Os trabalhos e os séculos

Os trabalhos e os séculos

Lendo sobre o mito de Héracles (Hércules) nos livros de Robert Graves, tomamos conhecimento que não há um, mas múltiplos heróis e deuses com este nome. “Hércules é uma palavra de muitos significados” – disse Cícero, orador e cônsul romano, mas originalmente, seu nome é “Glória de Hera” e Monteiro Lobato diz que Hércules era forte e bruto, mas dotado de um grande coração.

Um dia desses, no final de 2019, li com meu neto Lucas um trecho de um dever-de-casa dele que tratava de um dos trabalhos de Hércules – o décimo, que deveria ter sido o último, não houvesse o herói sido enganado por Hera.

Se as crianças pequenas e grandes confiam em Lobato estão prontas também a acreditar no que disse o escritor francês Anatole France: “havia em Hércules uma doçura singular, ou seja, sempre chorava ao final da mortandade que causava, pois era “robustíssimo de corpo e mole de coração”; ou, na fala de Pedrinho em resposta a Dona Benta:

–  Coitado! Tinha coração de banana…

No décimo trabalho, cabia a Hércules conduzir um rebanho de cor avermelhada, como um vaqueiro supremo, por mar e terra levando os bois da ilha distante até o reino de Eristeu.

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Gerião da Eritéia (Erítria) era um homem enorme de três cabeças e seis braços, num corpo tríplice até à altura dos quadris, um sujeito invencível até então, inclusive na altura do brado que proferia contra os trovões de Zeus.

Os famosos bois de Gerião que Hércules deveria conduzir, sem pedir nem pagar por eles, formavam um rebanho de extraordinária beleza, de cor avermelhada. Gerião tinha como guardas de seus bois o pastor Eurítion, filho de Ares, e o cão bicéfalo Ortro, que pertencia a Atlas.

A deusa Hera, naturalmente, esperava que Hércules falhasse nesse décimo desafio ou que, no limite, não completasse o trabalho proposto antes dos 99 meses combinados – ou seja, impedindo os planos de Zeus de fazer do filho um deus.

Os pilares de Hércules (Estreito de Gibraltar) são uma das provas de que o herói-gigante não esmoreceu nem quando atravessou o mar Mediterrâneo entre a Espanha e a África. Outras armadilhas de Hera estariam no caminho do herói e este a todas vai superando.

O caminho é penoso para o herói e as peripécias continuam encantando adultos e crianças até hoje. Então, pergunta-se o leitor: mas por que Hércules foi alvo das ações ardilosas de uma deusa?

– Ora, por ser filho de Zeus, pai dos deuses gregos e de Alcmena (“forte na ira”), a mortal princesa de Tebas, Hércules é perseguido duramente porque Hera tem ciúmes do marido e não aceitava as infidelidades de Zeus.

Estudiosa de Lobato e dos doze trabalhos, a professora Diva de Oliveira nos ensina:

“Hera tortura Hércules com vários acessos de fúria, fazendo-o matar e destruir tudo que está a sua volta e levando-o a arrepender-se amargamente depois. Foi por imposição da deusa que ele se viu obrigado a realizar os doze trabalhos. Embora tenha alcançado grandes vitórias, Hércules amargou também várias derrotas. Ele não tinha medo de encarar desafios, pois estes ao invés de imobilizá-lo, funcionavam como uma alavanca para ação e superação dos obstáculos.”

Talvez por isso, Hércules seja um dos mais populares mitos gregos. Ele era considerado o homem mais forte do mundo e o único que poderia salvar o reinado de seu pai adotivo (Anfitrião) na cidade de Tebas.

Zeus convence Hera a concordar com este acerto, em que após os dez trabalhos, fosse concedida a imortalidade a Hércules e mantido o reinado de Anfitrião em Tebas. Os dez labores viram doze, em função das tretas de Hera.

Zeus tinha lá seus (muitos) cálculos. Alcmena, descendente de Níobe, foi a última mulher mortal seduzida por ele e este não via nenhuma possibilidade de conceber outro herói que pudesse igualar-se a Hércules.

Em defesa de Zeus, é bom dizer que ele foi polido, charmoso mesmo, em relação à mãe de Hércules, pois, honradamente se passou pelo marido dela (Anfitrião), assumindo o aspecto dele e cortejando Alcmena com palavras e carícias afetuosas.

Vários sentimentos humaníssimos são aí expostos na história de Hércules que a tantos atraiu ao longo da história da Literatura. Desde Diodoro Sículo, passando por Cícero, Virgílio, Heródoto, Anatole France, chegando ao nosso Monteiro Lobato, as façanhas do herói ganham diversas interpretações.

“Na verdade, a fábula de Hércules é como um varal em que puderam ser dependurados um grande número de mitos relacionados, não relacionados ou até mesmo contraditórios – afirma Robert Graves. E continua:

“Entretanto ele representa, principalmente, o típico rei sagrado da Grécia helênica primitiva, consorte de uma ninfa tribal que é a encarnação da deusa-Lua, ao passo que seu irmão gêmeo (Íficles) cumpria o papel de sucessor” – afirma Graves em “Os mitos gregos” (vol. II, p. 115).

A fascinação pelo herói levou o escritor paulista Monteiro Lobato a escrever um clássico infantil, que ficou na imaginação da criançada – “Os doze trabalhos de Hércules” – que serve até hoje a adolescentes e adultos como porta para se conhecer e entender os mitos gregos.

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Eu tenho vivido esse encanto, lendo textos em português e traduzindo alguns outros do inglês, para meu próprio consumo e deleite, e na sua grande parte as páginas de Robert Graves versam sobre mitos, além de algumas páginas poéticas.

O mitólogo e poeta inglês diz que o tema principal dos labores de Hércules é, na verdade, “a execução de certas façanhas rituais antes de ele ser aceito como consorte da rainha Atena (também chamada de Admeto, Auge ou Hipólita).” Antes, coube ao herói ter como esposa Djanira.

A violência da morte desse Hércules primordial grego ganha traços de horror, no relato de Graves:

“No final do solstício de verão, no final de um reinado de meio ano, Héracles [o Hércules grego original, se assim posso afirmar, sem considerar o mito babilônico de Gilgamesh!] era embriagado com hidromel e colocado no centro de um círculo de doze pedras dispostas em torno de um carvalho, em frente do qual se erigia um altar de pedra.

“O carvalho era podado até que se tomasse a forma de um T. Amarravam-no ao lenho com tiras de salgueiro, formando um laço quíntuplo, o qual liga juntos punhos, pescoço e tornozelos. Seus camaradas o espancavam até que desmaiasse, depois era esfolado, posto no altar de pedra onde o esquartejavam. Seu sangue era recolhido numa gamela e usado para aspergir a tribo, a fim de tornar a todos vigorosos e fecundos.

“Os pedaços eram assados em duas fogueiras de ramos de carvalho acesas com aquele fogo sagrado, obtido quer de um carvalho que tivesse sido incendiado por um raio, quer em decorrência da fricção de um pedaço de amieiro ou de uma cornácea num cepo de carvalho. Logo destrinchavam o tronco, que talhavam em pedaços que eram atirados às chamas.

“Os doze companheiros se envolviam numa dança selvagem em forma de oito, em torno de ambas as fogueiras, cantando possessos e estraçalhando a carne de Héracles com os dentes. Os restos sangrentos eram consumidos pelo fogo, com exceção da genitália e da cabeça. Estas partes eram colocadas num barco feito de amieiro que deixavam flutuar até alguma ilhota; entretanto, às vezes, a cabeça era ressequida por defumação e conservada para fins oraculares. O companheiro imediato da vítima, o tanist, a sucede e reina durante o resto do ano até que seja sacrificado por um novo sucessor.”

Mas há uma versão mais light da vida e morte de Hércules, que é a mais popular e adequada às crianças. Nela, o herói casa-se com Dejanira (Deianira, “a que vence os heróis”), filha de Eneu ou em outra versão, filha do deus Dionísio com Alteia, mulher de Eneu, mas Hércules teria saído ao pai e tinha suas amantes.

Dejanira já se resignara ao hábito de Hércules ter amantes, sentindo mais compaixão do que ressentimento pela beleza fatal de Íole, a última delas. Não suportava, entretanto, que os amantes vivessem sob o mesmo teto. Dejanira, então, decidiu utilizar o talismã amoroso de Nesso – uma túnica mortal – como um meio de conservar o afeto de seu marido.

Ocorre, entanto, que quem veste a capa mortal é o herói e não a amante. Hércules morre com o veneno de Hidra que envolvia a túnica. Enganada por Nesso, Dejanira se mata. Hércules ressuscita, sobe aos céus do Olimpo, e numa cerimônia de renascimento, Hera o adota como seu filho e torna-se o homem que ela mais amou depois de Zeus. Hércules é nomeado “porteiro do céu” e nunca se cansa de permanecer junto aos portões do Olimpo.

Esse “Héracles” mitológico talvez tenha algo a nos ensinar sobre a história do Hércules romano, herdado dos etruscos e sobre a questão da violência e o sagrado, nos moldes do pensador francês René Girard, podendo ser vistos como verdadeiros bodes expiatórios, mas isso fica para outro artigo.

Por ora, cabe-nos pensar no Hércules clássico – greco-romano como em alguém que tipifica a força, a persistência e que, mesmo usando a força bruta, ouve seu coração e cujo prêmio final é o de salvar uma comunidade pelo serviço prestado.

Os financistas verão mais do que isso, pois ao conduzir um rebanho por tamanha distância, enfrentando tantas adversidades e a todas superando, pode ser o exemplo daquele que tem resiliência para continuar trabalhando, gerando fortunas e não desperdiçando nenhum boi (centavo) do que amealhou.

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E para colocar um ponto final nessa narrativa sem pé-nem-cabeça, devo convocar Lobato:

– Adeus, Hércules, grande amigo! Gritou Pedrinho.

– Adeus, zênite da mitologia grega! – saudou cientificamente o Visconde.

Sinto que ainda persistirá por muito tempo o impacto e o efeito das ações deste “herói de coração de banana”, capaz de esforços “hercúleos”, como um símbolo do enfrentamento das dificuldades, e deixo a você, leitor, a certeza de que é mesmo “a educação que faz as criaturas” – como queria nosso querido Monteiro Lobato.

Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 65, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (pela UFRGS - onde também estudou Física, sem concluir o curso). Autor de "O rio incontornável" (Poemas), Edit. Mondrongo, 2017, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

7 comentários sobre “Os trabalhos e os séculos

  1. Excelente como sempre. Não conhecia a primeira versão da morte de Hércules. Quanto a mitologia, de bela que é, emprestou seus deuses e deusas, semi deuses e heróis a astronomia, nomeando planetas e constelações. Sólon, um dos sete sábios gregos, a sua época já versava sobre Hércules e as Colunas de Gibraltar. Tais referências estão no texto perdido de Platão sobre o desaparecimento de Poiseidonis e Atlantis. Mas de Sólon a Adalberto, passa-se por Longino, Aristóteles, Homero, Virgílio entre outros gigantes da poesia/mitologia/ e da beleza clássica dos contos e mitos. Parabéns pelo texto/conto/análise caro Adalberto de Queiroz. Você nada ficou a dever para os nomes clássicos citados.
    Fraternal abraço.
    Etian Vere Amicus et Frater.
    Marinho Seques Lopes.

  2. Como são lindas as histórias contadas por quem sabe, Adalberto leva através de suas letras o sonho do herói e do menino, a mitologia grega é só uma forma de trazer a sua escrita.

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