Ilustres desconhecidos da poesia brasileira: Lucila Nogueira

Ilustres desconhecidos da poesia brasileira: Lucila Nogueira
Lucas Silos – lucasrafaelsilos@gmail.com

Lucila Nogueira, nascida no Rio de Janeiro em 1950, foi uma das vozes mais fortes e originais da poesia brasileira contemporânea. Passou a maior parte da sua vida em Recife, onde, além de ter trabalhado como tradutora, lecionou diversas disciplinas de literatura e de crítica literária. Ademais, publicou seu primeiro livro, Almenara, em 1978 – obra longe de ser imatura – uma vez que foi agraciada, já no ano seguinte, com o Prêmio Manuel Bandeira do Governo do Estado de Pernambuco. Ao longo dos poemas, a escritora passa rapidamente pelo aspecto social e pela infância, mas seu grande tema consiste nas questões transcendentes do espírito humano, atingindo, não raro, o plano metafísico.

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Lucila foi a primeira brasileira a participar do Festival Internacional de Poesia de Medellin. (Foto: Acervo/Reprodução)

A Transcendência, o onírico e o misticismo, elementos já presentes em Almenara, consolidam-se em seu oitavo livro, Zinganares (1998), que terá como essência o premonitório. A obra consiste em 45 cantos de quatro quartetos de versos decassílabos em que se acrescenta um dístico final. Nas primeiras páginas, encontra-se um eu-lírico materializado numa espécie de oráculo que adverte o leitor do seu poder divinatório:

o que vejo nas almas eu escrevo
sob a forma de enigmas fatais
com adivinhações inacessíveis
à lógica empirista dos mortais
(NOGUEIRA, 1998, p. 10)

Além disso, é contemporâneo de civilizações antigas:

[...] sacerdotes caldeus deram-me um livro
na cidade de Elo e eu compreendi
essa doutrina que não foi escrita
precursora dos sábios de Saís
(NOGUEIRA, 1998, p. 16)

Apesar de fazer referências a povos antigos, essa “entidade mística” transcende o tempo (eu sou a mais antiga e a mais moderna/ narração de teu rumo sobre a terra) (NOGUEIRA, 1998, p. 12) e o espaço (Sou capaz de viver em vários planos/ metáfora das deusas que vivi) (NOGUEIRA, 1998, p. 15).

É importante salientar que essa “voz”, mesmo assumindo várias faces, é essencialmente feminina. Isso fica claro em passagens como sou a ordem do mundo e do destino/ metade humana sou metade deusa (XVIII) ou sou a mãe sem consorte, a mãe primeira/ num seio acolho o sol, no outro a lua (XXII). Em outro momento, a poeta enaltece uma espécie de “sagrado feminino”, afirmando que compreender as deusas do passado/ é celebrar a força das mulheres. Além disso, há, ao longo da obra, o uso recorrente de pronomes femininos e de referências a personagens mulheres.

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Lucila Nogueira e Rachel de Queiroz (Foto: Arquivo/Reprodução)

Conforme aponta o crítico e poeta Ângelo Monteiro (2012), a poesia de Lucila Nogueira está longe de ter como essência o engajamento excessivo ou a supervalorização do fator histórico; a riqueza de suas referências, signos e imagens está muito mais para o instintivo, o espiritual e o místico do que para o racional e o científico. No canto VII, a poeta revela a “chave” para adentrar esse universo mágico:

Esta palavra beira o precipício
mas ninguém solta o livro sobre o altar
benedicte malkpeblis benedicte
e o poema é a senha para entrar

esta palavra beira o sacrifício
mas dá disposição para voar
uso divinatório de um zodíaco
e o poema é a senha para entrar
(NOGUEIRA, 1998, p. 15)

O eu-lírico transcende não só o espaço e o tempo, mas a própria linguagem; a palavra, beirando o precipício, excede seus limites semânticos, dando lugar à sugestão, também evocada pelo ritmo e pela obscuridade dos versos. O sentido comum é sacrificado em prol das significações que o próprio leitor dará ao texto; esse processo, finalmente, resultará uma atmosfera onírica e mística, própria da poeta (e também do leitor), tendo o poema como “senha” de entrada para a sua poesia.

Outro elemento marcante em Zinganares é a mitologia. Em um mesmo canto (XVI), a poderosa “entidade” presente no poema derrota seres como os leões de Neméia, as hidras de Lerna e Cérbero, o famoso cão de três cabeças, afirmando, no dístico final, que – em vez de destruir-me só fizeram/ a força dos gigantes me temer (NOGUEIRA, 1998, p. 24).

Ademais, conforme já mencionado, o sonho, ao lado do misticismo, é um dos pilares de toda a obra de Lucila, ganhando destaque no livro em questão:

Tão nítido é o sonho que me acorda
e as imagens agarram-se nos dias
a memória das coisas me acompanha
no coração que bate sem medida
(NOGUEIRA, 1998, p. 21)

a matéria a memória ou a magia
o tempo e o espaço perdem seus limites
absurdo abstrato abstraído
da imagem mais concreta deste mito
(NOGUEIRA, 1998, p. 22)

Além de místicos, seus versos também são ritualísticos, quase sempre carregados por uma atmosfera sagrada. Em um dos mais belos cantos do livro (XXXV), a poeta, após invocar uma espécie de musa, ou, nas suas palavras, a deusa anterior ou mãe sagrada, finaliza tentando definir o que é poesia, tarefa sempre difícil: – poesia é uma saudade de outra vida/ batendo nos portais da eternidade (NOGUEIRA, 1998, p. 43).

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11/03/2004. Credito: Julio Jacobina/DP/D.A. Press. Lançamento do livro de poesia Estacão Recife, da escritora Lucila Nogueira (foto).

Por fim, o último canto (XL) mostra a “vidente” já desgastada e cética de si mesma; após usar sua capacidade divinatória, incorporar deusas e destruir seres poderosos, o eu-lírico questiona sua própria identidade e a autenticidade de sua história:

Uma pedra ou mimese involuntária?
Uma estátua ou o espelho em que flutua?
Simulacro ou ser de uma outra raça
Paralela ou perpétua testemunha?

Houve um dia esse povo transparente
sem contornos, sem rastros e sem sombra?
Houve a dama que lia o pensamento?
Seu olhar atrasava a morte humana?

Em que casa guardaram minha imagem?
Que parede esquecida me emoldura?
Eu sou eu ou a outra que pergunta
Me olhando em seu perfil desde qual vulto?

Serei eu o pedaço de um vestido
rasgado a cada século do mundo
Ou serei esse espaço colorido
de um xadrez que em segredo eu reconstruo?

– Serei eu um espelho unificado?
Serás tu a matriz da semelhança?

Para este ensaio, selecionamos integralmente mais cinco cantos de Zinganares :

IV

Eu sou a mão nascida que não morre
sonhando sonhos sobrenaturais
daimon sobrevivente nos relógios
da quarta dimensão querendo paz

consciência alterada do invisível
cumprindo o seu papel premonitório
a revelar os mundos esquecidos
de um texto concebido em hipnose

trago o poder perdido nas pirâmides
do México e do Egito e nos degraus
de cada zigurate eu entro em transe
para curar doentes terminais

eu sou a mais antiga e a mais moderna
narração de teu rumo sobre a terra
recital visionário de crateras
revelação que arrasta o que revela

– eu sou a mão nascida que não morre
sonhando sonhos sobrenaturais


IX

Posso ver outros mundos desta sala
vida e morte no vão desta janela
um crâneo de cristal mudou meus sonhos
como um rádio ou antena de satélite

com a mente alterada pela cura
as almas congeladas observo
semen de divindades mais ocultas
do que as revelações dos teus profetas

vejo a pedra crescendo pela casa
brilhando na penumbra transparente
uma energia corre em minhas órbitas
cem mil anos convivem num reflexo

clara essência de deuses esquecidos
no espelho giratório de teus gestos
um crâneo de cristal mudou meus sonhos
fez meus olhos canais de outro universo

– posso ver outros mundos desta sala
vida e morte no vão desta janela


XXI

Cheguei de Tiro como clandestina
eu vim fundar escolas de profetas
escuta os meus presságios neste livro
o tom premonitório dos meus versos

eu quis viver milênios e prossigo
sem terminar meu tempo sobre a terra
eu quis viver milênios. E hoje sinto
a solidão de quem não se despede

e o que os astros desenham eu decifro
aspirando o vapor da humana febre
sou a memória do teu mimetismo
sou a saudade anônima da pele

sou instrumento de teu desafio
sou testemunha do teu pranto eterno
cheguei de Tiro como clandestina
eu vim fundar escolas de profetas

– escuta os meus presságios neste livro
o tom premonitório dos meus versos


XXVI

Decifra esta charada do deserto
que eu indago por vinte e quatro séculos
desvela o meu caminho e então celebra
a regressão das coisas encobertas

Argantonio encantou-me nesta pedra
como castigo por paixão de Hércules
e a púrpura do manto que carrego
há milênios derramo em tua pele

decifra o meu silêncio desde a Atlântida
resgata a embarcação que te persegue
nas girândolas míticas de Thera
onde afrescos de fogo me repetem

Teseu lutando contra o Minotauro
nesta praça de sonho se sucedem
e a morte serpenteia embriagada
pelos fios da capa da donzela

– decifra esta charada do deserto
que eu indago por vinte e quatro séculos


XXXVIII

Se não houver a morte que inventamos
e a vida continue em outra vida
então esses fantasmas que chamamos
são a saudade da matéria antiga

uma energia presa na parede
movendo-se na paz dos objetos
uma luz prateada no arvoredo
onde as fadas contemplam nosso medo

e se formos projetos de outro plano
por um simples cordão preso à ferida
então por isso sempre recordamos
fatos estranhos dentro da rotina

e se eu for essa mesma do outro lado
sonhando retornar mais invisível
e se ela for apenas um recado
na pele seguidora dos meus dias

– então serei somente o desengano
de clones milenares sem saída

No que se refere à edição, consta que foi composta e impressa em Portugal, pela editora Árion. A textura da parte externa é próxima à do papel vergê. A ilustração da capa, bastante primorosa e coerente com o estilo da autora, foi feita por Luis Manuel Gaspar, importante artista plástico português. Quanto à disponibilidade em livrarias e alfarrabistas, a obra encontra-se esgotada.

Lucila Nogueira morreu em 25 de dezembro de 2016, no Recife, em virtude de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Em 2020, completaria 70 anos.

REFERÊNCIAS
NOGUEIRA, Lucila. Zinganares. 1. ed. Lisboa: Árion, 1998. 51 p.
MONTEIRO, Ângelo. Outras vozes. 1. ed. Recife: UFPE, 2012. 182 p.
Lucas Silos

Lucas Silos

Lucas Silos é livreiro, revisor de textos e um dos colaboradores do Recorte Lírico. E-mail: lucasrafaelsilos@gmail.com

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