Ofensa

Ofensa

— Quê isso, cara! Que cara é essa?
— Eu tô bolado.
— Tá na cara. O que foi que te irritou?
— Está vendo aquela mulher ali?
— Qual?
— Aquela, conversando com o sujeito de cabelo azul escuro, ao lado da placa de pare que está debaixo da marquise da farmácia.
— O que tem ela?
— Me ofendeu profundamente. Mas tô mais irritado porque não consegui responder à altura na hora. Agora tô tentando pensar num bom xingamento pra ir até lá jogar na cara dela.
— Não consegue pensar numa ofensa?
— É. Pensei em chamá-la de filha da puta. Mas não tenho nada contra putaria nem com quem pratica.
— Minha própria mãe é uma puta.
— Isso a galera toda sabe.
— Pois é, não é?
— Pensei em chamar de vadia, mas então me lembrei que meu problema com ela não tem nada a ver com a sexualidade dela.
— Então é melhor descartar vagabunda também.
— Essa sequer me passou pela cabeça.
— Entendi…
— …
— …
— Humpf!
— Que tal baranga?
— Humm….! Baranga é o mesmo que feia?
— Creio que sim. É um sinônimo.
— Então não. Não é demérito ser feio.
— Até porque ela não é. Pelo menos não de longe.
— Ela ser bonita pode ser o que levanta o nariz dela, mas não sei se daria certo chamá-la de bonita.
— E chamar de gostosa é assédio.
— Dependendo, sim… Como posso retrucar a ofensa dela sem sair como mais escroto do que ela foi?
— Que tal retardada?
— Nossa, essa é boa.
— Então vamos lá?
— Ah, deixa. Agora minha raiva passou.
— Então vamos embora.
— Bora. Vamos ter de passar perto dela.
— Como foi que ela te ofendeu mesmo?
— Me chamou de bolsonarista.

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— Ah, entendo sua raiva. Mas como ela pode ter confundido você com um?
— Perguntou se eu sou Lula Livre.
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
— Tentei falar isso com ela, mas ela me chamou de mansplainer.
— Ninguém merece.
— Vou nem olhar pro lado dela.
Mas ela olhou para o lado dele:
— Lá vai o fascista!
— Ah, vai tomar no cu!
— Ih, olha só! Essa veio fácil — o amigo comentou.
— Pois é! Nem sei como não pensei nisso antes.

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Farrel Kautely

Farrel Kautely

Farrel Kautely, 1994, é de Belo Horizonte. Escritor e professor, atualmente reside em Mariana - MG, onde cursa Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto. Possui várias obras publicadas, dentre elas "Minúscula Pulga" (romance), "Picas da Galáxia" e "Sushipeia" (crônicas) e "O mínimo que você precisa fazer para ser um completo idiota" (ensaios e pequenos artigos). E-mail: kauty.s@gmail.com

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