18 de dezembro de 2017

O amor pode ter fim

O amor pode ter fim

O amor pode ter fim. Num banco de praça, por exemplo, numa noite nem fria, nem quente, depois de uma discussão no jantar e a conta fechada antes da sobremesa; o amor pode ter fim em botecos, lá pela décima terceira Brahma e dois espetinhos de contra passado na farofa; o amor pode ter fim após a conta ficar negativa pela primeira vez; o amor pode ter fim, na manhã […]

4 de dezembro de 2017

Baby – por Zé Ciabotti

Baby – por Zé Ciabotti

Baby, Já sequei a garrafa de Jack Daniels que compramos naquela noite em que dormimos no quarto doze do motel Delírius. Foi a primeira vez que sussurrei em seu ouvido ‘eu te amo’, ‘eu te amo’, ‘eu te amo’, enquanto a rádio AM tocava uma versão lenta de “Don’t Let me Down. I guess nobody ever really done me, oh she done me, she done me good.”. A garrafa de […]

20 de novembro de 2017

Sujas de glacê

Sujas de glacê

Desde muito cedo, aos onze, Paulinho já tinha responsabilidades demais. Apertava-se em um barraco de dois cômodos com a mãe e duas irmãs menores. O pai, alcoólatra, saiu cedo um dia e nunca mais voltou. Abandonara o colégio aos nove anos para ganhar alguns trocados lavando para-brisas, vendendo chicletes no semáforo e o que mais aparecesse. Essas moedas feitas na rua completavam a renda da família. Faltavam dois dias para […]

13 de novembro de 2017

Homenagem

Homenagem

O Uno vermelho fosco tinha os dizeres Corações a Mil adesivados nas portas. Uma mulher com o cabelo descolorido desceu e passou a chamar o nome de Cristiane que, por sua vez, só abriu o portão depois da certeza de que a vizinhança ocupava as calçadas. Nos minutos seguintes, os alto falantes do Uno tocaram duas canções de Eduardo Costa. Abraçada ao buque de rosas vermelhas que a loira descolorida […]

6 de novembro de 2017

Pipa — por Zé Ciabotti

Pipa — por Zé Ciabotti

Cauã comemorou a paralisação dos professores por melhores salários, afinal seriam dois dias sem aula. Apanhou as moedas das sobras do seu trabalho como entregador de panfletos e correu pra papelaria. Comprou vareta, papel de seda, cola e linha dez. Sentado na calçada, como um artesão, confeccionou uma bela pipa. Corriam de um lado para o outro, embriagados pelo vento, Cauã e a pipa. A poucos metros dali, também contra […]

30 de outubro de 2017

Ela e ele. Ele e ela.

Ela e ele. Ele e ela.

Ela: Tinha a melhor caixa de lápis de cor. Ele: Sempre escondia o lápis bege para pedir emprestado. Ela: Era a noiva da Festa Junina. Bonita. Pintinha no rosto e trança postiça. Ele: Mandou versinho anônimo pelo Correio Elegante. Ela: Tinha o livro anual assinado por todos. Com dedicatórias diversas. Ele: Almejava um “te curto pacas”. Leu apenas “felicidades”. Ela: Moda – quer ser estilista em Paris. Ele: Ciências Contábeis […]

23 de outubro de 2017

Roda-Gigante

Roda-Gigante

Oi. Imagina, pode sentar. Amanda e o seu? Venho sempre com minhas amigas. Assim você me deixa sem graça. Meu Facebook? Chame no chat. Oi. Temos gostos em comum. Também gosto de Almodóvar. Esse é o link para baixar o disco que te falei, do Marcelo Camelo. Aquele barzinho? Hoje? Pode ser. Oi, demorei? Um daiquiri, por favor. Você tem olhos bonitos. Estou sozinha esse final de semana, poderíamos beber […]

16 de outubro de 2017

Aleluia! - por Zé Ciabotti

Aleluia! — por Zé Ciabotti

Samuel, quarenta e poucos anos, missionário e pastor daquela igreja de nome pomposo, vidro espelhado e vinte minutos na tevê em horário nobre. Estufa as veias da garganta pra condenar homossexualismo, feminismo e o divórcio. “É errado, está tudo na bíblia”. No último culto, emocionado e de joelhos, pastor Samuel pediu aos fiéis que abrissem o coração e, com a humildade de quem almeja a salvação, paraíso, doassem ao templo. […]