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UM MAR DE SANGUE EM CONTRA TODOS, DE ROBERTO MOREIRA

21 de fevereiro de 2019

Categorias:Crítica de cinema Tags:, , , ,

UM MAR DE SANGUE EM CONTRA TODOS, DE ROBERTO MOREIRA

O filme Contra todos, de Roberto Moreira, expõe a violência sorrateira e cotidiana explícita e implicitamente, com cenas de um almoço em família e de um assassinato. A cor privilegiada é o vermelho, cor do mar (de sangue) que abre a narrativa. Os personagens que têm função primordial no enredo do filme são os que compõem o núcleo familiar (Teodoro (Giulio Lopes); Cláudia (Leona Cavalli), a segunda esposa de Teodoro; Soninha (Silvia Lourenço), filha de Teodoro com a primeira mulher) e também Valdomiro (Ailton Graça), que se relaciona com todos os personagens do filme e que é também o melhor amigo de Teodoro. Durante toda a história, o confronto se estabelece entre pessoas da mesma comunidade e até da mesma família, situação que reforça a crueldade, a competitividade e a individualidade. Isso ocorre porque a violência ganha maior destaque, quando é praticada por pessoas “iguais”, que compartilham interesses e convivem diariamente, intimamente. Mas, em Contra todos, o individualismo não respeita laços e ultrapassa qualquer obstáculo. De acordo com Bauman, isso ocorre porque a violência, como resultado do apagamento de fronteiras provocado pela globalização, não conhece mais limites e passou a ocupar espaços em que, antes, ela era proibida ou, pelo menos, não tão frequente quanto é hoje em dia: “Um impulso violento está sempre em ebulição sob a calma superfície da cooperação pacífica e amigável; esse impulso precisa ser canalizado para fora dos limites da comunidade, onde a violência é proibida. […] caso contrário desmascararia o blefe da unidade comunal […]” (BAUMAN, 2001, p. 221).

Para acentuar esse “blefe da unidade comunal” a que o autor se referiu, na passagem transcrita acima, o vermelho predomina, desde o começo, com um mar de sangue sob o céu azul. Essa imagem ressurge depois, para fechar o filme.

 

 

Em ondas menores, durante a história, o vermelho marca presença, no figurino e no cenário. Várias vezes os personagens aparecem com roupas de cor vermelha ou de seus matizes: rosa e bordô. O quarto de Cláudia e Teodoro, o casal protagonista da história, tem colcha e almofadas bordô e os móveis são todos de mogno. Na cozinha, um fogão vermelho, vários utensílios da mesma cor e parte da parede pintada de rosa. Além disso, não são raras as cenas que mostram a família à mesa. A devoração e o instinto também são explorados no filme de Roberto Moreira.

 

 

O açougue é outro espaço de destaque, no longa. Em uma cena longa e de fundamental importância na história, por servir de metáfora à violência, Cláudia vai comprar carne. Ela pede uma peça inteira de contrafilé e uma galinha, para ser preparada ao molho pardo. O açougueiro explica que esse prato requer todo um ritual, começando pela compra do frango vivo. A receita é minuciosa e requer alguns cuidados: uma faca muito bem afiada; atenção à correta posição do pescoço do animal, na hora do corte; e a necessidade de se ter, bem ao lado, uma bacia, para, logo em seguida ao golpe, poder derramar todo o sangue no recipiente. Cláudia desiste do prato, mas a violência da descrição prepara a série de assassinatos que vai ocorrer, para justificar o mar de sangue que abre e fecha o filme.

A primeira morte é a do filho do dono do açougue. O garoto era amante de Cláudia e a morte dele provoca a fuga dela, que, como o espectador, é levada a pensar que Teodoro é o assassino, afinal, ele tinha motivos para cometer o crime e era assassino de profissão. Ele e Valdomiro eram pagos para exterminar pessoas. Sozinho, Teodoro tenta refazer sua vida com sua amante crente, mas ela descobre que ele é casado e o deixa. Longe de casa, Cláudia se envolve com o porteiro do hotel em que está hospedada. Depois de dizer a ele que era casada e que o marido o mataria, se descobrisse o caso dos dois, o pior acontece. O porteiro sofre um ataque e acaba no hospital, com muitas lesões e em estado catatônico. Isso faz Cláudia voltar. Ela quer vingança. Agrada Teodoro, pega uma faca, sem que ele perceba, e o mata. Ele revida, estirando-a, na mesa da cozinha, com dois tiros à queima roupa.

A filha de Teodoro, Soninha, e Valdomiro, melhor amigo e colega de profissão de Teodoro, transam no quarto, quando ouvem os tiros. A filha vê o pai ensanguentado e, nesse momento, começa uma sequência de flashbacks que explica a morte de Teodoro e revela os outros mistérios da trama. Primeiro flash: Cláudia dá uma facada em Teodoro e, em seguida, é morta por ele. Segundo flash: Valdomiro entra, na casa de Cláudia, pela porta dos fundos, e a vê na cama, com Júlio, o filho do açougueiro. Terceiro flash: Valdomiro mata Júlio, depois de arrancar a confissão de que o garoto preferia as mulheres casadas. Quarto flash: Soninha mostra a Valdomiro uma fita de vídeo com cenas de sexo entre Teodoro e Cláudia.

Os flashes fecham a história e atribuem a Valdomiro o mar de sangue de Contra todos. Depois das revelações, Valdomiro é mostrado pegando algum dinheiro e se apressando em tirar Soninha de perto do corpo do pai e do local dos crimes. Daí, um salto no tempo e novamente o presente: o casamento de Valdomiro com Teresinha, a ex-amante crente de Teodoro. Mas, antes, a câmera mostra Valdomiro viciando o cunhado em cocaína. Teresinha chama, o noivo se apressa, guarda a droga, a arma e sai. Valdomiro corrompeu Cláudia, tornando-a uma assassina como ele. Agora, começando pelo cunhado, apodreceria a comunidade crente da esposa (ou, simplesmente, daria o pretexto de que todos precisavam para se revelarem, longe dos preceitos religiosos).

Valdomiro é o personagem-chave do filme, afinal, é ele quem detona o que Zygmunt Bauman denomina “violência interna”, conceito que o autor associa a sentimentos experimentados com frequência por pessoas próximas, na família ou na roda de amigos. Para Bauman, esse tipo de violência é resultado de “todas as dissensões, rivalidades, ciúme e querelas dentro da comunidade”. (BAUMAN, 2001, p. 221).

É certo que a própria religião e também a família podem servir de disfarces para a violência. Em Contra todos é assim que acontece. Em certos momentos, aliás, a religião acentua a hipocrisia, porque são mais constantes os conflitos entre religiosidade e cotidiano. O personagem Teodoro exemplifica bem essa relação. Ele era extremamente religioso, fazia orações antes das refeições, lia a Bíblia para a filha adolescente, participava de cultos, mas dava surras exemplares na filha (porque ela era adepta de drogas e tatuagens), traía a mulher, tinha ataques constantes de raiva (quando Teresinha, a amante crente, disse que ia deixá-lo, ele a fez desmaiar, depois de jogá-la contra a parede, e a estuprou) e, nas horas vagas, era assassino de aluguel.

Nos serviços de extermínio que Teodoro e Valdomiro executam, as falas dos personagens evidenciam a banalização do crime e da vida dos outros. A violência é um ofício, já faz parte da vida dos dois e, por isso, nenhuma tragédia ou um apelo desesperado pela vida é capaz de desviá-los de seus objetivos. Depois de matarem uma família inteira, Valdomiro diz ao parceiro: “Já decidi. Eu vou comprar um carro.” (CONTRA, 2004), referindo-se à dúvida que ele tinha do que fazer com o dinheiro que ganhava como matador de aluguel: comprar uma casa ou um carro. Teodoro, antes de matar um rapaz da vizinhança, acusado de matar o filho do açougueiro, pergunta sobre a acusação e o rapaz diz que não tem culpa. Mesmo assim, Teodoro o mata com um tiro na cabeça e depois diz: “Se não foi você, fica sendo.” (CONTRA, 2004).

A violência, no filme de Roberto Moreira, é cotidiana, está dentro de casa, e nas ruas. Em Contra todos, o conceito de “comunidade” é relativizado e atualizado. A cidade é focalizada, a partir do cotidiano dos personagens. As cenas são rápidas e combinam com as ações instintivas dos personagens. Todos agem por impulso, exceto Valdomiro, que planeja cada ação e cada palavra. Os personagens não conhecem a contemplação e suas ações impensadas são cruéis, violentas e sem aquela glamourização que o cinema pode produzir (e sem esse recurso, a violência das cenas fica ainda mais evidente). Embora sejam ações ficcionais que refratam a realidade familiar e urbana, a brutalidade e a crueldade diárias são mostradas com certo pesar, atitude que demonstra pessimismo e inaptidão para uma mudança efetiva.

Por fim, Roberto Moreira mostra que a violência está em todos os lugares, seja na periferia ou nos grandes centros. Em determinada cena, logo no início do filme, Soninha leva os espectadores de carona, em um passeio pela cidade. Primeiro, a vista aérea de São Paulo, com seus incontáveis arranha-céus. Depois, Soninha passeia por um shopping. Vitrines de lojas, imagens e produtos proliferam-se na tela. Terminado o passeio, a garota pega um ônibus, em direção a um bairro de periferia. A paisagem vai se modificando aos poucos. Quando ela chega, não há comparação possível entre a imagem do centro e os espaços vazios e deteriorados do imenso subúrbio. Roberto Moreira mostra as causas da ruína das comunidades: globalização, mídia e consumo. A periferia tem acesso a tudo isso. Sendo assim, não há como sair ilesa da mudança imposta. O efeito é mesmo “global”.

E, por falar em global, chegamos ao ponto zero do problema, segundo Bauman: “A globalização parece ter mais sucesso em aumentar o vigor da inimizade e da luta intercomunal do que em promover a coexistência pacífica das comunidades.” (BAUMAN, 2001, p. 219). Talvez isso justifique a violência generalizada e o panorama pessimista do filme em relação à estagnação e ao futuro negativo da sociedade atual, afinal, em um mundo sem fronteiras, não há como ficar “cada um no seu quadrado”.

 

REFERÊNCIAS
BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
CONTRA todos. Direção: Roberto Moreira. Produção: Fernando Meirelles, Roberto Moreira, Geórgia Costa Araújo, Andréa Barata Ribeiro e Bel Berlinck. Intérpretes: Ailton Graça; Leona Cavalli; Silvia Lourenço; Giulio Lopes e outros. Brasil: Warner Brothers, c. 2004. 1 DVD (95 min).