Postal 2, A Cerimónia do Adeus

Postal 2, A Cerimónia do Adeus

     A Simone de Beauvoir dos Diários de Juventude é uma Simone surpreendente em relação à imagem clássica que habitualmente se faz dela: católica, sensível, com preocupações teológicas, ligada, no limite do dependente, a diversas pessoas, etc. Já na Cerimónia do Adeus (Cérémonie des Adieux), temos a última Simone: uma mulher que domina a regra dos jogos todos, uma jogadora exímia, mas que, nesta altura, já poucos tinham ilusões acerca dela.

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     É notório o ciúme-rivalidade que Simone sente de Pierre Victor (Benny Lévy) que nesta altura tinha assumido o papel de secretário, cuidador e amigo íntimo de Jean-Paul Sartre. Simone, e muitos outros, nesta altura, não perdem uma oportunidade de “espetar a faca” em Pierre Victor – como se poderia não odiar alguém que transformou o super-ateu Sartre num quase crente em Deus e convertido ao judaísmo?

     Simone, na sua virtuosa “fidelidade” a Sartre, afinal estão sepultados um junto ao outro, apesar de ter dito que a morte dela não os reuniria, quer através deste livro transmitir um testamento sartriano. O livro consiste numa primeira parte, onde Simone, de forma habilidosa, seca e quase telegráfica, no fundo, no seu estilo, descreve a sua visão e o seu testemunho dos últimos anos de Sartre; habitualmente editado com uma segunda parte com uma longa entrevista sob o tema do percurso de Sartre. A entrevistadora foi coparticipante na grande maioria dos momentos da vida de Sartre e quando não esteve presente fisicamente, esteve através da longa correspondência e confidências a que os dois foram sempre fiéis. Falaram sempre os dois de tudo, com a ressalva de que estamos na presença de duas raposas velhas e matreiras em muitos planos.

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     A “Cerimónia” é um diário dos últimos dez dolorosos anos da vida de Sartre. O livro regista a diversas dores dos dois. A dor da decadência física de Sartre que vai sucessivamente perdendo os dentes, a capacidade de se alimentar, perde a vista e fica à mercê de tudo e todos à sua volta e, num ponto, até a capacidade de andar a pé; e a dor de Simone que tem de assistir a tudo isso, a típica dor “do cuidador”, para ela, de alguma forma, mesmo que longínqua, Sartre era um herói, um homem que tinha uma presença seminal na sua vida em todos os planos. Simone opta por descrever em detalhe clínico esta decadência.

     São dez anos em que Sartre, como todos os velhos, de uma certa forma já está morto. Vamos morrendo aos poucos ao longo da vida, muitas vezes, o estertor não passa apenas da constatação da passagem à morte biológica. A biologia é apenas uma parte da vida. Para Sartre ele estava morto porque não poderia ver concretizar-se alguma coisa que iniciasse, portanto, política, literária e filosoficamente estava morto.

     Sartre nunca escreveu uma autobiografia, estas “Conversas” são um excelente manancial de todos os episódios da sua vida, bem como da origem de muitas das suas obras e ideias, acompanhado do filme “Sartre par lui-même” (1974) fica-se com uma boa ideia do percurso desta figura maior do século XX.

     Nós que somos a geração do Facebook, conhecemos bem o princípio geral de “mostrar para enganar”.

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Frank Wan

Frank Wan

Frank Wan é escritor, professor, pesquisador, tradutor, co-editor do Recorte Lírico, editor da Scripsi e outras. Vive, de momento, em Portugal. E-mail: ira.wan@hotmail.com

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