Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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Visita Ilustre

6 de dezembro de 2018

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Visita Ilustre

Foi um dia especial. Não porque ele veio aqui, mas porque, mais tarde, naquele mesmo dia, eu experimentaria maconha pela terceira, e dessa vez bateria mais forte que ele.

Mas eu usaria a dele para rachar de rir à  noite.

A galera toda estava no campo, jogando futebol. Eu era o goleiro e estava especialmente inspirado naquele dia, porque havia ido ao Mineirão no dia anterior assistir a um puta clássico fenomenal.

O Felipe veio pro meu lado e o retardado do Gustavo deixou a bola passar por debaixo da perna. Então éramos Felipe e eu. Ele não perderia a oportunidade: meteu um bicudo na bola.

Minha defesa foi espetacular. A bola veio em direção ao canto superior direito na velocidade da luz. Felipe é um cuzão inteligente, sabe que sou canhoto.

Mas defendi do mesmo jeito. Pulei, peguei a bola e cai enterrando o joelho direito chão adentro. Senti que tinha me esfolado, mas tive a certeza de que o machucado carregaria todo o significado da fodacidade da minha defesa.

Levantei de imediato, para mostrar que um herói não deve se abater por um raladinho que sagra.

Só que não recebi nenhum tipo de alvação. Todos estavam preocupados em procurar ver o que havia na direção em todos estavam olhando. Ouvi o som de buzinas e algazarra, e a galera começou a correr para a entrada do campo.

Manquei até lá, irritado. Cheguei atrás de uma multidão (não sou alto) e fiquei escutando a galera balbuciar palavras de encantamento. Empurrei alguns e vi uma Ferrari amarela escoltada por dois carros pretos. Na Ferrari desfilava Gugu, o jogador que ajudou meu time a vencer no dia anterior.

Nem gosto tanto dele. É o melhor do time, mas gosto de outros jogadores. Sempre o achei arrogante e burro nas entrevistas do time (assisto a todas).

Acho que ele decidiu vir aqui fazer algum tipo de caridade depois do jogo. Acenava, apenas, enquanto pessoas dos carros pretos e grandes falavam para irmos até a associação, onde aconteceria alguma coisa.

A galera foi atrás. Acompanhei porque, se fossem chuteiras e coisas assim, me agradaria ganhar. Só esperava que ele não insistisse em autografar com caneta permanente. Era bem a cara dele.

Não deu outra. Enquanto estava na fila, eu pensava em como poderia me livrar do autógrafo. Teria coragem de pedir para não recebê-lo? Se não, haveria alguma maneira de despermanecer a permanência da tinta?

Minhas matutações foram interrompidas quando meus amigos me cutucaram e perguntaram o que eu achava.

— De quê?

— Da Ferrari dele.

Nem me deixaram responder. Ao notar que eu não acompanhava a conversa viram a oportunidade de repetir tudo e começaram a falar o que eles mesmos tinham a dizer sobre aquilo.

— Não é fodona?

— Olha só a aerodinâmica. A frente é assim e assado pra melhorar isso e aquilo.

— Essa Ferrari custa mais que um milhão. Que foda!

— Aposto que ele pega muita mulher com esse carro.

— Na verdade ele tem três.

— Jura?

— Juro.

— Nossa!

Só havia assunto para o quão foda era o carro. Eu sinceramente estava desinteressado na Ferrari. É só um carro, pô! E para quê alguém iria querer três? Se é que ele tinha mesmo, mesmo que para isso dinheiro não faltasse.

Mas o papo deles desviou meus pensamentos. Pensei nas ruas da favela. Somente a área central, que inclui o campinho e a sede e um pequeno comércio da vila, tem um asfalto que mereça esse título. No resto, os carros, motos, bicicletas e os poucos caminhões que entram tropeçam em todo tipo de buraco e desnivelamento.

Olhei com atenção para a Ferrari. Era extremamente rebaixada. Notei, mesmo ao longe, que havia um pouco de cor prateada próximo às rodas, onde deveria haver tinta amarela.

— O que você acha? – voltaram a perguntar.

— Da Ferrari?

— É.

— Estou tentando entender porque ele escolheria esse carro para vim aqui.

Nenhum deles parecia sequer achar haver algum tipo de lógica no que eu disse, enquanto que eu pensava a respeito.

Minha conclusão só serviu para aumentar a antipatia que sentia pelo atacante. Saí irritado da fila com uma chuteira autografada, mas me diverti quando mais tarde, à noite, enquanto esfregava minha chuteira branca nova, Felipe veio me convidar para dar uns tapas. Já no início me contaram que, ao tentar desviar-se de um buraco após passar por um quebra-molas em ziguezague, a Ferrari tropeçou em outro buraco, perdeu a roda e, numa manobra mal descrita por Felipe, bateu num muro.