A fuga para dentro

A fuga para dentro

Quando penso na minha infância, vem de chofre a ausência do pai. Depois, a mãe que foi apenas genitora. Mas vem, principalmente, a doçura da avó que me deu acesso às primeiras letras, que me ensinou o bê-a-bá, e vem com força nova uma cosmogonia, que me elevou do que poderia ser (nada) ao que sou hoje, alguém que pode dialogar com o leitor através da poesia.

Quando penso na minha infância, hoje na condição de “idoso”, não gosto de me associar àquela pessoa que fica chorando as mágoas do que se foi, do que superou, do que não diz respeito ao presente de êxito e afeto familiar.

Vem-me à mente a frase do professor Rodrigo Gurgel: “recordar o nosso passado não pode ser um exercício de idealização” – nem quando tudo parece ter sido normal, nem quando tudo anormal, tampouco.

Viver num Abrigo é uma circunstância peculiar, mas não é o fim-do-mundo. Aliás, pode ser o começo de outro mundo. Esta cosmogonia para mim foi entender onde estava e com quem e como poderia sobreviver. O abrigo a que fui levado pela mão carinhosa de minha avó Cecília não era nenhum Ateneu, como descrito por Raul Pompéia.

Por isso mesmo, no meu íntimo sempre rejeitei fazer da minha infância um quadro de horror e incêndio, porque seria fruto apenas da “imaginação como doida da casa”, para usar a expressão de Santa Teresa d´Ávila.

Uma das definições de abrigo indica um lugar e tudo que possa significar amparo ou acolhimento. Pois, eis aí exatamente o que tive, ao ser recebido no Abrigo em Anápolis, onde fui acolhido por uma irmã adotiva que admiro até hoje, embora não tenha relacionamento social ou afetivo mais.

Cheguei ao local com sete anos incompletos. Portava, segundo me lembro uma roupa com que vovó tinha me vestido, que era uma espécie de veste de marinheiro – todo em azul-marinho, minha cor de predileção por muitos anos.

Uma das “moças” do Abrigo, que era misto, me adotou. Na minha memória, ela me diz todo o tempo:

– Tão lindo! vai ser meu irmão. Meu irmão. Maninho.

Eis meu primeiro apelido. Paguei caro por ter recebido tanto apreço. Os meninos-homens não me perdoavam a amizade de Laíde e de outras irmãs, que ainda hoje prezo – Eleusa, Maria do Carmo, Aparecida e Doralice (a doce Dora) – esta a quem devo minha primeira viagem a Divinópolis, ainda adolescente.

Foi em Divinópolis que conheci dona Adélia, de quem tenho alguns livros autografados, além dos meus guardados afetivos que são matéria ágrafa.
Num dos meus livros (muito falho), tentei escrever sobre a ausência da mãe e a presença dessas mulheres em minha vida e disse: “Reescrevo e reinvento o que leio em vós [Adélia], neste meu caderno escondido:

“Havia um quintal da casa antiga concebida:
A graça de Deus vista no amor de uma galinha
Seus pintinhos em torno de si, dia-a-dia…
Tão frágeis, tão ingênuos, a correr, a correr
E sua mãe sempre achando
O que lhe dar de comer”.

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Muitos teólogos já devem ter se debruçado (e muitas vezes se enganado) com esta metáfora de dona Adélia. Eu, nunca. Só vi no Abrigo a graça de Deus. Eu me sentia frágil, ingênuo, corria de um canto a outro. E sempre tive “o-de-comer”…

Dona Modesta foi a nossa “galinha de pintinhos” – a grande e consagrada mãe adotiva que Deus nos proveu, nome que coloquei em meu convite de casamento há 44 anos atrás. Tal como o pai adotivo (o Pai na Terra), Sêo Roque – que era assim que todos nós, uma centena de meninos e meninas, o chamávamos.

Na prática, Dona Modesta (e Adélia Prado, na versão poética!) traduzem para mim o Amor de Deus a seus filhos. Eu, sedento bebi desta Graça e desta redenção.

Há uma cosmogonia aí. Eu me recriei quando entendi que o Abrigo era (é, e será) sempre a minha casa.

Por isso, talvez, este para mim traduz o entendimento daquilo que Mircea Eliade chama de “simbolismo do centro” e, por extensão, os ritos de ascensão que têm lugar em um “centro”. Estou certo de que a corda que me puxou para o Alto tem origem na educação que recebi no Abrigo, e bem assim, tem a ver com a proximidade dos estranhos que me trataram como a um par, como um igual; e, o mais importante, pela figura da mãe e do pai substitutos.

E foi daí, talvez que o avô em que me tornei escreveu estes versos inéditos que refletem o que o Abrigo foi para mim. Uma cosmogonia que me elevou ao patamar do que sou – que pode não ser muito, para quem nasceu ao lado de mãe e pai dedicados, mas é tudo para quem não era nada:

      Árvore no centro:
uma corda para subir.
     A fuga pra dentro.

Adalberto De Queiroz

Adalberto De Queiroz

Adalberto de Queiroz, 65, natural de Goiânia, é empresário e jornalista por formação (UFG), Bacharel em Comunicação Social (pela UFRGS - onde também estudou Física, sem concluir o curso). Autor de "O rio incontornável" (Poemas), Edit. Mondrongo, 2017, entre outros títulos. É membro da Academia Goiana de Letras. E-mail.: betoq55@gmail.com

6 comentários sobre “A fuga para dentro

  1. Adalberto, meu amigo, que crônica mais linda! Que delicadeza! Que amor que você demonstra as pessoas que lhe acolheram! – Razão das bênçãos do Menino Jesus em vida. E esse Deus que você traz no coração.
    Admiro você.

  2. Adalberto, meu amigo, que crônica mais linda! Que amor dedicado às pessoas que lhe acolheram! Que delicadeza! Motivo de tanta proteção
    através do Menino Jesus e desse Deus que você traz no coração. Você não é só inteligente você é bom e abençoado. Um abraço.

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