Recorte Entrevista: Dabliu Junior lança “Ares” e repassa carreira a limpo

Recorte Entrevista: Dabliu Junior lança “Ares” e repassa carreira a limpo

Recorte Entrevista de hoje conversou com o cantor curitibano Dabliu Junior, que acabou de lançar o álbum “Ares“, na última sexta-feira (22). O álbum é repleto de referências literárias, como é peculiar ao cantor, como uma declamação de Ilíada (Homero), feita pelo cantor e compositor Carlos Careqa, e um sample da voz da escritora Clarice Lispector. O artista, que finaliza sua trilogia com o mais recente álbum, lançou em 2012 o “Sobre os Ombros de Gigantes” e “Ilha Desconhecida”, em 2015. Além de músico, Dabliu Junior é professor de Economia e escritor o que, invariavelmente, virou tema do nosso bate-papo.

Dabliu ainda nos conta sobre sua evolução como músico e pessoa. Fala sobre temas sensíveis como relacionamento familiar e sobre o atual cenário musical do país. Sem mais delongas, confiram esta excelente entrevista concedida, gentilmente, pelo cantor e as novidades sobre Ares.


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RECORTE: Dabliu, seu primeiro disco, Sobre os Ombros de Gigantes (2012), trata sobre coisas simples e nessa simplicidade nos apresenta temas sensíveis, mas impactantes, como nas faixas “Aeroporto” e “Miosótis”. Qual a principal origem para os temas abordados, na própria vida ou, como Fernando Pessoa, o cantor também precisa ser um fingidor?

DABLIU: Primeiro gostaria de agradecer o convite. Acho a Recorte Lírico formidável e tudo que traga literatura para os holofotes, principalmente nos dias de hoje e dando voz a tantas novas vozes, merece aplausos. 

Uma das coisas que eu acho que os trabalhos dessa trilogia têm em comum é o caráter autobiográfico de tudo que escrevi nessas canções. Desde o início da carreira, em todos os meus trabalhos, não existe um sentimento ali que não tenha sido vivido intensa e totalmente. Tudo o que me emociona, me choca, me toca. Tudo serve de matéria-prima para o que eu faço, desde sempre. 

Admiro esses compositores que utilizam a composição como um exercício, já tentei ir por este caminho algumas vezes, mas sempre que fiz isso soava como fora da proposta desse “eu lírico” que existe desde 2012. O fim de uma trilogia é também a libertação desse eu que tem a dor, sofre a dor, escreve sobre a dor e está sempre por aí cantando sua dor. Especialmente no meio do caminho tudo me pareceu um pouco pesado demais, quase parei, até entender que tinha um propósito limitado temporalmente. E aqui estou, no último disco desse “eu”. Eu acho.

RECORTE: Ainda atrelando sua música à literatura, o quanto a prática literária e sua atividade acadêmica são fontes de inspiração para suas canções? Se é que isso está desassociado…

DABLIU: Não vejo a literatura ou a minha vida acadêmica exatamente ou diretamente como “fontes de inspiração” para o que eu faço com música. Mas essas coisas estão na minha vida e se misturando nela, fazem parte dessa força criadora. O que descobri depois desses anos todos fazendo essa mesma pergunta é que o sentido da vida, para mim, é criar. Isso sim, passa por todos esses canais e essa angústia de ter que estar o tempo inteiro inventando para se sentir vivo, isso é matéria-prima para continuar escrevendo.

RECORTE: Ainda falando sobre sua carreira, o Ilha Desconhecida (2015) é, para muitos, o ponto alto da sua obra. O próprio editor a considera a obra mais madura. Como se deu tal evolução desde o primeiro álbum, passando pelo Ilha, até chegar no Ares (2020)? Quais são as marcas mais latentes de hoje que não existiam em 2012, por exemplo?


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DABLIU: Faz muito tempo que não ouço “Sobre os Ombros de Gigantes” e, um pouco menos tempo, o “Ilha Desconhecida”. Seja por um certo pudor de me ouvir, ainda mais depois de tanto tempo, seja também porque ouço de maneira obsessiva as canções até que fiquem prontas e, depois que elas vão para o mundo, eu me desprendo delas. Mas me lembro que da última vez que ouvi “Sobre os Ombros” eu senti claramente a mudança daquele que eu era para o que sou hoje. 

A ingenuidade, uma pureza e inocência na hora de criar que, mesmo que eu quisesse, não conseguiria alcançar hoje. Ainda escrevo e componho intuitivamente, mas aquele jeito de construir acordes, descobrir o som por detrás das palavras… Com o tempo fui aprendendo certas coisas, fui entendendo certas “fórmulas”, que aquele resultado que cheguei naturalmente, hoje não passaria pelo meu crivo perfeccionista. Por isso que o Sobre os Ombros de Gigantes é a água, é meu disco fluido, é o meu eu que já tinha mais de vinte anos mas ainda pensava como uma criança, que eu sempre quis preservar mas acho que não consegui. 

Fiz o “Ilha Desconhecida” na minha passagem dos 28 para os 29 anos, e sinto que mudei nesse ano mais do que mudei dos meus 15 aos 25. Encontrar a ilha, a “terra firme” foi como colocar os pés no chão e mudar todo o meu modo de pensar, minhas prioridades. Morar um tempo no exterior e sozinho também me deu muito espaço para refletir e escrever. Acho que foi aí que eu perdi a inocência. Todas as vezes que o ouço, chega “Desconhecida” eu choro. Talvez seja por isso que o consideram o meu trabalho mais maduro. 

Após essa pseudo-maturidade, o “Ares” representa o voo seguro, depois de perder a inocência. Nele eu falo pela primeira vez, ainda que de maneira bastante imagética e velada, da minha relação com meu pai, que eu nunca tinha colocado em uma canção. Me entendo no mundo como um cacto, uma ovelha que descobriu que era um leão. No fundo todo mundo tem um lado “Ares”, impulsivo, belicoso, acho que é sobre isso. Ares foi rejeitado pelo pai justamente por ser intenso demais, não o herói que viam em outros deuses. Depois do meu retorno de saturno decidi brigar por aquilo que acredito e não ser mais aquele menino que vai chorar em silêncio num canto quando se sente, e nem sabe que se sente, oprimido. É o Brasil de agora, o Brasil que grita porque descobriu que pode gritar. Mas é dando voz a nós mesmos que descobrimos quem nós somos. Acho que ainda é cedo para falar deste disco, acho que não consegui refletir o bastante sobre ele e me distanciar como ainda vou.

RECORTE: Falando do Ares, você não se define como cantor e sim afirma estar entre “um inventor e um alquimista”… O que caracteriza e o diferencia entre centenas de artistas da intitulada Nova MPB é esse caráter inventivo? É estar num território anarquista da música brasileira, que não pretende se vincular a um mainstream quase sempre comprometido comercialmente? 

DABLIU: O que me diferencia entre centenas de artistas da intitulada nova MPB eu não sei. Não sei nem se o que eu faço pode ser considerado nova MPB. É sim, música feita por um brasileiro, em português, dessa forma sim. Mas o que a força da sigla “MPB” eu não posso carregar. Conheço muita gente, conhecida e desconhecida, que faz isso com maestria. Eu só me inspiro neles. Gosto desse território anarquista não porque pode ser legal estar aqui ou noutro lugar. Mas porque o que eu faço é isso e com o passar dos anos o que eu mais aprendi foi respeitar onde estou e como sou. Minha história, onde coloquei minhas forças com as oportunidades que tive e também o que fiz com as que não tive. Não preciso tocar nas rádios para me entender como artista no mundo, isso é das pessoas para com o meu trabalho e não está no meu controle. Óbvio que tocar nas rádios é ótimo, todo artista quer comunicar. Mas a música vem de uma necessidade. Aonde ela vai chegar é sempre um mistério. Ainda bem.

RECORTE: Um dos pontos mais fortes dos teus discos e ep’s são as parcerias. Já aconteceu com Leo Fressato, Gui Sales e neste álbum num dueto lindíssimo com Andressa Klawa, por exemplo. Destacaria alguma deste álbum ou outra que tenha marcado definitivamente sua carreira?   

DABLIU: Eu acho que parceria é uma coisa linda, porque você faz o seu trabalho, com a sua verdade, às vezes tenta pensar como o outro, imagina algo, convida, e o que sai é sempre muito diferente daquilo que imaginou, muito melhor, porque é a projeção em comparação com a realidade. A realidade é sempre melhor, porque grande parte fica só na nossa ilusão mesmo. Todas as parcerias que fiz até aqui, não só de quem canta, mas todos os músicos que tocaram nos meus álbuns, as pessoas que trabalharam nos meus shows, que fizeram as fotos, escreveram sobre os discos, fizeram uma entrevista, isso tudo me modifica e  melhora meu trabalho, traz um novo olhar. Seria impossível para mim destacar porque, sem demagogia, todas elas tiveram uma importância e um significado no momento em que aconteceram. Todas elas surgiram da vontade de registrar alguém que eu admiro muito junto ao meu trabalho. “Ares” vem recheado delas e, ouvindo o álbum, dá pra sentir a contribuição e entrega de cada uma delas. Ninguém que está ali está por acaso e eu me sinto um cara de muita sorte.

RECORTE: Depois da trilogia, Dabliu, o que vem? 

DABLIU: Como tudo o que eu faço passa pelo filtro da intuição, ainda que por detrás dela tenha sempre a intenção empurrando, é muito difícil dizer o que vem depois dessa trilogia. Por muito tempo acreditei que este seria meu último álbum, e se tratando desse eu que comentei há pouco, talvez realmente seja. Me sinto como uma folha em branco. Esses dias pensei “ufa, agora posso dar um tempo da música, o disco ficou pronto, vou lançar e fazer outras coisas”. Nessa mesma madrugada, acordei às 3:30 da manhã com uma letra inteirinha vindo em minha mente e só pude dormir depois que levantei e registrei. Se tem algum valor, só vou saber quando voltar para o trabalho de juntar tudo em música, se isso acontecer e quando acontecer. Tenho um livro de poemas pronto, mas que ainda vai esperar um pouquinho, pois pretendo concluir um livro voltado à economia que, claro, como tudo que eu faço, tem que ter um pouco de poesia junto. Provavelmente esse será meu próximo projeto.

Da Redação

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