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Resenha e breve análise – Desenredo, de João Guimarães Rosa

1 de fevereiro de 2019

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Rascunho automático 5

João Guimarães Rosa é um autor conhecido por suas produções inovadoras e originais durante a terceira fase do modernismo brasileiro, centralizadas sobretudo na ficção e poética experimentais. Na prosa, o conto Desenredo é sobre o protagonista Jó Joaquim, um homem bom e que sempre esteve em busca da felicidade. Certo dia, ele encontra Vilíria (personagem que inicialmente é apresentada por três nomes diferentes) e os dois se apaixonam, apesar de ela ser casada. Os dois se encontravam escondido, já que ninguém da vizinhança poderia saber do romance. Porém, não demorou muito até que o marido dela a encontrasse com um amante que, supreendentemente não era Jó Joaquim, era outro. O marido dela mata esse amante e, depois de um tempo, acaba falecendo. Com a morte dele, Jó Joaquim perdoa Vilíria e os dois ficam juntos. Entretanto, em questão de tempo, Jó Joaquim acaba pegando sua amada com outro, mas por amá-la demais, ele não a mata, apenas a expulsa.

Tomado de tristeza, Jó Joaquim decide criar outra realidade para si e começa a espalhar pela vizinhança uma história que ele inventou acerca de Vilíria. Ele diz que ela era uma mulher pura e que jamais traiu alguém. Jó insiste tanto nessa fábula, que todos passam realmente a acreditar, incluindo ele e a própria amada, que ao descobrir o que estava acontecendo, volta para perto dele e os dois ficam juntos no desfecho.

Durante a primeira leitura, Desenredo pode aparentar ser um simples conto sobre adultério, mas está muito longe de pertencer a tal superficialidade, afinal, é um conto escrito por Guimarães Rosa. Logo no início do conto, tem-se a seguinte frase: “Do narrador seus ouvintes”, ou seja, o leitor está prestes a ler a narração de uma história inventada, uma espécie de fábula que trará algum ensinamento ao final. Há várias referências bíblicas ao longo do conto, como o fato de o protagonista se chamar “Jó Joaquim”, um nome semelhante ao de um personagem bíblico. O autor também cita Adão e Eva, os primeiros seres humanos criados por Deus e, consequentemente, o primeiro casal. Quando Jó Joaquim descobre que sua amada tinha um terceiro amante, ele fica tão triste que é “devolvido ao barro”, ou seja, ele deixa de ser homem (espírito, com alma) e volta a ser o que era antes (matéria, morto, sem sentimentos). Com isso, percebe-se que, para Jó, Vilíria era a vida e a felicidade, logo, sem ela só havia morte e infelicidade.

Todos os elementos bíblicos empregados por Guimarães Rosa garantem analogias simbólicas únicas. A verdadeira intenção do conto, por conseguinte, amarra-se brilhantemente a esses aspectos, pois assim como em Gênesis (no texto bíblico), Deus cria o mundo, Adão e Eva, em Desenredo, Jó Joaquim vai criar outro mundo para ele, onde sua amada é perfeita e os dois podem ficar juntos. Para isso, Jó vai utilizar a linguagem, o maior poder do ser humano.

Por meio da linguagem, Jó Joaquim primeiramente convence a si mesmo de que Vilíria é uma mulher pura e que nunca pecou ou traiu. Indo contra a lógica de todos em volta e sendo “amatemático”, ele espalha essas informações para a vizinhança e as repete incansavelmente até que acreditassem: “Pois produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. (…) Todos já acreditavam, Jó Joaquim primeiro que todos.”, por fim, Vilíria fica sabendo disso e também passa a acreditar em sua pureza e inocência, voltando imediatamente para a sua vida com Jó.

Desse modo, o poder da linguagem é mostrado pelo autor como aquilo que pode construir e destruir, como se fosse um poder divino e, a última frase do conto é a principal marca: “E pôs-se a fábula em ata”, remetendo ao fato de que uma história inventada (fábula) pode ser colocada em um registro de algo que realmente aconteceu (ata), já que por meio das invenções de Jó, todos passaram a acreditar de verdade em suas palavras, proporcionando ao casal uma nova realidade.

Assim como em todas as suas produções literárias, em Desenredo, João Guimarães Rosa também não limita o seu talento com as palavras. De um jeito único e genial, o autor apresenta uma estética de escrita quase que musical, cheia de palavras novas e frases psicológicas que pessoas comuns jamais pensariam. Seus famosos neologismos aparecem várias vezes no conto: “ufanático”, “abusufrutos”, “franciscanato”, “amatemático”, “acronologia”, “antipesquisa” e “apostrofando-se”.

Os regionalismos do sertão e do Nordeste também estão presentes: “quiçá”, “grude de engodo”, “abominoso”, “platonizava”, “não era tão fácil como fritar almôndegas”, “era para truz de tigre ou leão”, “sem mais cá nem mais lá”, “num abrir e não fechar de ouvidos”, “o trágico não vem a conta-gotas”, “convolados” e “dengos e fofos de bandeira ao vento”.

Tem-se o uso de travessões em momentos aleatórios, para provocar pausas e se aproximar da língua falada: “-plástico”, “-e”, “-deu-se” e “-longe-”. As metáforas, como: “olhos de viva mosca”, “morena mel e pão”, “em lance de tão vermelha e preta amplitude” e “sutil como uma colher de chá”.

Há as aliterações e assonâncias para garantir a musicalidade: “entregou-se a remir, redimir a mulher”, “o inefável e o inefando” e “por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos”. E, por fim, frases que se aproximam do psicológico das personagens e que fazem comparações de modo poético: “os tempos parafraseiam-se”, “suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas”, “o ar vem do ar”, “trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja”, “infinitamente maio”, “voando mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento” e “todo abismo é navegável a barquinhos de papel”.

Para maior aproveitamento, a leitura de Desencanto deve ser feita cuidadosamente, ou o ensinamento que esse conto tem a oferecer sobre a linguagem se perderá. Busque sempre aproveitar João Guimarães Rosa sem pressa e com a curiosidade de descobrir de que forma, no texto que você tem em mãos, o autor inovou e inventou um novo modo de brincar com o seu cérebro de leitor.

 

 

 

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