Recorte Lírico

Tirando a literatura dos corredores acadêmicos

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Conhecimento da ilusão – por Wagner Schadeck

28 de abril de 2017

Categorias:Artigo de Opinião,Resenha Tags:

Algumas palavras sofrem grandes transformações. “Jogo” (em latim iocus), que tinha o sentido de brincadeira, como o adjetivo “jocoso”, torna-se engano (como o de ludus), cujo sentido ainda está presente na palavra “ludíbrio”, adquirindo tanto o sentido de brincadeira quanto o de ilusão (em latim illusio, formado por “in” e “ludus”, no sentido de divertimento).
Tema por excelência na poesia, o amor é duplamente jogo e ilusão, pelo menos para o poeta irlandês William Butler Yeats (1865 – 1939), prêmio Nobel de Literatura em 1923.
NEVER GIVE ALL THE HEART
Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that’s lovely is
But a brief, dreamy. Kind delight.
O never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.
William Butler Yeats
JAMAIS DÊ TODO O CORAÇÃO
Jamais dê todo o coração.
Mulheres passionais não dão
Valor pra o amor se lhes parece
Seguro. Ignoram que esvaece
De beijo a beijo, porque deve
Ser doce enlevo, um sonho breve.
Um típico deleite incerto.
Jamais dê o coração aberto
Àquelas que seduzem logo,
Dando seus corações em jogo.
Bobo e cego de amor, porém,
Quem poderia jogar bem?
O custo disso o que entendeu,
Ao dar seu coração, perdeu.

Tradução de Wagner Schadeck

A língua inglesa é bastante sintética e monossilábica. Por isso, geralmente os tradutores optam por traduzir “heart” por “peito” ou “alma”. Mas no caso desse poema, a imagem do jogo perderia o sentido. Trata-se de um jogo de cartas, possivelmente uma consulta, por meio da qual se revelam as escolhas e as personalidades.
O eu-lírico é um cartomante. Os naipes (valores) e imagens que aparecem são relacionados com o consulente, que é um jovem. Assumindo a consulta, deixando de lado os Arcanos Maiores, sugiro que as cartas que são abertas sejam: a Princesa (ou Dama) de Copas e o Príncipe Sete de Copas.
Segundo o Tarô: dicionário e compêndio, da Jana Ritley, o Copas é um dos quatro naipes dos Arcanos Menores. Também conhecido por corações, cálices, copos, rios, caldeirão, tigela, taça, graal, vasos, peixe, flores, e outros títulos, dependendo do baralho. Tipicamente associado à água, sentimento, emoções, coração, sonhos, memórias, medo, prazer, instintos e ao subconsciente. (RITLEY, 2000. p.36)
Como no poema, o valor da escolha do jovem envolve a emotividade. Ele parece apaixonado por uma mulher, algo relacionado com as características desse naipe: “sonhos, medo, prazer etc.”.
Partindo do poder místico e curativo associado ao Graal, o cartomante admoesta o consulente com relação ao jogo do relacionamento e à ilusão dos afetos. Esse alerta parece condizer com algumas características da Princesa (Dama) de Copas. O jovem sente-se: “Aberto ao amor e a novos relacionamentos.” Mas “sofre o risco de dependência emocional.” Porque essa carta “traz mensagens dos sonhos ou da intuição. (Greer)
Além disso, ela representa a natureza das “mulheres passionais”, cujo “caráter é infinitamente gracioso, toda volúpia, doçura, bondade e ternura.” (Crowley), sendo ainda a “parte brincalhona e afetuosa da personalidade” (Noble).
Resultado de imagem para Tarô Mitológico de Juliet Sharman-Burke e Liz Greene, ilustrado por Tricia Newell. Siciliano, 1988.
Tarô Mitológico de Juliet Sharman-Burke e Liz Greene, ilustrado por Tricia Newell. Siciliano, 1988.

Yeats parece alertar exatamente para o jogo de confiança “nos sentimentos e impressões” de alguém que aparenta “sonhos e visão amorosa.” (Eakins). Porque ao abrir a segunda carta, ele vê que o consulente é um “homem jovem, infeliz no amor.” (Waite) (RITLEY, 2000. p. 187)
É quando se torna mais específico o sentimento do consulente: O Príncipe (ou Valete) o Sete de Copas: O Príncipe de Copas é o “Amante. Uma indicação de que há muita paixão e o desejo de expressar sentimentos de forma calorosa. (Arrien)” (RITLEY, 2000. p.184), enquanto o Sete de Copas revela uma que “escolha há de ser feita, e deve-se ter muito cuidado e consideração com esta escolha (Sharman-Burke)” (RITLEY, 2000. p.133)
É algo próximo à cautela recomendada no poema. Yeats adverte que as “mulheres passionais” (mulheres que amam a paixão, amam ser amadas, como a revela a carta de Princesa de Copas) jogam com a graciosidade e os sentimentos, representados pelo naipe de copas (coração). Porém, o menino precisa escolher entre descartar ou comprar os sentimentos, o que envolve a confiança das relações.
Cada escolha requer um valor a ser adquirido ou desperdiçado. Há uma relação entre a confiança (dar fé, dar crédito, acreditar), os relacionamentos (o jogo e a ilusão) e o valor das escolhas (a moral).
Não seria exagero atribuir uma leitura esotérica desse poema, uma vez que o poeta irlandês participou dos estudos ocultistas. O poema, no entanto, revela uma experiência pessoal, um valor que não consta nas cartas: a de perder jogando com o coração.

Por Wagner Schadeck[1]


[1]Nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera. Pela mesma editora, em 2014, publicou a tradução das Odes de John Keats.