Garçom

Garçom

Comecei a trabalhar como garçom numa pizzaria aqui de Mariana.

Ontem indaguei aos demais moradores da minha república se eles tinham visto minha gravata e o Amoroso perguntou

— Está curtindo trabalhar na pizzaria tal?

— Ah, antes eu achava um trabalho normal, que não fede nem cheira — respondi, meio chateado. — Mas agora pra mim está mais que podre.

— Por quê? O que tá pegando?

— Lá eles não aceitam gorjeta, mas cobram 10% a mais pelo serviço, que supostamente seria um extra pra gente que trabalha lá, mas o dono não está passando o dinheiro direito.

— Tem certeza?

— Tenho. Comecei a desconfiar quando reparei que ele meio que registrava de mal jeito o nome de quem atendeu determinada mesa. Daí semana passada anotei os valores dos pedidos num bloquinho de notas e depois calculei. Ganhei só uns dois terços do que devia.

— Denuncia ele.

— Não tenho como provar. E se eu começar a tentar provar, fico sem o emprego.

— Entendi. Vou ver se o gênio de fumaça concede alguma justiça pra você.

— O que é isso? Um deus de uma religião nova?

— Pode ser, por que não? Já tem o Monstro do Espaguete Voador, não é?

Apenas sorri e concordei. Amoroso sempre vem com uns papos sem sentido.

O trabalho foi o mesmo de sempre. Quando passou da hora de fechar, comecei a me perguntar por que o dono da pizzaria não fechava logo a merda das portas e me liberava, já que depois de 23h não aceitam mais pedidos. Foi aí que vi várias caixas de pizza em cima do balcão. Eram umas vinte.

— E essas pizzas aqui? — perguntei à filha do dono, que era caixa e balconista.

— Um cara de uma festa ligou e pediu. Falou que ia vim buscar, mas ainda não apareceu.

Depois de quarenta minutos e de várias ligações que caíram na caixa postal, o dono fechou a porta e perguntou à filha, raivoso:

— E agora, o que eu faço com essas merdas aqui?

A filha sugeriu que levassem para comer, mas até o dono teria de concordar que não poderiam comer tantas. Então deu duas para cada funcionário.

Quando cheguei na república reparti a pizza com quem estava acordado.

— Valeu pela pizza, cara! — o Amoroso me agradeceu.

— Que nada, foi de graça.

— De graça não. Custou dez reais.

— Dez reais?

— É. É o que paguei no chip novo.

Farrel Kautely

Farrel Kautely

Farrel Kautely, 1994, é de Belo Horizonte. Escritor e professor, atualmente reside em Mariana - MG, onde cursa Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto. Possui várias obras publicadas, dentre elas "Minúscula Pulga" (romance), "Picas da Galáxia" e "Sushipeia" (crônicas) e "O mínimo que você precisa fazer para ser um completo idiota" (ensaios e pequenos artigos). E-mail: kauty.s@gmail.com

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