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Lírica, a expressão dos desassombrados

O termo “lírica” deriva de “lira”, instrumento musical atribuído a Apolo, a Orfeu, entre outros que acompanhava os cânticos. O instrumento torna-se símbolo de uma

Lírica, a expressão dos desassombrados 1

O termo “lírica” deriva de “lira”, instrumento musical atribuído a Apolo, a Orfeu, entre outros que acompanhava os cânticos. O instrumento torna-se símbolo de uma unidade harmónica com forte capacidade de pacificar o coração e aliviar os sofrimentos infernais, é, por isso, símbolo dos poderes da poesia e está estritamente ligado ao destino dos homens.

O termo aparece na Poética de Aristóteles, mas é por este “desvalorizado”, uma vez que o modo de enunciação da lírica não é nem mimético, nem diegético, aspetos decisivos para o filósofo grego. O adjetivo “lírico” começa a ser utilizado por volta do século XV relacionado com a poesia grega antiga e mantém o eco do sentido musical na expressão “arte lírica”. A partir do século XVI começa a designar um tipo de poesia que contrasta com a “poesia épica” ou “dramática” e que exprime a subjetividade dos sentimentos privados. O “lirismo” corresponde, assim, a uma função expressiva ou emotiva da linguagem por parte do emissor.

Lírica, a expressão dos desassombrados

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A pulsão lírica é o fio condutor de toda a obra de Horácio e é com ele que aparece um verdadeiro “eu lírico”, no seu sentido total e moderno. Em particular, no quarto livro das Odes, Horácio, já com cinquenta anos, surpreende-se por ainda arder nele a pulsão amorosa “Mas então porquê, ah, Ligurino, porque escorre por minha face rara lágrima?” (Horácio, Odes, Tradução de Pedro Braga Falcão, Livros Cotovia).

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Os ecos de Horácio ressoarão para sempre na Literatura. Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, por exemplo, no poema “As rosas amo dos jardins de Adónis”, espelha muitas das temáticas, linguagem e espírito de Horácio e, recuando um pouco no tempo, outro tanto se poderia dizer sobre a Ode IX de Camões.

Os amores de Ovídio, cinco livros escritos em dísticos, também se enquadram na classificação de Poesia Lírica, neste caso particular, amorosa. Tirando umas descrições e uma elegia à morte de Tibulo, os amores descrevem a relação entre o poeta e Corina.

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Não sendo fácil estabelecer um tema dos “Amores”, o próprio título dá-nos uma boa indicação do conteúdo: as relações amorosas. Talvez devamos até dizer que, mais do que de amores, se trata de traições, enganos e infidelidades.

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De uma certa forma o amor infiel dá relevo e fulgor ao amor, parte do prazer é ele ser “infiel” e obrigar os amantes a jogos de engano para o poder materializar. Com ironia, Ovídio queixa-se mesmo dos maridos que não montam a guarda e a vigilância de forma firme “Desde já eu te advirto: se não começas a montar guarda à tua amada, começa ela a deixar de ser minha” (Ovídio, Amores, tradução Carlos Ascenso André, Livros Cotovia).

Propércio é o autor dos quatro livros que constituem as Elegias, logo no primeiro verso fica bem clara a matriz lírica “Cíntia, a primeira, com seu olhar me cativou, a mim, desventurado” (Propércio, Elegias, Lisboa, Centro de Estudos Clássicos, Faculdade de Letras).

Logo no verso de abertura estão bem delineadas as marcas do “amor elegíaco”, Cíntia é a primeira e, sem ela, o sujeito lírico é “desventurado”, um infeliz sem a posse do objeto amoroso. Uma parte do primeiro livro das Elegias é dedicado a Cíntia e outra a diversos amigos, nas Elegias que se dirige aos amigos, fá-lo para lhes falar de Cíntia. O conjunto torna-se, assim, praticamente, um romance de amor de inspiração autobiográfica. Depois de um primeiro amor idílico, vai seguir-se um amor mais sensual e marcado pelo ciúme: Propércio tem medo que Cíntia o traia. O primeiro livro vai terminar com gritos pungentes de desespero.

A Lírica acaba por abarcar todos os registos de expressão subjetiva, todas as alegrias, tristezas, ciúmes, ódios, ressentimentos, etc. Foi tomando diversas formas que foram sempre convivendo, da ode à elegia, para só mencionar alguns, permitindo, assim, exprimir toda a paleta de emoções, da euforia à profunda melancolia. Esse “instinto lírico” ou relação lírica com o real, acaba por estar presente em todas as línguas e culturas porque dá voz a forças pulsionais profundas no homem. A lírica é uma forma poderosa de dinamização da relação entre a subjetividade e a objetividade, estende a expressividade até ao limite correndo, obviamente, como em tudo o que é extremo na vida, o risco de cair no ridículo. A lírica será sempre a forma por excelência de expressão dos desassombrados que não temem as vertigens da emoção.

 

 

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