Amigo oculto

Amigo oculto

Todo ano tem amigo oculto na minha sala. O desse ano foi semana passada, no último dia de aula, e desta vez eu cismei de sacanear quem eu tirasse.

Não é uma brincadeira muito original, já vi acontecer várias vezes nos amigos ocultos da minha família: pega-se uma caixa de alguma coisa que julga-se ser um excelente presente e coloca outra caixa dentro, e dentro dessa, outra, e assim sucessivamente até o presente.

Se bem que, na verdade, o processo é o contrário. Do menor para o maior. E quanto mais durex e papel para dificultar a vida do presenteado, melhor.

Minha mãe, como sempre, bancaria o presente. Me disse para ir à loja da minha tia escolher um perfume ou um creme de pele, já que tirei o nome de uma amiga. Escolhi com critérios arbitrários qual era o mais adequado.

Aproveitei e pedi minha tia para me fornecer o material para embrulhar o presente. Quando vi as caixas de sapato no fundo da loja, tive uma ideia melhor.

No dia da entrega, quando minha amiga tirou o primeiro embrulho colorido, ficou animada, achando que tinha ganhado uma sandália melissa.

Ela teve dificuldade de tirar o durex que usei pra selar a caixa, ainda mais que parecia determinada a não rasgar a caixa em si. Quando finalmente conseguiu abrir, viu o outro papel de embrulho.

A coitada ainda não tinha ficado irritada, e eu achei que não poderia ficar mais do que ficou depois da terceira caixa. Mas quando ela chegou no final e encontrou um único pé de um antigo all star todo desbotado e furado, me xingou e jogou meu velho sapato em mim.

Minha intenção era me fingir de desentendido até acabar o amigo oculto, mas ela estava brava demais. Peguei o outro embrulho que deixei guardado na minha mochila e entreguei.

Ela ficou tão feliz com o perfume que riu com todo mundo da minha brincadeira.

Quando cheguei em casa, minha mãe me procurou.

— Você deu o perfume tal pra sua amiga oculta?

Eu nem lembrava o nome do perfume, escolhi o que tinha o frasco com o formato mais bonito. Procurei saber e confirmei que era o perfume que ela mencionou.

— Mas esse perfume é muito caro — ela disse.

Fiquei olhando pra cara dela sem fazer a menor ideia do que dizer diante disso, sem conseguir pensar no que ela esperava que eu dissesse.

Ela disse por mim:

— Escolhe outro mais barato e vai lá trocar.

Fiquei extremamente perplexo diante disso.

Eu queria dizer algo como “você está ficando louca? Com que cara eu vou lá na casa da fulana pedir que ela me devolva um presente?”

No final das contas só pude concordar em trocar, é claro. Demorei mais alguns anos para me sentir à vontade em contradizer meus pais.

Ela me acompanhou até a loja da minha tia e escolheu ela mesma um negócio que parecia ser um perfume, mas era uma coisa horrorosa. Disse para que eu fosse do outro lado do bairro trocar.

Puto da vida, xingando baixinho comigo mesmo, fui.

Era longe, mas devo ter levado duas ou três vezes a mais o tempo que normalmente levaria pra chegar lá, me perguntando onde enfiaria minha cara, como poderia lidar com a vergonha.

Foi só na porta da casa da minha amiga que me ocorreu que eu poderia ter mentido, dito que não sabia onde ela morava. Como eu só a veria no início do ano seguinte, me livraria dessa vergonha.

Mas já tinha tocado a campainha e pedido para falar com minha amiga.

Voltei pra cara chateado, com o perfume que ela já havia usado. Entreguei à minha mãe com a cara emburrada, sem responder às perguntas que ela fez. Minha vontade era dizer algo grosseiro, mas como eu não faria tal coisa, ficar em silêncio e xingar mentalmente me era melhor.

Na semana seguinte senti em minha irmã um cheiro novo e agradável que me pareceu um monte de bosta fedorenta quando vi o frasco do perfume que ela estava usando.

— Onde você arrumou isso? — perguntei.

— A mãe comprou. Acho que não gostou e tentou devolver. Mas como já tinha usado, a tia falou que não aceitava.

— E ela deu pra você? — perguntei, tentando não demonstrar estar puto da vida.

— Não necessariamente. Ela não gosta muito de perfume. Eu falei que ia pegar e ela não disse nada. Quem cala, consente.

— Aham! — concordei.

Desde então estou na minha, só esperando que me peçam para varrer a casa. Quando eu “esbarrar” com a vassoura “sem querer” na cômoda da minha irmã, só vou precisar lhe dizer que ela deixou o frasco muito na beirada.

Talvez isso me ajude a me sentir bem o bastante para olhar nos olhos da Jéssica quando as aulas voltarem.

Farrel Kautely

Farrel Kautely

Farrel Kautely, 1994, é de Belo Horizonte. Escritor e professor, atualmente reside em Mariana - MG, onde cursa Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto. Possui várias obras publicadas, dentre elas "Minúscula Pulga" (romance), "Picas da Galáxia" e "Sushipeia" (crônicas) e "O mínimo que você precisa fazer para ser um completo idiota" (ensaios e pequenos artigos). E-mail: kauty.s@gmail.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *