empregar em seus escritos. Assim como o renomado poeta francês, Augusto dos Anjos foi muito criticado e desvalorizado enquanto vivo, não tendo visto sua obra ganhar o valor que realmente tinha.

É importante ainda lembrar que Bilac deixou bem claro aquilo que pensava de Augusto dos Anjos. No livro A última quimera, de Ana Miranda, encontra-se um relato verdadeiro em que Bilac, ao saber da morte do outro, pergunta: “e quem é esse Augusto?”. Ao ser informado e ouvir recitarem Versos a um coveiro, declara: “Fez bem em morrer, não se perde grande coisa” (Poxa Bilac!).

No entanto, chegou um momento em que o parnasianismo tornou-se cansativo e os modernistas chegaram com tudo para mudar a cara da poesia no Brasil. É depois desse momento que Augusto dos Anjos se tornará então (finalmente) um poeta consagrado e torna-se também um xodó do público leitor. Se ele estivesse vivo hoje talvez pudesse tuitar o seguinte para seu colega Bilac: “Parece que o jogo mudou, né queridinho?” (Risos).

Brincadeiras à parte, Augusto dos Anjos realmente conquistou seu lugar entre os grandes nomes da poesia brasileira, sendo que a obra de Ana Miranda (onde a autora fala de sua vida e de sua morte) é hoje um dos livros que está na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da UFPR. Outro tuíte que ele poderia fazer para Bilac seria: “Você pode até ser o príncipe, mas é sobre mim que os jovens estão lendo quando se preparam para o vestibular” (Mais risos). Se a menina da foto representasse os leitores do século XXI, ela com certeza estaria conversando bastante com o Augusto também.

Para finalizar, agora falando sério, ambos os artistas são incríveis e não devem ser comparados, até porque suas criações são completamente diferentes, suas estéticas são distintas e não há como dizer quem é melhor ou pior. Os dois são com certeza poetas indispensáveis para qualquer leitor e devem ser respeitados por seus talentos. Sendo assim, deixo abaixo um poema de cada:

 

Augusto dos Anjos – O Morcego

“Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!”

 

Olavo Bilac – Ora (direis) ouvir estrelas

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo? ”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e e de entender estrelas”.

 

Para ler outros textos da colunista Fabi Barbosa, clique aqui.
  • Farrel Kautely

    SHAUSHAUSHAUSAHSU!
    Sensacional!!!
    Sei que verei ambos ano que vem, em Teoria da Literatura. Vou mostrar para um amigo meu que está estudando Bilac por agora.

    Adorei!