A simbologia do “verme” na literatura mundial

É de conhecimento geral que um dos principais temas da literatura é a morte, personagem sempre presente nas pontas das canetas dos poetas e algoz eterno da humanidade. A morte é com absoluta certeza um dos temas que mais intriga o homem não somente na literatura, mas em todas as formas de arte e na sociedade como um todo. Geralmente ela é representada pela escuridão, por cenários fúnebres ou por sentimentos de efemeridade e melancolia.

Além dessas simbologias, a morte também é representada pelo termo “verme”, atribuindo ao ser rastejante que se alimenta da decomposição a imagem da morte, dando-lhe um corpo físico, mas é preciso manter em mente que aqui tratamos do “verme” como um artefato simbólico usado para representar a morte Podemos comentar vários autores que fizeram uso dessa representação em seus textos, falemos de três deles: Augusto dos Anjos, Machado de Assis e Shakespeare.

Augusto Anjos - A simbologia do “verme” na literatura mundial

Augusto dos Anjos foi um dos poetas brasileiros que mais tratou da morte em seus poemas, além disso, a forma como ele o fazia é bastante peculiar, uma vez que ele tinha um olhar puramente cientificista da morte. Em poemas como “Deus-Verme” e “Psicologia de um Vencido” ele aponta para o verme como uma entidade consciente, que espreita aqueles que estão perto da morte. Observe os poemas citados anteriormente:

O Deus-Verme

“Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.


Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrôpicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão…


Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!”

Psicologia de um vencido

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.


Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.


Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,


Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!”

Augusto traz em seus poemas um olhar totalmente biológico da morte, com a paralisação dos órgãos e o fim permanente da atividade cerebral, uma morte de viés unicamente carnal, desconsiderando a existência de uma alma ou de algum tipo de vida fora do corpo. A morte é então um fim completo da vida e não apenas um fim do corpo físico. O verme, alimentando-se dos cadáveres e deixando deles “apenas os cabelos”, é o agente responsável por esse processo, não pelo fim da vitalidade do corpo, mas pelo apodrecimento e a decomposição, que são também alvos do sentimento frio e melancólico de Augusto em relação à morte.

Augusto parece estar intrigado com o fato de que o verme destruirá todos os resquícios do cadáver, fazendo desaparecer aquilo que antes fora uma pessoa. É por culpa do verme que esse fim é algo tão horrendo, sendo um processo repugnante a que o ser humano é submetido à força, independentemente de quem tenha sido em vida e do que tenha feito. Do pó veio e ao pó há de retornar.

Machado de Assis, usando a voz de Brás Cubas, também utiliza a imagem do verme para representar a própria morte, confere-se logo na dedicatória:

Há também no romance um trecho em que ele compara as pessoas a livros: ao longo de nossas vidas vão se criando novas edições de nós mesmos, porém, no final essa larga biblioteca que é a humanidade está toda destinada aos vermes:

“Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.”

Nesse ponto a associação da morte ao verme fica clara e é fácil perceber como ele é a morte encarnada em um corpo físico, mas em nada humano (como aponta Augusto dos Anjos em “o Deus-verme”). O verme então representa um fim eminente, a decomposição e o desaparecimento de tudo o que foi, é certamente uma ideia assustadora o fim que se dá ao cadáver, pensar que independentemente do que se faça em vida o futuro já é certo: a fome exasperada das larvas. Entende-se até aqui que o verme não simboliza somente a morte, mas todo o sentimento de melancolia e angústia dos autores em relação à esse fim indecifrável de tudo que vive.

shakespeare 1024x576 - A simbologia do “verme” na literatura mundial

No caso do Bardo, William Shakespeare, é em “Hamlet” que ele faz uso desse artifício simbólico, observe o trecho:

“O verme é o único imperador da dieta, cevamos todas as demais criaturas para que nos engordem, e nós nos cevamos a nós mesmos para as larvas. O rei gordo e o mendigo esquelético são apenas iguarias diferentes, dois pratos diversos, mas destinados a uma só mesa: este é o final.”

Hamlet é por si próprio um personagem que reflete muito sobre a morte no decorrer da peça, nesse trecho ele coloca as larvas no topo da cadeia alimentar, ou seja, elas são o cruel fado do homem, o destino de todos está em servir de alimento para elas. Esse olhar inclusive foge à religiosidade presente na obra e lança uma verdade aterradora: mesmo os mais ricos estão destinados ao mesmo final macabro dos pobres. Cabe aqui puxar um link com um poema de Ivan Junqueira, em que ele diz:

“A morte é um cavalo seco
Que pasta sobre o penedo
Ninguém o doma ou esporeia
Nem à boca lhe põe freios
À noite, sob o nevoeiro
É que flameja o seu reino
Não o da luz que viu Goethe
Ao cerrar os olhos ermos
Mas o da espessa cegueira
O dos ossos no carneiro
E o da carne atada às teias
Sem alma que se lhe veja
Ouço-lhe os cascos de seda
São tão fluidos quanto a areia
Que escorre nas ampulhetas
Como o sangue do oco das veias
A morte escoiceia a esmo
Sem arreios ou ginetes
Não tem começo nem termo
É abrupta, estúpida e vesga
Mas te embala desde o berço
Quando a vida, ainda sem peso
Nada mais é que um bosquejo
Que a mão do acaso tateia
Na treva lhe fujo pelo
E as crinas se lhe incendeiam
Em cada esquina ela espreita
Quem há de tanjer ao leito
E ninguém lhe escapa ao cepo
Tiranos, mártires, reis
Ou até antigos deuses


Por mais soberbos que sejam
Embora só traga o preto
Em seu corpo escuro e estreito
Com ângulos que semelham
O de um áspero esqueleto
A morte é estrito desejo
Deita-se lânguida e bêbeda
À lenta espera daquele que a leve
Sôfrego, ao êxtase”.

Nesse poema, Ivan Junqueira traz essa ideia de não se poder fugir da morte, sendo ela um destino geral e de que ninguém pode escapar, é  com essa ideia que ligada às larvas que aparecem na decomposição se cria essa imagem do verme como “único imperador da dieta”, pois é impossível de se fugir do “Deus-Verme”. Se Shakespeare e Augusto dos Anjos escolheram representar a morte a partir de um verme, Junqueira escolheu usar a imagem de um cavalo que coiceia a esmo e que fica à espera daquele que a leve ao êxtase, da mesma maneira como o verme espreita os olhos do poeta. De qualquer forma, a simbologia atribuída à morte é semelhante. Ninguém doma esse animal nem o esporeia, assim como o verme é o único imperador da dieta.

É claro que todas essas simbologias colocadas em cima do verme fazem completo sentido, pois esses autores atribuem à morte uma imagem negativa, assim, usar o verme, que é algo nojento, asqueroso e repugnante para simbolizar o eterno algoz da humanidade acrescenta um olhar artístico ao texto, pois traz muita simbologia consigo e representa todo um sentimento de melancolia, efemeridade e decadentismo para a obra. É como se esse termo, “verme” sob o olhar da literatura já trouxesse consigo toda uma carga de negatividade atrelada à morte, conceito bastante comum, não apenas nos textos apresentados aqui, mas em diversas obras da literatura mundial. É, parece que é oficial, estamos todos destinados às famintas larvas, ao indiferente verme que espreita nossos olhos e que fará de todos nós um belo banquete.


Este é o primeiro ensaio da Fabi Barbosa ao blog Recorte Lírico. Acompanhe suas publicações, aqui, às segundas-feiras.

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