31 de outubro: dia da poesia?

31 de outubro: dia da poesia?
Poesia, Halloween, Reforma Protestante…? Carlos Drummond de Andrade!

O dia 31 de outubro é considerado uma data de importância cultural tanto pela influência norte americana e as festas de halloween que encantam muitos brasileiros, fãs do famoso dia das bruxas, quanto, embora menos lembrado, pela comemoração da Reforma Protestante, quando as travessuras foram as 95 teses de Martin Lutero, apontando mudanças significativas para a igreja Católica da época. Esse movimento, que fez a igreja se mexer em busca dos fies perdidos e responder em dobro, acarretou em um conflito que gerou, na acepção da palavra, nossa inquieta e já cheia de brasilidade literatura barroca, sensual, exagerada e amante dos opostos.

Contudo, sua importância não acaba por aí. Desde junho de 2015, essa data foi implementada também para celebrar o Dia Nacional da Poesia. A escolha se deu devido a ser o dia do nascimento do autor Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro de maior expressão.

O mineiro poeta dispensa apresentações. O que poucos lembram é que, antes de tudo, Drummond foi nosso cronista mais ativo. Foram décadas de trabalho para os jornais e seis mil crônicas produzidas, enquanto o moço de dezoito anos, iniciante na vida jornalística, tornava-se o experiente senhor de oitenta e dois anos, quando despediu-se do Jornal do Brasil e da crônica em 1984. Somente para o Jornal do Brasil contribuiu por quinze anos. Foram duas mil e trezentas crônicas circulando nesse período. Para o próprio autor, sua vocação sempre foi essa:

Na realidade, a minha produção jornalística é muito maior e incomparavelmente superior à do poeta. Me deram esse título de poeta quando, na verdade, eu sou é jornalista. Eu fui jornalista desde rapazinho, desde estudante e é aí que eu me sinto muito bem, muito à vontade. Fui chefe de redação de um jornal em Minas e fui redator de três outros jornais. Então minha vocação é mesmo para o jornal. (1984)

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De acordo com alguns estudiosos, a crônica, além de gênero menos artístico devido à sua ligação íntima com jornal, também não suporta a passagem do tempo, pela expressão imediata do momento em que é produzida, não sendo então adequada ao espaço do livro. Drummond perguntou se era isso mesmo. Sua produção em prosa possui quase o mesmo número de edições dos livros de poesia. É claro, ele foi bastante criterioso e somente dez por cento da sua produção cronística para o jornal chegou ao glamoroso espaço do livro. Não só chegou, como ficou também. A obra Boca de Luar (1984) é fruto desse relacionamento sério e duradouro com o J.B.

Se a crônica em si mesma representa um lugar de passagem por estar exatamente em um entrelugar (entre a notícia e o texto literário, entre o jornal e o livro, entre o sonho e o cotidiano e principalmente entre o fato e criação), Drummond ampliou esse lugar e transformou o meio do caminho também em lugar de permanência e de produção artística.

Contrariando seus próprios versos em A procura da poesia que dizem: “Não faças versos sobre acontecimentos./ Não há criação nem morte perante a poesia./ Diante dela, a vida é um sol estático,/ não aquece nem ilumina./ As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam (…)” o itabirano fez poesia a partir dos acontecimentos, dos incidentes e dos momentos do cotidiano, por mais irrisórios que fossem.

A poesia escondida no dia a dia ganhou com ele o centro do palco. A linguagem foi sua principal aliada no exercício do diálogo entre cotidiano comum e arte. As figuras, o lirismo e os recursos importantes na produção do texto em verso sorriam para o Drummond prosador em uma contaminação encantadora, produto de quem alternava com destreza as penas de poeta e cronista e faz até hoje o leitor mergulhar em si mesmo ao direcionar o olhar para fora, onde a crônica se cria.

Dessa forma, o dia 31 de outubro não é somente o dia da poesia. É o dia de quem conseguiu perceber a poesia presente nas conversas, nos relacionamentos, nos acidentes, nos fenômenos naturais, nas perdas, nos olhares. É dia de quem ilumina pequenices e utiliza o cotidiano como espelho para que o leitor se perceba e se reconheça. É dia da bebida saborosa, da lágrima não vista e dos olhos curiosos. Dia de quem é prosador por ofício e poeta na alma. É dia de Drummond.

“Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.” (1984)

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Charlene França

Charlene França

Mestre em Literatura brasileira, professora dos ensinos fundamental e médio da Rede Estadual de ensino, amante de gatos e autora dos livros: Diversus devaneios do cotidiano, Ao pé do ouvido, Sinestesia e Brevíssimos. Membro da Alto ( Academia de Letras de Teófilo Otoni ) e finalista do Prêmio baixada 2016.

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