Apressado

Apressado

Minha namorada disse que adora passar as férias no sítio da avó e me convenceu a ir com ela e com os pais para lá em janeiro.

Talvez eu não saiba diferenciar um sítio de uma fazenda, mas o sítio da avó dela me pareceu bem grande.

Adorei passar duas semanas lá. Além do lugar ser muito bonito, a família da Lara ainda tem o sotaque que ela e os pais perderam morando aqui em São Paulo.

Lá sofá é sufá, tábua é tauba e sustá é assustar.

O mais interessante, porém, é a criatividade da avó da Lara na hora de falar ditados populares que já conheci em São Paulo.

Em um dos primeiros dias a avó estava reclamando de um liquidificador que comprou pelo telefone que prometia separar a semente do suco, mas não separava.

Falei o que ela devia fazer para reaver o dinheiro, no que ela me disse “de médico e advogado, todo mundo tem um bocado”, antes de anunciar que procuraria o advogado da família por acreditar na filosofia “cada macaco com seu cacho”.

Quando falei que a empresa que vendeu o liquidificador pelo telefone preferiria devolver o dinheiro a enfrentar um processo, ela riu e disse que “a corda num arrebenta se alguém soltá antes”.

Às vezes eu não entendia o que ela estava dizendo, mas no geral me divertia bastante. Até de sua viuvez ela falava com bom humor.

Um dia antes de irmos embora ela disse que mataria o porco que estava reservado para o natal, já que sua filha e sua neta não voltariam no final do ano.

Fingi que tinha um compromisso para resolver pelo laptop a fim de não ter de ver matarem e tostarem a pele do bicho antes de separar a carne para o churrasco e o pernil que cozinhariam à noite.

De churrasco eu gosto. Me postei ao lado da avó da Lara, que lidava com a churrasqueira.

— Posso pegar? — perguntei, num certo momento.

— A pressa é inimiga da refeição.

— Deixa disso! O cheiro está gostoso.

Ela riu para mim antes de dizer:

— Apressado come castenias.

De imediato não entendi o que ela disse, mas lembrei do pote em cima da mesa da cozinha.

Ri, achando graça do jeito dela falar e insisti mais um pouco:

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Crônica “Apressado”, de Farrel Kautely. (Foto: Reprodução)

— Prefiro comer carne. Gosto de porco mal passado.

Ela deu de ombros e me deu um pedaço. Voltei outras várias vezes ao longo do dia para pegar mais carne mal passada.

Daí semana passada senti uma dor muito forte na barriga ao mesmo tempo que um mal estar na cabeça, o que me soou meio anormal.

Pesquisei no Google possíveis males de sintomas assim e, quando vi “teníase” na lista, pensei, descrente que fosse essa a causa do meu tormento: “onde eu teria pego tênia?”.

Bastou me perguntar isso que tudo pareceu ficar claro na minha mente.

A avó de Lara não estava sugerindo que eu comesse castanhas para tapear a fome. Estava me alertando sobre os perigos de comer carne de porco mal cozida.

Peguei meu carro, passei na farmácia, comprei um remédio para dor e fui até a casa da minha namorada.

— Peguei tênia lá no sítio do sua avó — declarei para ela.

— Pegou o quê?

— Tênia. Parasita.

— Lá vem você de novo com sua hipocondria.

— Não sou hipocondríaco.

— Como não? Lembra que semana passada você estava com conjuntivite e estava convencido de que tinha uma larva de mosca comendo seu olho?

— Acontece que entrou uma mosca no meu olho dois dias antes que demorei pra conseguir tirar. E eu já vi caso de gente com larva de inseto no olho, tá?

— Pelo que sei o olho expulsa cisco sozinho, expulsaria ovos de moscas. Nunca ouvi falar disso.

— Tudo bem, mas de tênia em carne de porco você já ouviu falar, não é? Desta vez estou com sintomas de tênia, e sua avó…

— Que absurdo! Tênia e lombriga é coisa de lugar nauseabundo. Você está chamando minha vó de porca.

— Quê?! Não. Sua avó não é uma porca, mas o bicho que eu comi lá e me passou um parasita intestinal era.

— Minha vó cuida muito bem da criação dela.

— Se eu comi uma lesma quando era criança quando minha mãe virou pra conversar com minha tia, a porca da sua avó pode muito bem ter comido merda por aí sem que ninguém estivesse vendo.

— Ó ocê de novo chamando minha vó de porca!

— Deixa disso, Lara! Ela mesmo me mandou tomar cuidado com a carne.

Lara se recusou a me passar o número da avó. Bateu o pé no chão e teimou que eu não peguei nada de ruim na sua amada terra.

Fui ao hospital fazer um exame para esfregar na cara dela. Tudo isso só para descobrir que estou com úlcera.

Faz três dias que finjo de bobo sempre que a Lara me pergunta sobre as tênias. Não quero ouvir ela debochar de mim por não saber diferenciar uma dor no intestino de uma dor no estômago.

Farrel Kautely

Farrel Kautely

Farrel Kautely, 1994, é de Belo Horizonte. Escritor e professor, atualmente reside em Mariana - MG, onde cursa Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto. Possui várias obras publicadas, dentre elas "Minúscula Pulga" (romance), "Picas da Galáxia" e "Sushipeia" (crônicas) e "O mínimo que você precisa fazer para ser um completo idiota" (ensaios e pequenos artigos). E-mail: kauty.s@gmail.com

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