Novos tempos, velhas pragas

Novos tempos, velhas pragas

O ano de 2020 não para de nos surpreender com más notícias. Em março, veio a tragédia da pandemia, que nos obrigou a uma quarentena interminável e ao isolamento social. Para resistirmos ao novo coronavírus e à sobrevida que ele nos impôs, tivemos de nos adaptar a uma rotina jamais desejada ou imaginada.

Dia após dia, mês após mês, ligamos a TV e inúmeros fatos nos lembram de que estamos vivendo o apocalipse. No mês de junho, os telejornais anunciaram uma nuvem de gafanhotos que tinha partido da Argentina e que ameaçava os territórios uruguaio e brasileiro (G1, 2020a): “Nuvem de gafanhotos: o que se sabe até agora sobre a infestação que pode chegar ao Brasil (…). Controle deve ser feito e indicado pelas autoridades” (G1, 2020a, grifo no original). A ameaça voltou algum tempo depois, entre novembro e dezembro.

Incrivelmente, no mesmo dia em que foi publicada a possível invasão dos insetos, também experimentamos uma tempestade de areia, batizada de “Godzilla” (FRÓES, 2020), e que atingiu o Maranhão. Segundo a meteorologia, devíamos esperar “impactos leves” (FRÓES, 2020) aqui no Brasil, apenas com “mudanças na cor do céu do litoral maranhense” (FRÓES, 2020). Considerando o contexto da pandemia, não há dúvida de que essa sequência de tragédias não pode ser mera coincidência. É simplesmente impossível assistir a tudo isso, viver tudo isso, em sobressaltos, com medos infinitos, e não pensar nas famosas pragas do Egito… Aquilo que líamos como se fosse algo inimaginável e que, exatamente por isso, considerávamos como uma história fantástica ou sobrenatural, agora nos assombra e nos transforma em protagonistas de um novo apocalipse. O que mais está por vir? Rios tingidos de sangue? Mortandade de peixes e outros animais? Invasão de rãs, piolhos e moscas? O fim dos primogênitos? Todas as anteriores?

Sim, porque aquela outra praga, que cobria de pústulas os humanos e os animais também já experimentamos, transfigurada, é claro. Afinal, são novos tempos. Então, vejamos: a pandemia de Covid-19 no Brasil já contabilizou 176.721 mil mortos e 6.582.606 pessoas infectadas (G1, 2020b). Além disso, o vírus também está atacando os animais domésticos, como é o caso de uma gata de Cuiabá-MT, infectada durante uma reunião familiar, evento que também infectou pessoas, outro felino e um cão (O POVO, 2020). Antes disso, porém, ainda em abril de 2020, o mundo recebeu a notícia de que uma tigresa tinha sido infectada pelo novo coronavírus, no zoológico de Nova Iorque: “Veterinários fizeram exame depois do animal desenvolver tosse seca junto com outros tigres e leões; Nadia foi infectada por funcionário assintomático” (VEJA, 2020, grifo no original).

No rol das pragas do Egito (que agora também são nossas, infelizmente), ainda há a chuva de granizo e os três dias de escuridão. Em 2020, elas chegaram associadas, de uma vez só, em um único fenômeno natural. A tempestade de areia Godzilla também escureceu o céu, nos lugares por onde passou, ao redor do mundo. Contudo, cinco dias depois, a escuridão se repetiu, como efeito de um ciclone. Os jornais descreveram o fato, enumerando as catástrofes: “Ciclone extratropical faz dia virar noite” (BEM PARANÁ, 2020); “Chuva forte, granizo e ventos de até 97 km/h” (BEM PARANÁ, 2020).

Lançada em junho de 2020, mês em que a maioria dessas tragédias ocorreu, no Brasil e no mundo, a série brasileira Reality Z, dirigida por Cláudio Torres, não poderia ter escolhido um momento mais propício para apresentar nova narrativa protagonizada por humanos e zumbis. Há tempos os zumbis povoam nosso imaginário como indícios da individualidade, do medo, da inimizade e da violência. Como eles, somos mortos-vivos e nunca tivemos um ambiente tão bem adaptado a essas criaturas metafóricas como agora, em pleno contexto pandêmico.

Tanto as pragas do Egito quanto o apocalipse trazem à tona o mito do eterno retorno e, num certo sentido, os zumbis reforçam essa simbologia. No fim está o recomeço. Morte e vida tornam-se indissociáveis, e essa duplicidade caracteriza o zumbi, que não pertence nem à vida nem à morte plenas, sendo obrigado a vagar, catatônico, na tentativa de devorar alguns miolos. Evidentemente, para que possam sobreviver, humanos e zumbis (ex-humanos) travam batalhas sucessivas e sangrentas, a exemplo do que é mostrado na vinheta de abertura de Reality Z (Fig. 1):

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Fig. 1: Sangue jorrando na tela de abertura da série Reality Z (REALITY Z, 2020)

O recurso imagético é hiperbólico e, utilizando com primazia os princípios da função conativa da linguagem, orienta o espectador para a violência que será apresentada. Com intuito similar, uma empresa da Nova Zelândia usou o mesmo artifício para divulgar o filme Kill Bill vol. 1 (2003), do diretor Quentin Tarantino (Fig. 2) e, na ocasião, um dispositivo que jorrava um líquido vermelho e viscoso foi instalado no outdoor, o que fez com que alguns carros ficassem de fato manchados, por estarem estacionados próximos ao local do anúncio:

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Figura 2: Anúncio criado pela empresa Saatchi & Saatchi Nova Zelândia para divulgar o filme Kill Bill na programação da TV2. Imagem disponível em: <https://ideiasexplosivas.wordpress.com/2008/05/28/outdoor-sangrento-para-divulgar-kill-bill/>

Reality Z é uma adaptação da obra Dead set, de Charlie Brooker, e, como costuma ocorrer, quando há grandes tragédias, a série apresenta e questiona as diferentes posturas das pessoas frente ao desconhecido e ao inexplicável. Logo no início da narrativa, uma mulher descobre que a namorada do filho agora é uma zumbi. Depois disso, a mãe e o rapaz são atacados e, para sobreviver, trancam a garota na cozinha (Fig. 3). O plano do filho é pensar em uma solução para o problema. Entretanto, a mãe parece não se importar e entra em estado de negação e calma:

MÃE: Eu vou dormir um pouco.

FILHO: Esse negócio tá se espalhando e a gente tem que sair daqui rápido.

(…).

MÃE: Você disse que a TV mandou a gente ficar em casa e é exatamente isso que a gente vai fazer. E eu tô no quarto. Vou fazer um chá de camomila pra ver se eu consigo descansar um pouco. Ninguém consegue dormir nesta casa com essa barulheira. Quero saber quem vai limpar essa cozinha. (REALITY Z, 2020, temp. 1, ep. 2, grifo nosso)

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Figura 3: Em Reality Z, mãe e filho conversam na sala, enquanto a garota zumbi está trancada na cozinha (REALITY Z, 2020).

A postura conformista e apática da mãe diante do perigo encontra correspondência em um dos comportamentos identificados pelo psicanalista Christian Dunker, ao analisar o contexto pandêmico atual. O autor definiu três categorias: “o tolo”, “o desesperado” e “o confuso” (MACHADO, 2020). Na série brasileira, a mãe representa o tolo, que, conforme Dunker:

[…] sente tanto medo que precisa negar o que está acontecendo. Então, ele diz: “Isso é uma gripezinha, vai passar, foi uma invenção dos chineses, não precisamos ter medo”.
A segunda resposta do tolo é a seguinte: “O. K., isso existe, mas eu sou uma pessoa especial, alguém me protege lá em cima, estou imune, sou atleta”. É outra forma de negar o medo.
Chamo essa pessoa de tola porque era uma maneira que a filosofia antiga falava daquele que não era covarde nem corajoso. (MACHADO, 2020)

Como em todo apocalipse, o fim é inevitável e o Rio de Janeiro monumental, aquele dos cartões-postais, vira um cenário de morte e destruição (Fig. 4):

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Figura 4: A capital carioca no apocalipse da série Reality Z (REALITY Z, 2020)

Como anuncia uma das personagens, no fim da história, venceu o ódio em vez do amor (Fig. 5) e, ao perceber isso como um fato recorrente, ao longo dos séculos, ela usa o celular para gravar uma mensagem às futuras gerações, que povoarão o novo mundo: “Não repitam nossos erros. Sejam melhores. Sejam mais humanos” (REALITY Z, 2020, temp. 1, ep. 10).

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Figura 5: O sangue marca a pedra em que está o celular com a mensagem gravada às próximas gerações (REALITY Z, 2020).

Em meio à pandemia de Covid-19, ouvimos muitos paralelos entre nosso tempo e o do século passado, quando a gripe espanhola assolou a população. Um deles está neste relato da médica e historiadora Dilene Raimundo do Nascimento, que destaca a atitude de Carlos Seidl, diretor de saúde pública no ano de 1918: “Tem um registro de que o Carlos Seidl foi a uma reunião na Academia Nacional de Medicina […], e ele disse que se tratava de apenas um tipo de influenza, só mais um resfriado” (TAJRA, 2020, grifo nosso). Também já ouvimos isso, não é mesmo? Infelizmente, a conclusão é que não aprendemos nada com a tragédia de nossos antepassados e continuamos a insistir nos erros.

O que farão os que virão depois de nós?


REFERÊNCIAS

BEM PARANÁ. Ciclone extratropical faz dia virar noite e causa destruição na Grande Curitiba. Veja vídeo. 30 jun. 2020. Disponível em:

<https://www.bemparana.com.br/noticia/ciclone-extratropical-faz-dia-virar-noite-e-causa-destruicao-na-grande-curitiba.-veja-video#.XvyoQyhKjIU>. Acesso em: 6 dez. 2020.

FRÓES, R. Meteorologista explica possíveis impactos da nuvem de poeira ‘Godzilla’ no Maranhão. 25 jun. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2020/06/25/meteorologista-explica-possiveis-impactos-da-nuvem-de-poeira-godzilla-no-maranhao.ghtml>. Acesso em: 28 jun. 2020.
G1. Nuvem de gafanhotos: o que se sabe até agora sobre a infestação que pode chegar ao Brasil. 25 jun. 2020. Disponível em:

<https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2020/06/25/nuvem-de-gafanhotos-o-que-se-sabe-ate-agora-sobre-a-infestacao-que-pode-chegar-ao-brasil.ghtml>. Acesso em: 26 jun. 2020a.

G1. Casos e mortes por coronavírus no Brasil em 6 de dezembro, segundo consórcio de veículos de imprensa (atualização das 13h). 6 dez. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/12/06/casos-e-mortes-por-coronavirus-no-brasil-em-6-de-dezembro-segundo-consorcio-de-veiculos-de-imprensa.ghtml>. Acesso em: 6 dez. 2020b.

MACHADO, L. Coronavírus: alguns sentem tanto medo que precisam negar o que está acontecendo, diz psicanalista. 4 abr. 2020. Disponível em:

<https://www.bbc.com/portuguese/geral-52160230>. Acesso em: 6 dez. 2020

O POVO. Brasil registra primeiro caso confirmado de Covid-19 em animal doméstico. 19 out. 2020. Disponível em:
<https://www.opovo.com.br/coronavirus/2020/10/19/brasil-registra-primeiro-caso-confirmado-de-covid-19-em-animal-domestico.html#:~:text=O%20Brasil%20registrou%20o%20primeiro%20caso%20de%20infec%C3%A7%C3%A3o,m%C3%AAs.%20As%20informa%C3%A7%C3%B5es%20s%C3%A3o%20do%20portal%20O%20Globo.>. Acesso em: 6 dez. 2020.

REALITY Z. Direção de Cláudio Torres. BRA: Netflix; Netflix, 2020 (1 temp.; 10 ep. de min.); son.

TAJRA, A. Brasil repete erros da gripe espanhola, que deixou 50 mi de mortos no mundo. 14 abr. 2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/04/14/brasil-repete-erros-da-gripe-espanhola-que-deixou-milhoes-de-mortos.htm>. Acesso em: 6 dez. 2020.

VEJA. Tigresa testa positivo para coronavírus em zoológico de Nova York. 6 abr. 2020. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/mundo/tigresa-testa-positivo-para-coronavirus-em-zoologico-de-nova-york/>. Acesso em: 28 jun. 2020.
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Verônica Daniel Kobs

Verônica Daniel Kobs

Pós-Doutorado na área de Literatura e Intermidialidade (UFPR). Professora do Mestrado e do Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Professora do Curso de Especialização em Letras da PUC-PR. Professora do Curso de Graduação de Letras da FAE. Autora do blog Interartes: Artes & Mídias (https://danielkobsveronica.wixsite.com/interartes). E-mail para contato: danielkobs.veronica@gmail.com

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