Pirralho

Sabrina nunca viu motivos para achar que o relacionamento de Alberto com Camila fosse mais que uma forte amizade. Os dois haviam sido namorados há muito tempo, sim, mas agora ambos estavam casados e Camila tinha um pirralho catarrento e bagunceiro como filho.

Sabrina confiava no marido, mas era cismada com Camila. Sempre achava que ela mantinha os abraços exageradamente longos, os toques estranhamente frequentes, os sorrisos suspeitos e alegres demais, o andar oferecido demais…

Cumprimentava a outra com simpatia, mas frequentemente se pegava referindo-se a ela como piranha, oferecida ou espertinha, apesar de nunca ter visto nada que confirmasse efetivamente o merecimento dessas denominações.

Claro, o pirralho do Gabrielzinho piorava a indisposição.

Camila o trazia com frequência nas visitas e era evidente que ela vinha sendo incompetente na educação do menino.

Ele mexia em tudo. Não bastasse isso, havia suas tiradas prontas que eram tidas pela mãe como esperteza, e não malcriação; e a desobediência, comum com a mãe, pior com terceiros.

Todo esse conjunto de coisas era demais para a paz de espírito de Sabrina. Uma das maiores ambições de sua vida era poder dar uns sacodes no desgraçadinho.

Em determinado dia, Camila apareceu na casa acompanhada do filho intragável. Soltou o moleque para que destruísse o lugar enquanto ficou horas conversando com Alberto.

Sabrina ouvia com desagrado a visitante falar em viagens para o litoral, os dois e o filho. Alberto não parecia interessado, mas também não parecia achar nada de estranho na proposta.

— Não se esqueçam que amanhã é o aniversário do Bielzinho — ela disse, quando se levantou para, finalmente, ir embora. — Vem Biel.

O moleque soltou um porta retratos, deixando que caísse no chão, e veio sambando até à mãe.

Alberto, depois que eles foram:

— É mesmo, é aniversário dele. Esqueci de comprar um presente.

— Pode deixar, amanhã eu compro — Sabrina se apressou a se oferecer.

Alberto olhou para ela, surpreso.

— Pensei que não gostasse do Bielzinho.

— Bobeira — Sabrina mentiu, catando os cacos do vidro do porta retrato.

No dia seguinte ela andarilhou por todo o centro, a procura de um presente de grego.

Estava pensando em levar algo normal por só ter encontrado coisas realmente perigosas quando ouviu uma mulher reclamar junto a uma vitrine duma loja de brinquedos eletrônicos.

Dias depois da festa, quando Sabrina vinha chegando em casa, topou com Camila próximo ao portão. Pensou ter notado sinais de olheiras debaixo da maquiagem e sentiu uma alegriazinha maldosa. O pirralho não a acompanhava.

“O quê que essa oferecida estava fazendo lá em casa sozinha com meu marido?” pensou, irritada.

Alberto disse que ela só veio conversar.

— Ela queria me xingar por ter dado a guitarra pro Bielzinho. Diz ela que ele não dá sossego. Não deixa ela dormir e já fez dois vizinhos brigarem com ela.

Sabrina deu sorrisinho maldoso assim que ficou sozinha, sentindo-se muito maquiavélica.

Farrel Kautely

Farrel Kautely

Farrel Kautely, 1994, é de Belo Horizonte. Escritor e professor, atualmente reside em Mariana - MG, onde cursa Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto. Possui várias obras publicadas, dentre elas "Minúscula Pulga" (romance), "Picas da Galáxia" e "Sushipeia" (crônicas) e "O mínimo que você precisa fazer para ser um completo idiota" (ensaios e pequenos artigos). E-mail: kauty.s@gmail.com

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