Cap. V

Cap. V

~> V – A caminho do trabalho – V <~

Até então meu dia estava perfeito, e eu refletia sobre isso enquanto caminhava por ali. Quando estava chegando perto da faixa de pedestres notei que um botão do meu terno havia desabotoado. Parei para abotoar, distraído, quando alguma coisa agarrou meu tornozelo. Levei um puta susto e acabei arrancando o botão com minha reação. Olhei para baixo e vi que um mendigo cego havia me agarrado no intuito de me chamar atenção; vê se pode! Ele olhou pra mim com uns olhos cobertos por catarata e falou “Me dá uma ajuda?”.

Continuei olhando para ele com repugnância e joguei o botão que tinha arrancado por culpa dele na latinha que ele segurava. O barulho foi igual ao de uma moeda. O Sugismundo me deu um sorriso horroroso e disse “que deus lhe dê em dobro”. Não pude suportar e respondi, num tom bem debochado mesmo: “se ele não tem o que te dei, não terá o suficiente para me dar o dobro.”

Ri e me afastei dele com duas certezas: que sou mais rico que deus e que não preciso de dois botões.

 

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Farrel Kautely

Farrel Kautely

Farrel Kautely, 1994, é de Belo Horizonte. Escritor e professor, atualmente reside em Mariana - MG, onde cursa Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto. Possui várias obras publicadas, dentre elas "Minúscula Pulga" (romance), "Picas da Galáxia" e "Sushipeia" (crônicas) e "O mínimo que você precisa fazer para ser um completo idiota" (ensaios e pequenos artigos). E-mail: kauty.s@gmail.com

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