A paixão da linguagem e os livros

A paixão da linguagem e os livros

Quando penso no hábito da leitura, adquirido na infância, posso afirmar que a palavra muda a vida da gente. Mudou (e moldou) o menino órfão que, mesmo em face de dificuldades pôde, numa cidade do interior de Goiás descobrir e amar os livros da mãe adotiva; da biblioteca do colégio e outras tantas ao redor do país, onde o idoso que escreve esta crônica tem certeza de que a leitura é uma “aventura que limita com a noite e os sonhos”.

Muitos livros marcaram a minha juventude. Um, em especial, teve importância única naquela quadra da vida. “O bugre do chapéu de anta”, livro de Francisco Marins, tornou-se uma espécie de guarda-costas, protegendo-me de atos de violências dos colegas mais velhos.

A história foi lida, relida, contada e recontada aos irmãos adotivos e, no futuro, às filhas. Lembro-me vagamente de um enredo mágico – a viagem de um desbravador pelos sertões do Brasil, em aventuras vividas por Tonico, um valente rapazinho de Piratininga, que viaja pelos sertões à procura de seu tio Juvenal, que sonhava encontrar as minas perdidas dos “Martírios”.

Pois bem, isso a que hoje chamam “bullying”, leitor, era na minha infância simplesmente “tomar porrada”, sofrer agressão, entrar numa briga… onde eu, quase sempre saía perdendo. Para evitar esses constrangimentos sempre que possível reunia os irmãos menores em torno de minha cama para ler “o capítulo noturno” da história do Bugre.

Assim, deixei de levar muita pancada – era de certa forma sempre salvo pelo livro – e, ao longo da vida, fui salvo muitas vezes por muitos outros livros.

Muitos meninos, no recreio, só queriam enxovalhar e bater em outros mais magros, como sempre fui. Eu me refugiava na biblioteca, onde Dona Faustina sempre me conseguia indicar um bom livro. Havia a biblioteca dos moços e a biblioteca das moças. Lia indiscriminadamente com a bonomia da amiga bibliotecária.

Mais tarde, teria a chance de conhecer outras bibliotecas, de me apaixonar por outros livros, numa evolução constante das leituras juvenis, mas estas continuam matizando as fases da vida pelo acúmulo de camadas mais profundas do ser.

Em Porto Alegre, vivi uma dessas importantes passagens, passando muitas horas na Biblioteca Pública do Estado, que funcionava num edifício histórico da Rua do Riachuelo, atrás do Teatro São Pedro.

Foi ali que descobri o autor argentino Jorge Luis Borges. Fiquei sabendo que o escritor e bibliotecário, tinha na biblioteca sua visão pessoal do paraíso.

Aos 70 anos, o autor de “Ficções” escreve um poema exemplar sobre sua relação com os livros e os dons.  É uma síntese admirável do poder que os livros exercem sobre o leitor que a eles se entrega com devoção.  Para mim, foi como se tivesse passado, ao longo dessas mais de seis décadas do leite ao “alimento sólido” – de que nos fala o Apóstolo São Paulo em duas de suas epístolas.

Tendo ficado cego, Borges sabia que não poderia senão reconhecer as lombadas e sentir-lhes a presença –, a quantidade de livros de uma biblioteca parecia a Borges algo sensível –, ao andar pelo espaço das estantes, conseguindo imaginar a quantidade de livros, conforme o comprovou em experiências de viagens ao exterior.

Da “disciplina precisa” diante dos livros, somos convidados sempre a viver a leitura como “uma aventura que limita com a noite e os sonhos“.

Jorge Luis Borges - A paixão da linguagem e os livros

Borges tornou-se para mim o símbolo do “leitor ideal”. Está em “Elogio da sombra”, um poema que é síntese dessa paixão pela leitura e pelos livros – “Um leitor”, poema que transcrevo aqui, na tradução feita pelo poeta gaúcho Carlos Nejar.

Que outros se jactem das páginas que escreveram;
a mim me orgulham as que li.

Não fui um filólogo,
não pesquisei as declinações, os modos, a laboriosa
mutação das letras, o de que se endurece em te,
a equivalência do ge e do ka,
mas ao longo de meus anos tenho professado
a paixão da linguagem.

Minhas noites estão cheias de Virgílio;
ter sabido e ter esquecido o latim
é uma possessão, porque o esquecimento
é uma das formas da memória, seu impreciso porão,
o outro lado secreto da moeda.

Quando em meus olhos se apagaram
as vãs aparências amadas,
os rostos e a página,
entreguei-me ao estudo da linguagem de ferro
que usaram meus antepassados para cantar
espadas e solidões,
e agora, através de sete séculos,
desde a Última Tule,
tua voz me alcança, Snorri Sturluson.

O jovem, ante o livro, impõe-se uma disciplina precisa
e o faz em busca de um conhecimento preciso;
em minha idade, toda tarefa é uma aventura
que limita com a noite.

Não acabarei de decifrar as antigas línguas do Norte,
não afundarei as mãos ávidas no ouro de Sigurd;
a tarefa que empreendo é ilimitada
e há de acompanhar-me até o fim,
não menos misteriosa que o universo
e que eu, o aprendiz.”

Com Borges, sinto-me diante de um ser que soube “tirar da circunstância miserável de nossa vida, coisas eternas”, ele que se afastou deixando-nos coisas que desejamos sejam eternas – diante dele, o melhor é descer das estantes as formas em celulose chamadas livros, que ainda podemos ler sem temor, enquanto nossos olhos o permitem.

Concluo dizendo que “a palavra nos protege” e, por consequência, no nosso desenvolvimento humano e espiritual “a palavra – o ato de ler e escrever pode ser um sacerdócio e uma salvação”.

Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 65, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (pela UFRGS - onde também estudou Física, sem concluir o curso). Autor de "O rio incontornável" (Poemas), Edit. Mondrongo, 2017, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

7 comentários sobre “A paixão da linguagem e os livros

  1. Essa nova fase dos seus escritos mostra um poeta em busca de suas raízes, sem receio de se desnudar, E sem perder a erudição abre uma nova trincheira no emocional de quem o lê.
    Excelente!

  2. Amigo, muitas são as pessoas que se salvaram pela literatura, você é uma delas. Conhecer sua história é conhecer o poder da palavra.
    Você é uma força substantiva que dispensa denotações adjetivas na ação dinâmica do verbo VIVER.
    Que exemplo de vida é você!

  3. Muitos são os que se salvaram pelas Letras. Literatura é vida.
    Você, amigo Adalberto, se vestiu de palavras, adquiriu força substantiva que dispensa os adornos das adjetivações e, ainda, vibra nas ações, como os verbos, tornando-se o núcleo dos predicados que a dinâmica da vida nos cobra .
    Você é um admirável exemplo de vida.

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