Mais um dia de um livro que não foi lido, mas nunca esquecido

Mais um dia de um livro que não foi lido, mas nunca esquecido
Todos os capítulos do mundo de um livro com as histórias mais desgraçadas, tristes e lindíssimas do universo e por fim o que reverberá, sempre, será o próprio livro em si.

Os perdidos personagens dessas histórias descabíveis permanecerão enterrados nos fundos das escrivaninhas sujas nos quartos dos andantes que nem um dia sequer ousaram lê-los.

Todos os fatos ficcionais impregnados em cada vírgula da nada interessante vida de um Zé qualquer da tal obra importante misturam-se às histórias e vivências holofotizadas dos best-sellers americanizados (embora nacional e contemporâneo) dos títulos ao lado.

Essa ideia universal que não tolera – por nada – ser impugnada se perpetuará nas salas frias e nos corredores vazios de sua mente até que você se dê conta de que é mais um leitor que não está nem um pouco se importando com o que se lê, mas quem se lê.

Isso quando se lê, veja bem, o título disso (seja lá o que isso seja) aponta para uma versão, pelo menos, da história que nunca foi lida, a da parte interna, de dentro, sim, do personagem, as entrelinhas… As entrelinhas são muitas vezes tão importantes quanto a linha, mas essa sempre é mais importante do que o livro, o autor, e tudo o que o cerca.

E assim ficamos no infinito vazio das nossas almas refletidas em nossas estantes cheias de livros que nunca foram lidos, de histórias que nunca foram contadas e ensinamentos que nunca foram compreendidos.

Mas o livro, por fim, reverberá, sublime e intocável, literalmente.

Cássio de Miranda

Cássio de Miranda

Editor da Recorte Lírico. Baiano, mas exilado no Sul do país. Escreve sobre livros, filmes e séries. Pai, professor e escritor, não necessariamente nessa ordem. E-mail.: cassiodemiranda91@gmail.com; cassiodemiranda@recortelirico.com.br;

2 comentários sobre “Mais um dia de um livro que não foi lido, mas nunca esquecido

  1. Caro amigo Cássio: reverbera Jorge Luis Borges, falando de Bernard Shaw:
    “um livro é mais que uma estrutura verbal, ou que uma série de estruturas verbais; é o diálogo que trava
    com seu leitor, e a entonação que impõe a sua voz, e as mutáveis e duradouras
    imagens que ele deixa na memória. Esse diálogo é infinito; as palavras “amica
    silentia lunae” significam agora a lua íntima, silenciosa e resplandecente,
    enquanto na Eneida significaram o interlúnio, a escuridão que permitiu aos
    gregos entrar na cidadela de Tróia…
    A literatura não é esgotável, pela suficiente e simples razão de que um único livro não o é. O livro não é um ente incomunicado: é uma relação, é um eixo de inumeráveis relações.” De “Outras inquisições”.

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