Mudança de hábito? A brevidade em destaque na Literatura Brasileira

Mudança de hábito? A brevidade em destaque na Literatura Brasileira

Não é segredo que o romance, ao longo do tempo, constitui o gênero literário da preferência, não só de brasileiros, mas no que se refere à literatura mundial.  Isso se deve à narrativa longa proporcionar maior tempo para identificação do leitor com personagens complexos e com situações que apresentam um panorama social da época em que é escrito, além do processo catártico que provoca.

Contudo, em terras brasileiras, a poesia, gênero de grande nobreza no ambiente acadêmico e que sempre alcançou público reduzido e específico para o qual era normal se afirmar: “Não vende”, e os contos e crônicas, narrativas breves, que se passam em espaço reduzido e apresentam poucos personagens, esses sem muita profundidade psicológica, têm ganhado lugar de destaque, inclusive nas redes sociais e nas páginas voltadas para a literatura.

Esses gêneros, que não deixam a desejar em número de edições em relação ao romance, têm despertado o interesse de novos leitores e autores. O grande número de concursos literários voltados exclusivamente para eles também comprovam que leitores e principalmente autores no Brasil já possuem novo hábito e novas preferências. Em pesquisa realizada pelo Instituto pró-livro em 2016, os contos já aparecem entre os mais queridos pelos brasileiros, juntamente com livros religiosos.

A mudança, acentuada também pelo período de pandemia e por um novo olhar trazido por ela para a vida e para o cotidiano, tem apontado para produções e iniciativas mais dinâmicas para melhor propagação nas redes nesse período.

Apesar da crise severa, o crescimento foi de 4% nas vendas de livros diversos, inclusive os da área científica, e houve queda de 2% nos preços para o consumidor no final de 2020, segundo a ANL. As livrarias tiram proveito do espaço virtual e as editoras promovem cada vez mais a produção dos gêneros breves e incisivos nesse momento  de inúmeras mudanças. Os prazos para as participações também são breves , exigindo do novo autor rapidez e poder de síntese.

Não é possível saber se o romance perderá o trono, o que é pouco provável, mas apesar de manter-se grandioso e inabalável, dentro e fora da academia, ele já divide espaço com outros gêneros queridos e com boas descobertas, importantes principalmente para circulação e leitura nas telas que,  ao que parece,  nos acompanharão ainda de perto por mais um tempo. Descobrimos a pólvora: Somos todos breves e adaptáveis. As relações e as letras também.

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Charlene França

Charlene França

Mestre em Literatura brasileira, professora dos ensinos fundamental e médio da Rede Estadual de ensino, amante de gatos e autora dos livros: Diversus devaneios do cotidiano, Ao pé do ouvido, Sinestesia e Brevíssimos. Membro da Alto ( Academia de Letras de Teófilo Otoni ) e finalista do Prêmio baixada 2016.

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