Senha para acessar o sofrimento

Senha para acessar o sofrimento

Dois livros excepcionais tornaram menos penoso este período de quarentena. “Dentes negros”, de André De Leones e “Os noivos”, de Alessandro Manzoni, adaptado por Umberto Eco para a garotada.  Ambos, saborosos e provocativos, valem a pena ser lidos, porque são bons lenitivos para a alma.

O livro de Manzoni não deixa envergonhado nenhum leitor adulto ao ser flagrado lendo com empolgação um livro adaptado para a galerinha.

“Dentes negros” motiva muito porque cria uma atmosfera imaginária que nos remete ao meio da Calamidade da hora presente. Ou melhor dito: de algo imaginário que nos remete aos dias de hoje.

Já durante a leitura de “Os noivos”, pensei: é livro que pode ser o mote para a minha segunda crônica deste mês de março 2020.

Sem escapar de si mesmos

Mas “Dentes negros” me mordera antes. O goiano André De Leones, pega o leitor pelo cangote sem que possa (nem queira) parar de ler.

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André De Leones, goiano, é autor de “Dentes Negros”. (Foto: Reprodução)

Este é um livro escrito por um talentoso rapaz, à época com vinte e cinco anos, provavelmente sem dinheiro no bolso, nem no banco, sem parentes importantes (ao que eu saiba!), e vindo do interior – como na canção de Belchior.

E como, me pergunto, poderia De Leones ter escrito um livro tão bom e, principalmente, tão premonitório? É que ele honra o sobrenome. Cai sobre a vítima com Leon Tolstói logo no pórtico: “Vocês não vão escapar de si mesmos”, diz na epígrafe. É uma passagem de Ana Karenina (ou Kariênina, como se diz hoje).

Fui treinado, como leitor, a prestar atenção em epígrafes, pois são coisa séria para se passar batido. Sempre pulo o prefácio. Volto a eles de vez em quando, ao final da leitura. “Dentes negros” não o tem. E o quê?

O que se passa é muito rápido, como num filme, um romance curto, impactante, ainda com aquele frescor das primeiras coisas.

De Leones parece estar escrevendo um script para o cinema (ele próprio é empolgado pelo tema e mantém o podcast Diário Mínimo, em parceria com Fabrício Cordeiro), e vai direto ao assunto:

“– Ninguém aqui teve infância, ela diz. E agora estamos envenenados até os ossos.”
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“Dentes Negros”, publicado pela Editora Rocco. (Foto: Reprodução)

Em cenário pós-apocalíptico, De Leones vai tecendo um jogo de cena que nos leva a comparar as coisas com a rotina em que vive este leitor (e você, imagino, se não estiver em Marte!) – sob a calamidade ocorrida em Goiás (no romance) e o da pandemia de Coronavírus, no planeta Terra etc. e tal.

“Somos todos bastilhas ambulantes. Estamos todos doentes, e doentes até os ossos. A doença está dentro da gente e nunca vai sair.”

A personagem feminina (Renata) diz ao moço (Hugo) o que parece algo de uma “bem antenada” com o mal que os circunda e declara que, apesar de haver uma “vacina”, o Mal ali permanece, feito o pecado original:

(…) A coisa dentro deles, paralisada, mas dentro deles para sempre, e depois dentro dele, Hugo, e de todos devidamente vacinados”.

Eles se sabem “calabouços ambulantes”. De certa forma, é como se sente o leitor dentro de “Dentes negros”, neste tempo de pandemia, de onde não se sai ileso.

Até o presidente da terra imaginária – esse pedaço do Brasil fortemente tomado pelas memórias de infância do autor, a cidade de Silvânia, Goiás, que é terra desolada – “um deserto no coração do país”.

O Autor não perdoa nem mesmo o seu (e meu) time do coração – menino-marginal aparece vestindo uma camisa esfarrapada do Vila Nova (Futebol Clube), que não existe mais… “Acabou”, diz o mais velhos entre os garotos.

Acabou muita coisa e é preciso uma senha para acessar o sofrimento.

O protagonista a encontra em um livro:

“Lendo os primeiros fragmentos ou capítulos de Casa entre vértebras, Hugo pensou que aquele era uma espécie muito peculiar de livro apocalíptico. Se a palavra, conforme dizia a epígrafe de Roberto Juarroz, é o único pássaro que pode ser igual à sua ausência, aqueles fragmentos tracejavam pessoas e coisas e sentimentos que, muito embora manifestos ali, já não eram, estavam ausentes ou, em última instância, mostravam-se intraduzíveis. Palavras que não diziam, presenças ausentes, fraturas na e da própria linguagem, expostas no livro desde a sua estrutura…

“O livro acabou se tornando, para ele, uma sucessão de pressentimentos, como se trouxesse, nas entrelinhas (e ele era todo entrelinhas), a notícia do fim.”

Esse livro dentro do livro tornou-se, também para este leitor, a senha para acessar o sofrimento da hora presente.

E isso faz, como no caso do personagem que lê “Casa entre vértebras”: “ele precisava de uma senha para chegar ao sofrimento e, uma vez nele, sentir-se humano, tangível, menos gratuito.

Mas voltemos ao Apocalipse, esse que é um “evento igual à sua própria ausência”; para o qual cabe ou deve o vivente (leitor ou não) buscar algum consolo na música, na leitura, nas memórias.

No fundo, o que se busca é uma vacina eficaz, um antídoto, um remédio contra o caos informacional que a tragédia gera (no livro e na realidade de hoje), pois as notícias que “tomaram de assalto os meios de comunicação” tornam-se em si mesmas “sintomas da própria Calamidade”.

Em meio à pandemia de hoje, as notícias são como espirros que aos outros contamina.

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A peste vista como “febrezinha de nada”

E o que dizer dos homens de governo. Estes no livro de De Leones, tal qual o Duque de Milão – no livro do italiano Manzoni, no meio da peste bubônica, na Itália dos anos 1600 –, parecem assustados:

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A história de Os noivos, de Alessandro Manzoni, contada por Umberto Eco. (Foto: Reprodução)

Um homem assustado” – é o que constata Hugo, ao olhar a foto do Presidente nos jornais. Tal e qual Alessandro Manzoni observava as atitudes do Duque de Milão, que à revelia da Peste, quer continuar a guerra e não pensar “numa febrezinha de nada”.

Talvez porque “a ideia da peste causasse tanto pavor, durante um tempo, a maior preocupação não apenas das pessoas comuns, mas também das autoridades, era negar que ela existisse[i]” – é o que se lê em Manzoni.

E como Umberto Eco estruturou seu livro para a “galera” juvenil, em tópicos, assim também o farei aqui para concluir essa crônica que já vai se estendendo demais.

A Decisão – tomados de horror decidiram que ficaríamos em casa, seguindo as medidas sanitárias. Adotamos o isolamento social. No meu caso, diria no nosso – minha mulher e eu estamos a essa altura de escrita deste artigo, há vinte e cinco dias isolados de tudo e de todos, incluindo os netos.

O Medo – o medo da Morte é o que ninguém de nós quer dizer, mas é o que mais contundente. Ele se espalha sorrateiro. Como nos poemas do jovem bardo goiano Walacy Neto:

I

“falemos por hora
do medo insistente
de certos freios
que podem parar
pausar sem o susto

ou num gesto brusco
mudar o curso
cedo perder o pulso

todos nós temos
medo de ceder.”
+++

II

[…]

“vivo o medo que o futuro
estranho tenha o canto
como tédio

tenho medo
que o gemido
vire o estrondo
como as turbinas
de um avião
no ouvido descampado.”

III

[…]

“Certa vez
matei o medo
e estou vivo”

A ação – decidimos ocuparmo-nos com projetos, atividades – até porque é mesmo o trabalho que nos faz encarar melhor a realidade; de alguma coisa tangível ou intangível que nos desse uma medida diversa do passar do tempo – que não fosse a daquela sensação “que coisa horrível é estar confinados”.

Siga a cartilha de proteção, mas se a sua, como a nossa casa, tem muitas portas e janelas, abra-as de par em par, leitor. Assim nos sentimos menos confinados, embora não mate a saudade de um abraço dos pequenos que estão próximos, mas incomunicáveis…de um passeio de carro, de uma ida à feira, a um festejo, ao shopping e à missa.

Abrir as frestas da casa, pela sensatez e, tanto quanto possível – evitando com precaução as horas em que visitas indesejáveis possam aparecer – falo de mosquitos da Dengue, Zica e Chikungunya, da malária. Essas febres do Nilo e de alhures tão esquecidas por hora. Boa medida.

A ausência – seja dos filhos e filhas, dos noivos, dos pais, dos namorados, netos, tudo faz falta.  Como é difícil, meu Deus, pensa o leitor deixar de abraçar, e eu: principalmente os netos.

A correria – em “Os noivos”, o personagem Renzo, o prometido de Lucia, sofre um exílio involuntário, por razões que não revelarei ao leitor e, passado um tempo, volta a Milão. O que encontra é um pandemônio, uma correria, as pessoas enlouquecidas. Isso parece que ainda não vimos.

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Alessandro Manzoni, Milano, 7 março 1785 – Milano, 22 maio 1873. (Foto: Reprodução)

Era a correria pelo pão, o saque, o desespero pela fome e a ausência (ou o custo excessivo do pão); ele tem também que se explicar muito para não se tornar um “bode expiatório” – essa é a saída que em todas as crises, a massa parece encontrar para amenizar seu próprio medo e encontrar consolo.

Será que ainda assistiremos a essas situações de caos social, em que a massa perder-se-á em saques e violências contra o semelhante? Que o caro leitor, ao ler este artigo avalie. Não sou dado a profecias, como o De Leones e o Manzoni. Fica, pois, a incógnita.

A loucura coletiva – sabe-se que um mal antigo, subjuga as massas diante das catástrofes. O escritor búlgaro Elias Canetti descreve no seu livro “Massa e poder” nos mostra como, mesmo entre os Católicos, conhecidos pela amplitude, a lentidão e a calma, uma solenidade pode se tornar um momento de pânico e gerar comportamentos doentios de massa.

Conhecido como “O pânico de 1834[ii]”, o episódio é narrado por Canetti, tendo ocorrido na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém.

Durante a chamada “solenidade do fogo sagrado”, que comemora a Ressurreição de Cristo, os fiéis foram convidados a lenta e pacificamente acenderem seus círios no fogo sagrado que é distribuído a todos a partir de uma fonte principal – e assim, acendendo suas velas no fogo pascal, os fiéis sentem-se participantes do milagre da ressurreição.

Entretanto, “o pânico de 1834 deriva com aterrorizante consequência do elemento de luta que faz parte da cerimônia” – cada fiel quer ter sua vela acesa.

“Corria um boato de que a Peste estava se espalhando” e a correria teve início sem saber-se como terminaria.Os fatos descritos por Canetti foram presenciados por Robert Curzon que após o pânico gerado, constatou cadáveres estendidos aos montes, empilhados em desordem, em alguns lugares em montes de mais de um metro e meio.

O que era para ser uma cerimônia pacífica e ordeira transformou-se no palco de cena dantesca, com  “montes de cadáveres sobre os quais se pisa e sobre os quais se procura salvar a própria vida”, transformando a Igreja do Santo Sepulcro num “campo de batalha”.

A ressurreição transformou-se no seu oposto: um massacre geral. A imagem deste monte de mortos, a ideia da peste, apodera-se dos peregrinos, e todos fogem da cidade onde está o Santo Sepulcro.”

Encontros – virtualmente eles se expandem, porque os atuais estão minguados. Lemos mais, vemos mais filmes, e continuamos nos comunicando…

Há os jovens desprendidos e voluntários que, feito Renzo no romance de Manzoni, frequentam os locais onde estão os que sequer têm sabão para lavar as mãos, quanto mais pão…

Os “lazaretos”, como eram chamados os hospitais para os doentes da Peste de Milão são hoje as ruas, as favelas, onde continuam os mesmos descalços, jogados, primeiras vítimas dos males da pobreza. Aqueles, para quem até a Providência parece não olhar.

Esses que praticam o Bem, estão conformes ao que Eco repercute, ao encerar a história de “Os noivos”:

“Se cada um de nós conseguir ter um pouco de compaixão por nossos semelhantes, este mundo ficará um pouquinho, mesmo que seja só um pouquinho, menos feio”

Assim, a leitura desses dois livros tornou-me mais saudável. Lição que fica é a que devemos sempre ter em conta não apenas a perspectiva noticiosa das calamidades, mas, principalmente, a sua interpretação cultural. Que lenitivo são os livros para a alma!

Foi assim, que de olho na minha janela aberta ao sol de um intervalo de chuvas, a luz bateu direta sobre os volumes lidos: como se Manozini, Umberto Eco & De Leones insuflassem ar fresco e uma réstea de esperança dentro de mim.


[i] ECO, Umberto. “Os noivos. A história de Os Noivos contada por Umberto Eco; trad. Eliana Aguiar; ilustr. Marco Lorenzetti. – Rio de Janeiro: Galera Record, 2012, pág. 77.

[ii] CANETTI, Elias. “Massa e poder”. Trad. Rodolfo Krestan. – São Paulo: Melhoramentos; Brasília: Ed. UnB, 1983, pág. 174-181.

Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 65, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (pela UFRGS - onde também estudou Física, sem concluir o curso). Autor de "O rio incontornável" (Poemas), Edit. Mondrongo, 2017, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

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