Livro artesanal devia ser coisa de comer

Livro artesanal devia ser coisa de comer

Se estiver com muita fome e pouca grana não leia esse artigo. É como ir ao mercado faminto: você compra o que não precisa. Se estiver alimentado, leia. Deguste cada palavra vagarosamente. O alimento é caro e nós, como bons brasileiros, daremos cada garfada como se fossem pedacinhos de chocolates belgas. Mas aqui é tudo artesanal, não se preocupe.

Quem é da terrinha sabe a delícia que é aquela pipoca vendida naquela travessa ao lado do Ponto Frio, no calçadão de Nova Iguaçu. O cheiro me atraía como no desenho, um pica-pau com fome no inverno. Me vem também a lembrança de x-tudo em várias esquinas, ali olhando a cozinha na minha frente sem ter que pedir para ver a higiene do cozinheiro. Criei anticorpos e teorias. Mais uma que outra. Hoje atravesso a linha do trem e vejo vários “x-tudos” vestidos com gravata borboleta sendo vendidos por mais de trinta reais. Que isso, chefe? É artesanal, ele responde.

Voltando um pouco eu tenho a sensação de que lá pela virada do milênio tudo que era artesanal vinha carregado com uma certa aura de improviso. De certa forma era sim. Mas hoje, além de hambúrguer artesanal, tem uma onda na moda de rústico confundido com originalidade. Não estou falando mais de comida, tá? Veja, por exemplo, na arquitetura. Já ouvi gente intelectualizada reclamando de casa que está sem reboco. Recentemente fui a um evento literário cujo salão principal era com decoração “destroyed”, com partes dos tijolos e do cimento aparecendo. Tipo industrial, sabe? Ah, se fosse a casa do cara que não tem grana para emassar a parede…

Temos pipoca artesanal, bolo artesanal, tem até aplicativo para celular ensinando uma forma industrial de ganhar dinheiro fazendo comida artesanal. Conheço gente que só bebe cerveja artesanal. Gourmetizaram a manipulação dos alimentos num mundo onde a fome nunca deixará de ser artesanal.

O grande lance é que está no ar a permissividade de se cobrar caro por coisas que venham com a etiqueta de artesanal. Nesse mesmo ar está o aval do consumidor. Por outro lado, um amigo escritor em início de carreira produziu seus livros artesanais e vendia por preços irrisórios. Não só Jonatan Magella como tantos outros em tantas épocas. Outro conhecido abriu uma editora de livros feitos à mão por ele mesmo, a raiz do artesanal de fato. Em nenhum momento a moda parece conversar com a produção literária.

Por qual motivo não pagam cinquenta reais em um livro artesanal? Porque livros, como bem disse Girondo, são lapidados como diamantes e vendidos como salsichas. Levo anos de pesquisa, de estudo. Meses de contornos de uma narrativa, de uma ideia. Tanto tempo idealizando a capa, o título, os rumos. Muitas camadas de subtextos. Nesse trabalho o livro é realmente um diamante. Na livraria, analisado pela capa, às vezes pela contracapa e muito raramente pelas denúncias que suas orelhas fazem, ele tem o valor de uma só salsicha. Ao menos esse cachorro-quente valeria mais se fosse artesanal.

Thiago Kuerques

Thiago Kuerques

Thiago Kuerques, iguaçuano, é contista, cronista e romancista tendo publicado O Cara Que Não Publicava Livros (2012), Ensaio dos Poemas Pelados (2013), Território (2017), A Balada do Esquecido (2018) e Tordesilhas (2019). Atua como jornalista no Site da Baixada. Em 2017 venceu o Prêmio Baixada na categoria Literatura. É professor de literatura em formação pela UFF. Realiza oficinas de escrita criativa, microcontos e palestras literárias para jovens e adultos.

Um comentário em “Livro artesanal devia ser coisa de comer

  1. Te admiro Thiago Kuerques,o teu texto me leva a fechar os olhos e sentir,o cheiro,o gosto,sentir-me ai ,num sítio que não conheço mas que me atrai pelas descrições.Subúrbio algo que me chama,algo que me faz criar admiração,gente simples,gente verdadeira,parabéns realmente eu vibro mesmo com tudo o que me leva para dentro de um texto,visualizar,sentir,adorei???

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