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Uma máscara confessa-se, ou um relutante e hipócrita baile de máscaras discriminatório

Ainda na casa dos vinte anos, o autor Kimitake Hiraoka, conhecido do grande público como Yukio Mishima, escreve o seu segundo livro traduzido como “Confissões

Ainda na casa dos vinte anos, o autor Kimitake Hiraoka, conhecido do grande público como Yukio Mishima, escreve o seu segundo livro traduzido como “Confissões de uma máscara”.

“Kochan”, o protagonista do romance, nasce numa era em que o Japão é dominado pelo conservadorismo, militarismo e Imperialismo, o que vai tornar a sua vida particularmente difícil. Tal como Mishima, Kochan é fisicamente fraco e essa ausência de robustez não vai ao encontro da cultura nipónica em geral e da “onda imperialista” viril da época em particular.

Kochan, como muitos na época, vai ser educado à margem dos valores vigentes, não vai conviver com os rapazes da sua idade e, como sempre, neste tipo de “marginalidade” vai desenvolver um fascínio pela violência e “fantasias de morte” (termo psicanalítico).

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É fácil verificar paralelismos entre Kochan personagem, diminutivo de “Kimitake”, nome real de Mishima, e o autor. Para os marginalizados e discriminados, normalmente não sobra mais do que o mundo do álcool, da droga, da prostituição, de alguma variante de espetáculo sexual e o mundo das artes. Esta conveniente marginalização é o resultado da violência tácita que sobre eles foi exercida.  

Yukio Mishima, Tokyo, 1970.

Escrever as “Confissões” é uma forma de luta contra o establishment, de uma forma velada é um panfleto ou um manifesto: sob a forma romance bildungsroman (romance dos anos de formação), deixa ao público todo um testemunho pessoal.

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Toda a obra é escrita numa “linguagem deslocada”, Steiner dizia justamente que as ditaduras faziam mais bem à arte que as democracias porque obrigavam a estas criativas “deslocações”. Kochan tem um primeiro despertar sexual numa idade prematura, mas, a sociedade homofóbica em que está inserido, não tem linguagem para a descrever diretamente, o autor recorre então à descrição da atração sexual como uma atração pela “força”, pelo “poder”, pela “voz estranha” que ecoou nele. Este “despertar” estará sempre presente ao longo da sua vida. Recordo que o livro é de 1949.

A atração sexual vai tomar a forma de desejo de identificação com o objeto amoroso: um rapaz marcadamente viril. Kochan desvaloriza-se a si mesmo, é conhecida a luta dos marginalizados pelo reconhecimento do seu valor por si mesmo, e glorifica tudo no outro-ideal de masculinidade, esse desejo de ser outro leva-o a assumir uma “máscara”, só podendo ser ele sendo outro. O público do espetáculo do travestismo de homens que, em palco, podem ser uma mulher é normalmente constituído por homens que assumiram socialmente a máscara da virilidade e por mulheres que se maquilharam para algum papel social também – o teatro é feito de atores para atores – sim, caímos no cliché “a vida é um teatro”. A sociedade pré-define a forma que a identidade pessoal pode tomar e rejeita através de mecanismos visíveis ou tácitos todas as outras.

A confissão nada mais é que a famigerada “tristeza do palhaço”, depois de retirada a máscara e limpa a maquilhagem, o ator confronta-se com o vazio do poder do palco, com o fim da mascarada.

As máscaras estão todas destinadas a cair…

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