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O mundo que oprime poetas: uma análise comparativa entre poemas de Dickinson e Rilke.

Nesse presente texto, apresentar-se-á uma análise comparativa entre poemas de dois autores certamente brilhantes: Rilke e Dickinson, observe-se os excertos: Excerto 1: “A pantera”, de

O mundo que oprime poetas: uma análise comparativa entre poemas de Dickinson e Rilke.

Nesse presente texto, apresentar-se-á uma análise comparativa entre poemas de dois autores certamente brilhantes: Rilke e Dickinson, observe-se os excertos:

Excerto 1: “A pantera”, de Rilke

“Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração.”

Tradução: José Paulo Paes

Excerto 2: “Eu nunca ouço a palavra ‘Escapar’”, de Dickinson

“Eu nunca ouço a palavra “Escapar”
Sem sentir fremente o sangue
Nas veias, espera do de repente,
Atitude de voar!

Nunca ouço de maciças prisões
Em combates derrubadas
Sem ficar sacudindo as minhas grades,
Infantilmente – p’ra nada.”

Tradução: Aíla de Oliveira Gomes

 

É perceptível, logo na primeira leitura de cada poema, que há entre os dois certa semelhança, sendo que ambos trabalham com a ideia de uma prisão, com grades que privam o eu-lírico de sua liberdade, dando-lhe uma sensação de desespero e aflição. No poema de Rilke, quem é tolhido de liberdade é a pantera, que mesmo sendo um animal feroz e forte, nesse contexto está fraco, pois é tolhido de liberdade. Pensemos em um zoológico, onde um animal perigoso, como um tigre, torna-se inofensivo dentro de uma gaiola. Rilke explora nesse poema essa sensação de impotência atribuída a um animal de tanta capacidade física, não é a toa que ele escolheu uma pantera. Quando ele coloca: “Seu olhar, de tanto percorrer as grades, está fatigado, já nada retém” fica clara também a noção de cansaço do animal, que não vê nada além do cárcere, “infinidade de grades e mundo nenhum mais além”. Isso somado à ideia de euforia e desespero vistos na segunda estrofe criam uma imagem de prisão inconsequente e perpétua, inquebrável.

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No poema de Dickinson, encontram-se as mesmas ideias e sensações, nesse caso, a voz lírica é a mesma do ser encarcerado. O eu-lírico, na primeira estrofe, parece falar da esperança em um dia poder fugir desse cárcere. “Escapar” possui inicial maiúscula, o que adiciona uma profundidade maior ao sentido da palavra, expandindo seu sentido para uma sensação de liberdade tão fortemente almejada. “espera do de repente\Atitude de voar”, são exemplos da primeira estrofe onde fica perceptível esse desejo de liberdade. No entanto, a segunda estrofe surge para quebrar essa expectativa e mostrar a realidade: “ficar sacudindo as minhas grades\infantilmente – p’ra nada”, nesses dois últimos versos descobre-se a verdade sobre aquilo que o eu-lírico quer dizer: que não há qualquer chance de liberdade senão em um sonho. Tal como a pantera, a voz lírica aqui também está eufórica e exaltada, em desespero para fugir desse cárcere, em vão.

Vista a semelhança entre ambos os poemas, é preciso agora aprofundarmo-nos a uma visão mais analítica: o que essas prisões representam? Quem são essas personagens líricas que aparecem atrás das grades? No caso de Dickinson, pode-se concluir que a autora quis ali representar a mulher, uma mulher presa à situação de esposa submissa, objeto. Emily Dickinson apresenta também em outros poemas uma visão de liberdade tolhida, inalcançável, a fim de representar a posição da mulher na sociedade da época, que era delimitada à ser uma esposa obediente, obrigatoriamente mãe de muitos filhos, sem a oportunidade de trabalhar e de exercer controle sobre sua própria vida. É nesse quesito que se situa a repressão representada pela poetisa. “Escapar”, com letra maiúscula pode também representar uma idealização, um sonho com um futuro melhor e com mais liberdade para as mulheres, que, entretanto, faz-se impossível no presente em que Emily Dickinson está presa. É possível atribuir a esse poema um pouco do determinismo, que prega o momento como fator determinante para a vida das pessoas. O momento em que Emily viveu era habitado por uma sociedade machista.

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Ao trazer essa análise para o poema de Rilke, pode-se dizer que, apesar de o sentimento expresso no poema ser o mesmo, a intenção provavelmente não era. Os conhecedores de Rilke talvez concordem quando eu afirmo que ele não era um poeta tão ligado à crítica social, pelo menos não tanto quanto foi Dickinson. O que queria ele então representar nesse poema? Que prisão era essa? Bem, Rilke talvez não fosse social, mas com certeza ele traz muita sentimentalidade para sua poesia, deixando cair no papel um mar de emoções – sejam elas boas ou ruins – assim, para que um poeta tematize uma sensação de aprisionamento, não necessariamente ele quer fazer uma crítica, mas retratar um sentimento. É uma ideia de angústia, de algo que poderia ser e não é, um personagem lírico (a pantera) que tem capacidade para tudo e mesmo assim não pode nada, pela condição de cárcere em que se encontra. Esse cárcere poderia ser a sociedade? Poderia, mas poderia também ser o próprio “eu”, ou ainda, algo muito superior à sociedade: o Fado.

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