[wpdreams_ajaxsearchlite]
Anúncio

Se não me falha a memória

Nem gênero, nem alguém de confiança. Uma companhia constante e engraçadinha. Que a memória é de fato algo muito curioso, nós já sabemos. É por

Nem gênero, nem alguém de confiança. Uma companhia constante e engraçadinha.

Que a memória é de fato algo muito curioso, nós já sabemos. É por vezes cristalina, fluida e perfeita, tanto quanto água de rio não explorado. Outras vezes, escapa, brinca de esconder e nos prega peças homéricas. Sempre tive boa memória para o que é dito. As palavras lançadas e situações das mais corriqueiras teimam em permanecer por perto. As letras das canções também estavam sempre à mão da memória, agora, ficam pela metade ou precisam de um empurrãozinho para que cheguem a mim por completo.

Guardar pessoas na memória é ainda mais complexo e significativo. Há quem permaneça durante uma vida. Há fisionomias guardadas e nomes fugitivos. – Conheço você de algum lugar!Como se chama? Seguido de um – Não lembro de você não… ou ainda da pergunta a alguém próximo: – Quem era esse? após uma conversa controversa e bem encenada. Quem vê dezenas de rostos por dia corre o risco de deixar arquivados alguns, que no futuro se deslocarão dos registros cotidianos, passando a habitar um entrelugar incompleto e impalpável por mais esforço que se faça para o resgate. Acredito então que a frase mais antiga empregada na humanidade é “Se não me falha a memória”.

Um dia desses, fui confundida com outra pessoa. Um homem foi descaradamente traído pela memória e me confundiu com alguém de seu convívio. Ao passar por mim, sussurrou que eu parecia demais com uma antiga amiga e só então eu, que andava absorta, reparei sua presença e voltei a ele a minha atenção.

Anúncio
Se não me falha a memória

Ele, que já havia passado por mim, voltou-se e retornou alguns passos para me falar de sua memória. – Eu achei que você fosse a Vera Lúcia Guimarães! (ou seria Magalhães? Não lembro exatamente), e me contou que se tratava de uma amiga, da área do direito, com quem trabalhou por vinte anos.

Percebi se tratar de uma mulher um pouco mais velha, pois não conheço ninguém com esse nome que tenha menos de quarenta anos. O homem, branco, grisalho e calvo, também tinha (será que já pareço mais velha?). Além do tempo durante o qual dividiram o local de trabalho: vinte anos! Eu expliquei que minha área de atuação era outra e que lecionava. Ele disse que lecionou também durante um tempo em uma universidade. Eu, leciono para ensino fundamental e médio, novamente me expliquei. Ele morou fora do Brasil durante um tempo e a Vera mora na Bahia, segundo ele, visitando o Rio de Janeiro vez ou outra. Perguntei se durante todo esse tempo mantiveram contato e a resposta foi afirmativa. Para ele, éramos muito parecidas, com exceção da altura. Vera é um pouco mais alta.

Anúncio

Disse ele que faltou pouco para me dar um abraço tamanha era lembrança de Vera e a minha semelhança distraída com ela. Disse ainda que se o fizesse, correria o risco de levar um tapa. Respondi que tapa não, mas acharia estranho (e daria muitas risadas certamente depois do ocorrido).

Ficando claro que não se tratava de mim e que os retalhos de colcha da memória não eram o suficiente para construir uma máquina do tempo completa, desejamos boa noite, boa sorte e nos retiramos. Em alguns minutos nos esbarramos em um outro corredor contíguo e acenamos entre tantos outros cumprimentos e acenos dos passantes. Se apesar da distância a amizade mantém a proximidade, a essa altura, a Vera já sabe que a memória a fez andar pelo Rio de Janeiro, distraída e faceira na imagem de uma desconhecida.

LEIA TAMBÉM: O Olhar Profundo Da Memória — Recorte Lírico (recortelirico.com.br)

0 0 votos
Classificacao do Artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

Giro Recorte Lírico

A (má) influência de um filósofo bigodudo sobre dois filósofos ranzinzas
12 jul

A (má) influência de um filósofo bigodudo sobre dois filósofos ranzinzas

Nietzsche/Heidegger/Wittgenstein Sobre o problema de se chegar demasiado cedo às festas “Nel mezzo del camin”.                                                                                                                                               Dante Alighieri

The Walking Dead: Daryl Dixon | 5 Motivos Para Esperar Ansiosamente Pelo encontro com Rick
28 jul

The Walking Dead: Daryl Dixon | 5 Motivos Para Esperar Ansiosamente Pelo encontro com Rick

A série The Walking Dead: Daryl Dixon tem mantido os fãs ansiosos com a possibilidade de uma reunião entre dois

Neon: Final Explicado e Resumo da Série | O que Aconteceu com a Carreira Musical de Santi?
20 out

Neon: Final Explicado e Resumo da Série | O que Aconteceu com a Carreira Musical de Santi?

A série "Neon", lançada pela Netflix em 2023, narra a jornada de três melhores amigos que se mudaram para Miami

A leitura conceitual em “Destrua este diário”
22 abr

A leitura conceitual em “Destrua este diário”

Lançado em 2013, pela editora Intrínseca, o livro Destrua este diário, escrito por Keri Smith, possibilita ao leitor uma experiência única,

Resenha e breve análise – Desenredo, de João Guimarães Rosa
01 fev

Resenha e breve análise – Desenredo, de João Guimarães Rosa

Desenredo, de João Guimarães Rosa João Guimarães Rosa é um autor conhecido por suas produções inovadoras e originais durante a

Debaixo da Ponte: A Verdadeira História do Assassinato de Reena Virk (Episódio 7)
22 maio

Debaixo da Ponte: A Verdadeira História do Assassinato de Reena Virk (Episódio 7)

Por que Rebecca defendeu Warren? No episódio anterior de "Under the Bridge" (Debaixo da Ponte: A Verdadeira História do Assassinato

Posts Relacionados

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x