O apelo à permanência

O apelo à permanência

Deveria durar toda uma vida, o chamado à transcendência, mas o magnetismo do chão, do terra-a-terra; a atração do dia-a-dia, do mundo e suas ilusões superam muitas vezes nossa capacidade de compreender que somos mais do que um esqueleto que deambula pelo mundo por algumas décadas.

O apelo do eterno parece bater-nos à porta do coração quando todo o resto parece em ruínas. Nos momentos de calmaria, a noção do eterno é dada ao homem pelo sentimento do Amor. Desde os profetas de Israel, o mundo ocidental aprendeu que Deus é Amor.

«Ainda que as montanhas se desloquem e vacilem as colinas, o meu amor não te abandonará» – escreveu Isaías.

Mas o homem moderno, em meio às vacilações da fé e a confusão ideológica que tentou varrer a religião para baixo do tapete das heresias e das crenças revolucionárias, ainda assim este homem é capaz de ouvir este apelo.

Tomo como exemplo ilustrativo o caso do escritor mineiro Lúcio Cardoso – homem de grande talento que produziu obra vária e diferenciada, entre 1912-1968. Esquecido da crítica atual, Lúcio foi muito admirado em seu tempo – pelos leitores e por escritoras do talento de uma Rachel de Queirós e de Clarice Lispector.

Rachel apelidou Lúcio de “o arcanjo rebelde” e a obra dele, principalmente os Diários, são mesmo registros de uma alma inquieta e abertíssima aos apelos do Eterno.

Lúcio sabia que a vida, em ruínas ou em calmaria é um dom que nos é dado, mas pode também ser uma espécie de ato sacrílego contra o Criador, se não atendemos a vocação da eternidade: “morro de tudo o que vivo: sinto que a existência, em certos momentos, é quase um sacrilégio” – afirmava.

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Ano de 2018 completaram-se cinquenta anos desde a morte do escritor mineiro. (Foto: Reprodução)

Dos “Diários” de Lúcio Cardoso, extraí há algum tempo uma espécie de prece, que me conforta em momentos em que surge a tendência de ceder à ansiedade do tempo presente:

Que Deus me dê a simplicidade de ver as coisas em sua própria verdade, no seu jogo natural entre a luz e o dia – e não transfiguradas e em ânsias. Que o dom é ver a vida escorrer no seu apelo à permanência, insensível à ameaça da morte – e não ver somente a morte, no seu trabalho sutil de transposição, misturando-se aleivosamente às formas mais felizes da criação.

“É esta fraqueza dos que não dos que não sabem viver em superioridade à matéria nua, confundindo-a, subjugando-se ao seu poder. Enquanto o que é espírito, paira e sobrevive na tranquilidade, contemplando o que é inerte na clara expansão da sua inexistência.”

Ainda no mesmo período (1949), ele registra sua visão prática do catolicismo em meio às incertezas de um filme inacabado (“A mulher de longe”):

“Sempre ouvi dizer que para se ser católico, é necessário ter força de vontade. O que é inegavelmente verdadeiro, mas não no sentido absoluto da palavra, pois que tenhamos vontade ou não, a maioria de nós é indelevelmente católica. (Eu sei que só é católico o praticante, mas mesmo assim…).

“Não quero fazer aqui a conhecida diferença entre ser cristão e ser católico, pois a meu ver só há um modo de ser cristão, é ser católico. Assim, o difícil não é ter força de vontade para ser católico, mas para viver catolicamente. Sofro diariamente, e com uma intensidade que seria desnecessário afirmar, fundo, bem no fundo, flutuando livremente, esse sentimento, tolo, eu sei, de que talvez estivesse assim invalidando algumas de minhas possibilidades mais autênticas….

“Repito, tolice, mas, ainda assim, invencível sentimento. Catolicamente é difícil, é terrível viver, mas não seria a única maneira possível? Como suportar certas contradições, certos erros, certas deficiências e obscuridades? Como suportar essa horrível atração do caos? Como juntar os dois eus diferentes que me formam?”

Esses ecos de uma voz superior me alertam e continuam sendo um chamado irresistível para o momento presente, a hora presente.

Sabe o cronista, como Carl Jung, que “diante dos acontecimentos interiores, outras lembranças empalidecem” – pois o que vale de verdade é o elo entre o transcendente e o interior do homem.

E se ao leitor parecer melancólica esta croniqueta, recomendo-o que feche os olhos ao cronista que vai atravessando com vagar um deserto espiritual, sem desânimo, com uma reserva de água e Esperança, seguindo confiante em busca de Luz.

Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 65, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (pela UFRGS - onde também estudou Física, sem concluir o curso). Autor de "O rio incontornável" (Poemas), Edit. Mondrongo, 2017, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

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