[Louise Glück] O Prêmio Nobel de Literatura é um Clube de Golfe

[Louise Glück] O Prêmio Nobel de Literatura é um Clube de Golfe

Em 2020, o Prêmio Nobel de Literatura foi para a poeta Louise Glück, dos Estados Unidos. Louise foi premiada por sua “voz poética inconfundível que, com beleza austera, torna universal a existência do indivíduo”. Uma definição bastante genérica. Não é então o fato de ser poesia, um gênero equivocadamente desprestigiado pelo mercado literário. Nem o fato de ser um nome não tão conhecido de grande parte dos leitores brasileiros. Na verdade, Louise não possui livros publicados por aqui. Essa questão não é uma forma ilógica de acreditar que o conhecimento dos leitores brasileiros sejam referências para que um prêmio seja ou não ofertado a um escritor. O problema repousa na concentração histórica entre um grupo de dispostos e predispostos. Mesmo que negue, todo escritor em seu íntimo deseja o prêmio como um selo de valor e, claro, pelo montante de um pouco mais de um milhão de dólares concedido ao vencedor. Um prêmio que se concentra nos seus e não em todos.

A Academia Sueca é semelhante a um clube de golfe na área nobre do mundo. Mesmo quando laureia um Neruda (1971), um García Marquez (1982), um Saramago (1998). um Mo Yan (2012), Octávio Paz (1990) ou Nadine Gordimer (1991), o prêmio não se mostra global. Primordialmente europeu ou norte-americano, o Nobel de Literatura não é sobre o mundo. É sobre um clube cuja presença de latinos, africanos e asiáticos, por exemplo, versam mais sobre exceção a presença de escritores com muito mais estrada e suor do que fossem franceses ou estadunidenses, por exemplo.

Desde 1900, o Nobel de Literatura premiou 13,7% mulheres, 86,3% homens. De 117 laureados somente 17 não são dessas regiões. Somente um em Língua Portuguesa. É como se na turma da escola municipal todos produzissem e apenas cinco ganhassem reconhecimento e, vez em quando, um ou outro, depois de muito tempo, ganhasse uma menção honrosa. Não representa o que dizem representar. Há um movimento subjetivo entre intelectuais em torno do prazer da exclusividade: Louise não é traduzida para o português no Brasil e isso parece fascinar quem teve acesso à obra na língua original, por exemplo; há quem tenha brilho nos olhos quando se depara com algo que ninguém nunca viu, como um viajante em lugares de natureza virgem. Ora, literatura se faz com muitas leituras também.

O Nobel não premiou Haruki Murakami e Philip Roth, autores consagrados e de suma relevância literária, muito provavelmente por suas popularidades, principalmente entre jovens. Novamente, o prazer pela elitização. Imagina-se que “o Nobel de Literatura é sério demais para autores lidos por essa juventude transviada”, dita na voz de uma das poucas pessoas que decidem o prêmio a cada ano. Que James Dean me perdoe in memoriam pela citação. Murakami já venceu o Prêmio Kafka, assim como Roth. Louise Glück venceu o Pulitzer. Roth idem. Isso citando um autor meio fora do clube, o japonês de Londres, e outro encaixado em todos os pré-requisitos. O Nobel caberia perfeitamente para João Guimarães Rosa, Jorge Luís Borges, Luandino Vieira, Agatha Christie, Tolkien, entre outros. Não são nomes comuns. São a história da literatura, relevantes em seus países, em seus mundos. Não se sabe se há tempo de o Nobel se redimir. Talvez nem deva por conta do seu histórico clube.

Em entrevista concedida à Academia Sueca após ter tomado conhecimento da láurea, Louise respondeu não ter nenhuma ideia do que significa ganhar o Nobel de Literatura. É o ápice literário, portanto ninguém sabe. Também confessou na mesma entrevista ter tido medo de que com isso perderia todos os amigos escritores. Isso diz muito sobre o ego literário assim como essas linhas também podem dizer algo sobre nossa psicologia. Criticamos e desejamos. Muitos mais pelo valor que pela honraria. Outro mais pelo banquete tradicional em Estocolmo que pela notoriedade. Todos, afinal, querem o Nobel, que por sua vez não quer nenhum de nós. A solução? Cabe menos a eles e mais a nós.

O clube de golfe serve como analogia porque é um esporte de elite. Possui itens caros, exigência de espaço sofisticado e não dialoga com a realidade de tanta gente que vive em apartamentos de 50 metros quadrados, se locomove em ônibus onde assento livre e conforto são utopias e os momentos de lazer são calculados por tempo e dinheiro. Muito distantes dos campos de golfe, escritores mais distantes ainda do Nobel. Entre a biblioteca da universidade, a livraria do shopping, a estante da biblioteca comunitária, o catálogo do centro cultural e os versos soltos de um sarau ou um lançamento de livro financiado até Estocolmo, há universos completamente distintos. Deveríamos aplaudir com menor empolgação o lado de lá do Atlântico que não faz qualquer questão de reconhecer a nossa existência. Como saída deve permanecer, por exemplo, o respeito. É uma possibilidade deixarmos de termos como maior referência do mundo um prêmio cujo olhar pra nós é quase nulo.


Leia mais sobre a premiação de Louise Glück: https://bit.ly/36U4NgE
Thiago Kuerques

Thiago Kuerques

Thiago Kuerques, iguaçuano, é contista, cronista e romancista tendo publicado O Cara Que Não Publicava Livros (2012), Ensaio dos Poemas Pelados (2013), Território (2017), A Balada do Esquecido (2018) e Tordesilhas (2019). Atua como jornalista no Site da Baixada. Em 2017 venceu o Prêmio Baixada na categoria Literatura. É professor de literatura em formação pela UFF. Realiza oficinas de escrita criativa, microcontos e palestras literárias para jovens e adultos.

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