(Era uma vez em…) Hollywood, na versão de Ryan Murphy e Ian Brennan

(Era uma vez em…) Hollywood, na versão de Ryan Murphy e Ian Brennan

Recentemente, duas produções audiovisuais apresentaram Hollywood como protagonista. A produção de Quentin Tarantino, Era uma vez em… Hollywood (EUA, 2019), veio antes, propondo um final feliz para Sharon Tate Polanski e seus amigos, assassinados por membros da família Manson, em 1969. Em 2020, Ryan Murphy e Ian Brennan voltam a usar a fórmula da felicidade, para afirmarem que dias melhores não virão. Isso porque, na série Hollywood (Netflix – EUA, 2020), essa época feliz já faz parte do passado. Sendo assim, não temos mais que sonhar com o fim do preconceito, do racismo ou com a igualdade de gêneros, pois isso tudo é história bem conhecida. Sim, na versão imaginada por Murphy e Brennan, esses direitos foram conquistados há tempos, ainda no final da década de 1940.

A série Hollywood se passa em 1948 e, apesar de os diretores não utilizarem as palavras mágicas “Era uma vez” — tal como fez Tarantino —, a história reinventa a realidade, envolvendo atores e espectadores em um mundo de fantasias, desejado e perfeito. Entretanto, é justamente a ausência da expressão “era uma vez” no título que faz com que o enredo da série seja compreendido como verdade, ou como a real história desse reduto — imponente e decadente — da Cidade dos Anjos. A narrativa, então, ganha ares de documentário, o que se acentua com as características de época. Nesse momento: “Aceitamos o acordo ficcional e fingimos que o que é narrado de fato aconteceu” (ECO, 1999, p. 81, grifo no original).

Ledo engano. A arte é mentirosa, mas também pode ser redentora, por permitir a criação de mundos paralelos, perfeitos ou disformes. Desde a Antiguidade Clássica, a arte está intrinsecamente relacionada à invenção. Em sua Arte poética, Aristóteles já afirmava: “[…] não compete ao poeta narrar exatamente o que aconteceu; mas sim o que poderia ter acontecido, o possível, segundo a verossimilhança ou a necessidade” (ARISTÓTELES, 2017, grifo nosso). Mais adiante, no mesmo texto, o autor complementa: “Embora lhe aconteça apresentar fatos passados, nem por isso deixa de ser poeta, porque os fatos passados podem ter sido forjados pelo poeta, aparecendo como verossímeis ou possíveis” (ARISTÓTELES, 2017).

Em Hollywood, Murphy e Brennan seguem à risca esses preceitos e criam uma cerimônia de entrega do Oscar que surpreende, ao final da série (Fig. 1). A premiação, situada em 1948, é democrática, dando espaço à diversidade, em aspectos bastante distintos: de raça, gênero, etnia e sexualidade. Sem dúvida, essa antecipação de ideais libertários serve de mote para a série-manifesto, que segue a mesma linha do discurso icônico de Martin Luther King. Os sonhos de Murphy e Brennan são também nossos e, na impossibilidade de torná-los reais, neste exato momento, como em um passe de mágica, os autores escolheram celebrar a igualdade e a tolerância, concretizando-as no passado. Emprestando as palavras de Zygmunt Bauman, podemos considerar esse artifício criativo como um modo de tentar compreender o “incompreensível” e de controlar o que parece ser “incontrolável” (BAUMAN, 2008, p. 125), afinal, segundo o teórico, o entendimento “nasce da capacidade de manejo. O que não somos capazes de administrar nos é ‘desconhecido’, o ‘desconhecido’ é assustador” (BAUMAN, 2008, p. 125, grifo no original).

Hollywood 1 - (Era uma vez em...) Hollywood, na versão de Ryan Murphy e Ian Brennan
Figura 1: A cerimônia do Oscar que (infelizmente) nunca existiu!
Imagem disponível em: < https://www.benzinemag.net>

Na plateia, estão presentes os executivos mais poderosos da época, inclusive os responsáveis por um dos filmes indicados ao Oscar, naquele ano de 1948. Entre eles, destaca-se Henry Willson (Jim Parsons), um dos personagens reais da série. Apesar disso, até mesmo ele tem o destino completamente alterado pela imaginação benfazeja dos criadores de Hollywood.  De vilão, Willson passa a ser mocinho, pois o arrependimento e o desejo de retratação acabam por colocá-lo no bom caminho.

Outra surpresa da cerimônia imaginada na série é a indicação de uma atriz negra e de uma atriz asiática aos principais prêmios da noite (Fig. 2):

Hollywood 2 - (Era uma vez em...) Hollywood, na versão de Ryan Murphy e Ian Brennan
Figura 2: Elogio à diversidade tm início com as atrizes indicadas ao Oscar.
Imagens disponíveis em: <https://hips.hearstapps.com> e <https://lh3.googleusercontent.com>

Contrariando o conto de fadas idealizado pelos autores da série, a realidade nua e crua nos fez esperar muitos anos por vitórias que pudessem garantir representatividade às mulheres não brancas. Apenas em 2002, a atriz Halle Berry “fez história no Oscar. Por viver a personagem Leticia Musgrove em A Última Ceia, ela se tornou, em 2002, a primeira mulher negra a receber da Academia o prêmio de Melhor Atriz” (PORTAL GELEDÉS, 2020). Até agora, nenhuma mulher asiática conquistou o mesmo feito. Contudo, em 1957, a atriz Miyoshi Umeki chegou perto disso, quando foi considerada a Melhor Atriz Coadjuvante (MEMÓRIAS CINEMATOGRÁFICAS, 2020).

Além dessas antecipações, os idealizadores de Hollywood resolveram adiantar em alguns anos o triunfo da homoafetividade.  Dois personagens homens da série formam um casal e lutam pelo direito de se assumirem, ainda mais se levarmos em conta o fato de que a relação rompia também com o tabu inter-racial. Nos anos 1940, essa condição representava um duplo obstáculo a ser superado pelo casal, que, enfim, decide correr um grande risco profissional, para assumir a vida em comum e o amor (Fig. 3).

Hollywood 3 - (Era uma vez em...) Hollywood, na versão de Ryan Murphy e Ian Brennan
Figura 3: Ator e roteirista assumem relacionamento homoafetivo e inter-racial, durante a premiação. Imagens disponíveis em: <https://p2.trrsf.com> e <https://elbocon.pe>

Na realidade, Rock Hudson nunca assumiu sua homossexualidade. No entanto, os comentários surgiram em 1985, quando o vírus da Aids provocou a morte do ator. Posteriormente, os boatos se confirmaram, inclusive com a revelação de que Hudson tinha uma paixão avassaladora por Lee Garlinton, outra celebridade da época. Claro que, na cerimônia criada por Murphy e Brennan, o que mais chamou atenção não foi a novidade em si, mas o beijo que o casal protagonizou no palco. Aliás, esse é um episódio que ainda não se concretizou, no mundo real. O máximo que ocorreu não passou de uma brincadeira, no ano de 2012, quando o galã George Clooney e o comediante Billy Crystal se beijaram na boca, durante uma premiação do Oscar. Já, quanto à conquista de um roteirista negro, no que se refere ao prêmio mais cobiçado da sétima arte, podemos dizer que a realidade obedeceu aos desejos dos diretores de Hollywood, mesmo que tardiamente. Isso significa que apenas em 2018 — ou seja, 70 anos depois da época da série —, o negro Jordan Peele, que escreveu e dirigiu o longa Corra!, foi premiado na categoria de Melhor Roteiro Original (ARAÚJO, 2020).

Por fim, a aventura de Hollywood se encerra com o trinfo de uma mulher (Fig. 4), que assume a direção dos estúdios Ace, enquanto o marido está afastado, por motivo de doença. Diante disso, ela precisa fazer valer suas opiniões, lutando contra acionistas, produtores e contra a própria sociedade, que obedeciam cegamente aos princípios do patriarcado.

Hollywood 4 - (Era uma vez em...) Hollywood, na versão de Ryan Murphy e Ian Brennan
Figura 4: Na série, estúdio comandado por uma mulher redefine os rumos da história do cinema. Imagens disponíveis em: <https://static01.nyt.com> e <https://i2.wp.com>

Evidentemente, essa situação só ocorreu, de fato, muitos anos depois, quando, em 1980, Sherry Lansing assumiu o comando da 20th Century Fox, tornando-se a primeira mulher a liderar um estúdio de cinema. Felizmente, esse foi só o início de sua carreira de destaque, já que, posteriormente, ela trabalhou como produtora independente e também como CEO da Paramount Pictures (SHERRY LANSING FOUNDATION, 2020). Consequentemente, a conquista da personagem, na série, que levou a estatueta de Melhor Filme, também não passou de invenção. A realidade, mais uma vez, foi mais vagarosa, fazendo com que apenas em 1970 a produtora Julia Phillips fosse agraciada com a tão disputada estatueta, nessa categoria que é uma das mais importantes do Oscar (HENRIQUES, 2020).

Com certeza, teríamos, hoje, um mundo completamente diferente, se tudo o que Murphy e Brennan imaginaram tivesse mesmo ocorrido no passado. Infelizmente, nossa história não se fez dessa forma. Ainda esperamos que esses sonhos se realizem. Até lá, porém, não custa nada darmos asas à imaginação, instituindo “um contramundo ao mundo da vida cotidiana” (BERGER, 2020), para tentar dar vida aos nossos ideais. Assim, podemos acreditar que essa realidade um dia virá. 


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REFERÊNCIAS

ARAÚJO, M. C. Jordan Peele é o primeiro negro a conquistar Oscar de Melhor Roteiro Original. Disponível em: <http://www.palmares.gov.br/?p=49345>. Acesso em: 25 set. 2020.

ARISTÓTELES. Arte poética. Disponível em: <file:///C|/site/livros_gratis/arte_poetica.htm>. Acesso em: 23 ago. 2017.

BAUMAN, Z. Medo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

BERGER, P. L. O riso redentor: a dimensão cômica da experiência humana. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=Fuw9DwAAQBAJ&lpg=PT126&ots=qUQVmGS9MY&dq=catarse%2Briso&hl=pt-BR&pg=PT126#v=onepage&q=catarse+riso&f=false>. Acesso em: 23 abr. 2020.

ECO, U. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ERA uma vez em… Hollywood. Direção: Quentin Tarantino. EUA: Heiday Films, Bona International Film Group, Columbia Pictures, Sony Pictures Entertainment e Visiona Romantica; Sony Pictures, 2019. 161min, colorido.

HENRIQUES, C. Oscar 2018: as mulheres que fizeram história na premiação. Disponível em: <https://www.cineset.com.br/oscar-2018-as-mulheres-que-fizeram-historia-na-premiacao/>. Acesso em: 25 set. 2020.

HOLLYWOOD. Direção: Ryan Murphy, Ian Brennan e Janet Mock. EUA: Netflix; Netflix, 2020. Temporada 1 (7 episódios), colorido.

MEMÓRIAS CINEMATOGRÁFICAS. Miyoshi Umeki, a única asiática vencedora de um Oscar de melhor atriz. Disponível em: <https://www.memoriascinematograficas.com.br/2019/10/miyoshi-umeki-unica-asiatica-vencedora.html>. Acesso em: 25 set. 2020.

PORTAL GELEDÉS. 13 negros vencedores do Oscar. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/13-negros-vencedores-do-oscar/>. Acesso em: 25 set. 2020.

SHERRY LANSING FOUNDATION. Founder. Sherry Lansing. Disponível em: <http://www.sherrylansingfoundation.org/about/founder/>. Acesso em: 25 set. 2020.
Verônica Daniel Kobs

Verônica Daniel Kobs

Pós-Doutorado na área de Literatura e Intermidialidade (UFPR). Professora do Mestrado e do Doutorado em Teoria Literária da UNIANDRADE. Professora do Curso de Especialização em Letras da PUC-PR. Professora do Curso de Graduação de Letras da FAE. Autora do blog Interartes: Artes & Mídias (https://danielkobsveronica.wixsite.com/interartes). E-mail para contato: danielkobs.veronica@gmail.com

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